Mitologia do Dia #019 · Ulisses (Odisseia)
Mitologia do Dia

EDIÇÃO Nº 019

O MITO DE HOJE

Ulisses (Odisseia)

Grécia arcaica. Rei de Ítaca. O homem de muitas voltas.

O retorno como transformação

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Ulisses amarrado ao mastro ouvindo o canto das Sereias

A INSCRIÇÃO

Ulisses levou dez anos para voltar. Não porque o caminho era longo. Porque ele precisava mudar para chegar.

Dez anos de guerra. Dez anos de retorno. Quando finalmente chegou, ninguém o reconheceu. Não porque estivesse disfarçado. Porque não era mais a mesma pessoa. A viagem que deveria ser trajeto se revelou transformação. O destino era o mesmo. Quem chegou, não.

I

O Mito

Ulisses (Odisseu, na tradição grega) era rei de Ítaca, esposo de Penélope, pai de Telêmaco. Lutou em Troia por dez anos. O cavalo de madeira foi ideia dele. Troia caiu por sua astúcia. Quando a guerra acabou, partiu para casa.

Homero, na Odisseia, dedica 24 cantos a essa volta. A viagem que deveria levar semanas levou uma década. Cada episódio é um desvio, um teste, uma tentação.

Ulisses enfrentou o Ciclope Polifemo e escapou pela astúcia de dizer que seu nome era "Ninguém". Passou pela ilha de Eolo, onde recebeu os ventos presos num saco de couro, e os companheiros o abriram por ganância. Circe transformou seus homens em porcos, e ele a enfrentou com a erva moly dada por Hermes. Desceu ao Hades e conversou com os mortos, incluindo sua própria mãe, que morrera de saudade. Passou pelas Sereias, amarrado ao mastro, ouvindo o canto que matava todos os que paravam. Passou entre Cila e Caríbdis, perdendo seis homens para salvar o resto.

Na ilha de Calipso, ficou sete anos. A ninfa lhe ofereceu imortalidade. Ulisses recusou. Queria voltar. Mortal, envelhecido, mas de volta.

Quando chegou a Ítaca, chegou sozinho. Todos os companheiros tinham morrido. A casa estava tomada por pretendentes que cortejavam Penélope e consumiam seus bens. Atena o disfarçou de mendigo. Ele entrou na própria casa como estranho.

Penélope propôs o desafio do arco. Só quem conseguisse encordoar o arco de Ulisses e disparar através de doze machados poderia desposá-la. Os pretendentes falharam. O mendigo acertou. E depois matou todos.

Tenísquilis, os antigos comentadores de Homero, notavam que Ulisses é o único herói da tradição grega que resolve mais problemas com a palavra do que com a espada. Ele mente para Polifemo, negocia com Circe, persuade Calipso, engana os pretendentes. A odisseia dele é linguística. A transformação acontece no discurso, não no combate.

"Canta-me, ó Musa, o homem de muitas voltas." (Homero, Odisseia I)

II

O Diagnóstico

O que Homero estava registrando não é uma aventura de viagem. É o mapeamento completo do que acontece quando alguém tenta voltar a ser quem era.

Campbell chamou isso de A Jornada do Herói e usou a Odisseia como modelo. A partida, a iniciação, o retorno. Mas o que Campbell estruturou como ciclo, Jung descreveu como individuação: o processo pelo qual a pessoa se torna inteira. E o ponto central da individuação é este: você não volta. Você chega como outro.

Cada episódio da Odisseia é um encontro com um aspecto da psique. Polifemo é a força bruta que não se vence com força. Circe é a sedução que transforma quem a aceita sem consciência. O Hades é a descida ao inconsciente, o encontro com os mortos interiores. As Sereias são o chamado do passado: o canto que promete a versão antiga de si. Cila e Caríbdis são a escolha impossível que toda travessia impõe.

Hillman leria Ulisses pelo viés do polytropos, o epíteto homérico que abre a Odisseia: "o homem de muitas voltas". Não apenas muitas aventuras. Muitas versões. Ulisses é cada pessoa que precisou se transformar tantas vezes durante a travessia que, ao chegar, precisa provar quem é. Porque quem era já não existe mais.

Freud veria na recusa da imortalidade oferecida por Calipso o momento decisivo. A tentação não é o prazer eterno. É a estagnação confortável. Calipso oferece a Ulisses a possibilidade de nunca mais mudar. Ele recusa. Escolhe a mortalidade, o envelhecimento, a incompletude. Escolhe continuar.

O diagnóstico é preciso: toda tentativa de voltar ao que era encontra o fato de que o que era não existe mais. O lugar está lá. Você, não.

O psicólogo Daniel Levinson, em 'As Estações da Vida do Homem', descreve as transições da vida adulta como períodos em que a estrutura de vida anterior se desfaz e uma nova precisa ser construída. Cada episódio da Odisseia corresponde a uma transição. Ulisses não está viajando no espaço. Está viajando no tempo psíquico. Cada ilha é uma fase da vida que precisa ser atravessada, não habitada.

O conceito de nostalgia como patologia (definido originalmente por Johannes Hofer em 1688 como doença de soldados suíços) é relevante. Ulisses não sente saudade de Ítaca como era. Sente saudade de uma versão de Ítaca que corresponde à versão de si mesmo que partiu. Mas essa Ítaca não existe mais. E esse Ulisses também não. O retorno é sempre a um lugar que mudou enquanto você mudava.

O conceito de mudança de segunda ordem, da teoria de sistemas, é relevante. Mudança de primeira ordem é fazer mais do mesmo (mais esforço, mais velocidade, mais repetição). Mudança de segunda ordem é mudar as regras do sistema. Ulisses faz mudança de segunda ordem em cada episódio: não luta contra Polifemo com força (primeira ordem), usa astúcia e identidade falsa (segunda ordem). A Odisseia inteira é um manual de mudança de segunda ordem.

III

O Espelho

Existe um lugar, uma fase, uma versão de você para a qual está tentando voltar?

Uma época em que as coisas "funcionavam". Uma identidade que fazia sentido. Uma relação que era mais simples. Você sente saudade disso. E tenta recriar. Mas cada tentativa esbarra no fato de que você já não é quem era quando aquilo funcionava.

Ulisses voltou para Ítaca. Mas Ítaca não reconheceu Ulisses. E Ulisses não reconheceu a si mesmo na Ítaca que encontrou.

A pergunta é: o que você chama de "voltar" é voltar ou é chegar como outro?

Identifique a Ítaca que você está tentando alcançar. Agora pergunte: essa Ítaca é real ou é memória? Existe um lugar, uma época, uma versão da sua vida que você está tentando restaurar? Se existe, a Odisseia não é a viagem de volta. É o processo de aceitar que a volta é chegada, não retorno.

Até o próximo diagnóstico.

Até o próximo diagnóstico.

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