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Existe um tipo de porta que, uma vez fechada, ninguém mais reabre. Não é a briga que termina no grito e se resolve no dia seguinte. É o nojo, aquela sensação que sobe quando alguém faz algo que você não consegue mais tirar da cabeça, e que de repente apaga tudo o que existia antes entre vocês.
Tsukuyomi, o deus-lua que o sol nunca mais quis ver depois de um único gesto, é o mito que mostra esse instante sem disfarce: o momento em que um vínculo inteiro se rompe para sempre por causa de uma só imagem que enojou, e os dois lados pagam com uma distância que não acaba mais.
I
O Mito
Tsukuyomi nasce junto com o mundo. Quando o deus Izanagi lava o rosto depois de descer ao reino dos mortos, do olho esquerdo surge Amaterasu, a deusa do sol, e do olho direito surge Tsukuyomi, o deus da lua. Os dois são irmãos, nascidos no mesmo instante, feitos da mesma origem.
No começo, sol e lua dividem o mesmo céu. Amaterasu e Tsukuyomi governam lado a lado, um ao lado do outro, sem separação entre o dia e a noite. O deus da luz e o deus da luz mais fria caminham juntos pela mesma abóbada.
Um dia, Amaterasu ouve falar de Ukemochi, a deusa da comida, que vive na terra e alimenta o mundo. Curiosa, a deusa do sol pede ao irmão que desça até ela e a visite em seu nome. Tsukuyomi aceita e parte como enviado da irmã.
Ukemochi o recebe com festa. Para preparar o banquete, ela vira o rosto para a terra e da boca dela jorra arroz cozido. Vira o rosto para o mar e da boca saem peixes de todo tipo. Vira o rosto para as montanhas e de dentro dela vêm os animais da caça.
Com tudo o que saiu do próprio corpo, Ukemochi monta uma mesa farta e oferece ao visitante. Ela faz aquilo como quem entrega o melhor que tem, o alimento que nasce dela mesma, num gesto de hospitalidade sem reservas.
Mas Tsukuyomi olha para a mesa e sente nojo. Onde havia oferta, ele enxerga sujeira. Achou que comer o que saiu da boca de outro ser era um insulto, uma ofensa à sua figura de deus. O nojo sobe mais rápido do que qualquer pensamento, e ele não consegue mais ver nada além daquela imagem.
Tomado pela repulsa, Tsukuyomi se volta contra Ukemochi e a destrói ali mesmo, no meio do próprio banquete que ela havia preparado. O enviado que deveria apenas visitar tira a vida da anfitriã por causa do que ela tinha na mesa.
Do corpo caído de Ukemochi, porém, brota o sustento do mundo: da cabeça nascem os bois e os cavalos, dos olhos o arroz, do ventre o trigo, das outras partes o feijão e o bicho-da-seda. A perda dela vira a origem da lavoura, mas Tsukuyomi não fica para ver. Ele sobe de volta ao céu.
De volta ao alto, Tsukuyomi conta à irmã o que fez, sem imaginar o tamanho da reação. Amaterasu escuta e se enche de horror. O mesmo nojo que tomou o irmão diante do banquete toma agora a deusa do sol diante do irmão. Ela olha para ele e não vê mais o companheiro de céu, vê alguém que ela não suporta encarar.
Então Amaterasu pronuncia a sentença: você é um deus perverso, e eu não vou mais ficar cara a cara com você. Ela vira as costas e se afasta para o outro lado do céu. Desde esse dia, o sol e a lua nunca mais dividem a mesma abóbada. Um sobe quando o outro se põe, e a distância entre o dia e a noite é o rastro dessa ofensa que nunca foi perdoada.
II
O Diagnóstico
Tsukuyomi é, no seu núcleo arquetípico, o mito de quem rompe um vínculo para sempre por causa de um único gesto que o enojou, o padrão do corte total decidido no calor da repulsa, que empurra alguém para o outro lado do céu por causa de uma só imagem que não sai mais da cabeça.
Repare no que torna o mito preciso: Amaterasu não corta o irmão por uma traição planejada nem por anos de mágoa acumulada. Ela corta por nojo. Um gesto só, contado em poucas palavras, e a deusa do sol decide que nunca mais vai encarar quem nasceu ao lado dela.
Esse é o primeiro traço do padrão. O nojo é a emoção que apaga o passado inteiro de uma vez. Amaterasu não pesa os anos em que dividiu o céu com o irmão, não lembra da origem comum. A repulsa toma a tela toda, e tudo o que existia antes daquele gesto some atrás dela.
O segundo traço está no tamanho da sentença. Não é um afastamento por um tempo, é um nunca mais. Não há conversa, não há chance de reparo, não há véspera de reconciliação. O veredito do nojo não negocia, ele só fecha a porta e joga a chave fora.
O terceiro traço é o mais duro. Quem Amaterasu exila não é um estranho, é o irmão nascido no mesmo instante, feito do mesmo rosto do mesmo deus. Quanto mais perto era o vínculo, mais total fica o exílio. Ninguém manda para o outro lado do mundo alguém que já esteve ao seu lado por acaso.
O quarto traço é o mais ignorado. Amaterasu ganha a razão moral e mesmo assim sai perdendo. Ela tinha um irmão para dividir o céu e agora reina sobre uma abóbada pela metade. Cortar alguém para sempre arranca um pedaço do próprio mundo junto. A ofensa foi do outro, mas o céu vazio virou dela também.
O quinto traço está no que a distância vira depois. O que começou como uma reação de nojo endurece e vira a ordem fixa do mundo: o dia de um lado, a noite do outro. Uma ruptura decidida num instante de repulsa deixa de ser escolha e passa a ser a forma como o céu simplesmente é. Ninguém mais lembra que já foi diferente.
O sexto traço é o espelho escondido no mito. Tsukuyomi se voltou contra Ukemochi por nojo do banquete, achando que defendia a própria honra. Amaterasu corta Tsukuyomi pelo mesmo nojo, achando que defende o que é sagrado. A repulsa que julga costuma ser feita do mesmo material da repulsa que ofendeu. Os dois lados fecham a porta com o mesmo gesto.
A saída do mito começa numa distinção simples. O oposto do corte eterno não é fingir que o gesto não te enojou, é deixar o nojo passar antes que ele vire parede. O gesto que te revolta hoje é um único quadro de uma pessoa inteira. Quem deixa esse quadro definir o outro para sempre acaba condenado a governar um céu pela metade.
E há uma verdade dura escondida no mito. Alguns vínculos precisam mesmo terminar, e nem todo corte é injusto. Mas os que se rompem só no nojo, sem uma palavra, sem um segundo olhar, costumam ser justamente os que você passa a eternidade rodeando, sempre no lado do céu onde o outro não está.
A pergunta para hoje é direta: existe alguém que você cortou de vez por causa de um único gesto que te deu nojo, e com quem você nunca mais trocou uma palavra desde então?
E, indo mais fundo: a porta se fechou pelo tamanho do que a pessoa fez, ou pela sua recusa em olhar de novo para ela depois daquilo? Amaterasu não afastou o irmão por falta de laço. Afastou porque preferiu o nojo permanente a encarar mais uma vez quem tinha decepcionado ela.
A inscrição: o nojo que fecha a porta para sempre também esvazia o seu céu. Um gesto não é a pessoa inteira. Antes de mandar alguém para o outro lado do mundo, olhe mais uma vez.
Até o próximo diagnóstico.
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