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Tirésias enxergava tudo e não podia mudar nada, e eu suspeito que essa é a solidão mais antiga do mundo: saber e não ser ouvido. A visão dele custou os olhos. Veja o que a sua lucidez está custando.
Em cada tragédia grega onde ele aparece, o padrão se repete: Tirésias chega, vê o que os outros não veem, fala a verdade que ninguém quer ouvir, é ignorado ou insultado, e depois, no terceiro ato, tudo acontece exatamente como ele disse. Édipo o insulta. Creonte o descarta.
Penteio o despreza. Ele vai embora. E a tragédia se completa. O profeta não é punido porque erra. É isolado porque acerta.
I
O Mito
Tirésias (do grego Teiresias) é o adivinho mais célebre da mitologia grega, figura recorrente nos mitos tebanos. Aparece em Sófocles (Édipo Rei, Antígona), Eurípides (As Bacantes, Os Fenícios), Homero (Odisseia, canto XI) e Ovídio (Metamorfoses III.316-340 para a origem da cegueira). Era filho da ninfa Cariclo, companheira de Atena, e de Everes.
A história de sua cegueira tem duas versões principais. Na primeira, registrada por Apolodoro (Biblioteca III.6.7), Tirésias avistou Atena nua enquanto se banhava. A deusa cobriu seus olhos com as mãos e ele cegou instantaneamente.
Cariclo implorou que a filha de Zeus o curasse; Atena, não podendo desfazer o que havia feito (uma lei antiga proibia que deuses desfizessem cegueiras causadas por si), compensou-o com a profecia e com uma longa vida.
A segunda versão, a que Ovídio narra nas Metamorfoses (III.316-340), é mais elaborada e torna Tirésias único no panteão de figuras míticas: ele foi homem e mulher. Um dia, no monte Citéron, ele separou com seu bastão duas serpentes em acasalamento. Imediatamente foi transformado em mulher.
Viveu sete anos como mulher. No oitavo ano, encontrou novamente as mesmas serpentes em acasalamento e repetiu o gesto, e retornou ao corpo masculino.
Esse duplo gênero tornou-o árbitro de uma disputa entre Zeus e Hera: quem sente mais prazer no sexo, o homem ou a mulher? Tirésias, que havia experimentado os dois, respondeu: a mulher sente nove partes de prazer para cada parte do homem.
Hera ficou furiosa com a revelação (por razões que Ovídio deixa implícitas) e o cegou. Zeus, em compensação, deu-lhe a profecia e sete gerações de vida.
Viver tanto era dom e fardo, ele estava vivo quando Tebas foi fundada, quando Cadmo semeou os dentes do dragão, quando Édipo governou, quando Creonte errou.
Em Sófocles, é ele quem traz a Édipo a verdade que Édipo recusa: que o assassino de Laio é o próprio Édipo, que a busca pela verdade destruirá quem busca. Édipo o chama de mentiroso, cúmplice de Creonte, velho cego de alma.
Tirésias, antes de ir embora, faz a profecia em detalhe: o rei vai descobrir que é pai e irmão dos filhos, filho e marido da mãe, assassino do pai. E vai embora. A tragédia confirma cada palavra.
Em Antígona, é ele quem avisa Creonte que o cosmos está perturbado, os corvos carregando carne de Polinices, os auspícios comprometidos, e que a decisão de não enterrar os mortos e matar os vivos trará destruição para a família de Creonte. Creonte o insulta, suspeita de motivos financeiros.
Tirésias vai embora. Creonte muda de ideia tarde demais: Antígona já está morta, o filho de Creonte se suicidou, a esposa de Creonte se suicidou.
Em As Bacantes de Eurípides, avisa Penteio que a resistência a Dioniso é resistência ao divino em si, que o deus vai vencer. Penteio não ouve. É desmembrado pela própria mãe, em transe báquico.
No Hades, conforme Homero na Odisseia (XI.90-151), Tirésias retém sua consciência e capacidade de profecia mesmo depois da morte, o único entre os mortos que ainda pensa. As outras sombras são apenas sombras. Ele continua sendo Tirésias.
II
O Diagnóstico
A figura de Tirésias é o arquétipo do saber que não pode ser transmitido pelo desejo de transmitir. Ele sabe. Fala. É ignorado. Não por acidente, estruturalmente. Édipo quer a verdade e não consegue ouvir quando chega. Creonte entende o perigo e recusa porque mudar seria admitir erro.
Penteio é tomado pelo poder que não consegue reconhecer como maior do que ele. A profecia não falha porque o profeta é fraco: falha porque os que deveriam ouvi-la não conseguem, não por maldade, mas pela estrutura do ego que protege a si mesmo de verdades que o dissolveriam.
Carl Jung, em Mysterium Coniunctionis, descreve a figura do senex, o ancião sábio, como arquétipo que carrega o conhecimento coletivo além do individual, mas que só pode ser integrado por quem passou pelo processo suficiente.
Tirésias é o senex em estado puro: velho, cego para o mundo visível, vidente para o invisível, portador de uma experiência que inclui os dois gêneros, os dois lados da vida. O problema não é ele.
É que os que precisam dele ainda não fizeram o trabalho interno que tornaria possível ouvi-lo.
A cegueira de Tirésias é diagnóstica em dois sentidos. Primeiro: ele perde a visão do mundo externo e ganha visão do mundo interno.
Há tradição amplíssima, de Homero às tradições indígenas, de que cegueira física está ligada à clareza espiritual, não por compensação mágica, mas porque a percepção que não é distraída pelo visível se aprofunda no que não se vê.
James Hillman, em A Ficção da Análise, descreve como certas formas de "não ver" o mundo comum são pré-condição para ver estruturas mais profundas. Tirésias é literal onde outros são metafóricos.
Segundo: a cegueira como resultado de ter visto demais. Nas duas versões do mito, ele perde a visão por ter visto algo que não deveria ser visto, a deusa nua, ou a verdade do prazer que Hera preferia manter obscura.
Há padrão aqui que a psicologia analítica reconhece: quem vê certos conteúdos do inconsciente, a sombra, o complexo central, a verdade da família, frequentemente perde, em troca, uma certa inocência perceptiva, uma certa capacidade de ver o mundo como os outros o veem.
O preço da visão profunda é a perda de uma visão mais simples.
A experiência de ter vivido nos dois gêneros, homem e mulher, é única no panteão grego. Ovídio usa isso como fundamento para sua autoridade: ele sabe o que os outros não sabem porque viveu o que os outros não viveram.
Em linguagem junguiana, isso seria a integração da Anima (no caso de Tirésias, literalmente, não apenas simbolicamente). Quem integrou profundamente aspectos do gênero oposto, a ternura no homem, a assertividade na mulher, frequentemente adquire uma percepção psicológica mais rica que desafia categorias. Tirésias é mítico nesse sentido preciso.
O padrão de ignorar o que incomoda que aparece em Édipo, Creonte e Penteio é o diagnóstico contemporâneo mais direto.
Quantas vezes, na vida individual, o aviso chegou, de um amigo, de um terapeuta, do próprio corpo, de um sonho, e foi ignorado porque ouvi-lo implicaria destruir a narrativa em que o ego havia investido? A dinâmica não é covardia. É proteção.
O ego, bem descrito por Jung em O Eu e o Inconsciente, funciona como filtro: deixa entrar o que confirma sua história sobre si mesmo, filtra o que ameaça dissolvê-la.
A solidão de Tirésias é a solidão de qualquer pessoa que vê padrões com clareza que os outros ao redor recusam reconhecer. O analista que percebe a dinâmica do grupo antes que os outros consigam. O consultor que vê onde o negócio vai quebrar antes que os donos queiram admitir.
O filho que percebe a dinâmica familiar tóxica enquanto a família insiste na narrativa de harmonia. Saber não gera automaticamente ser ouvido. E não ser ouvido não invalida o que se sabe.
A permanência de Tirésias no Hades, consciente enquanto os outros são apenas sombras, sugere algo sobre a natureza do saber profundo: ele sobrevive ao ego, sobrevive ao corpo, sobrevive à morte. O que foi realmente integrado permanece. O que foi apenas conhecido intelectualmente se dissolve. Tirésias não sobrevive porque tinha poder, sobrevive porque sabia de verdade.
A pergunta para hoje: que Tirésias você tem na vida, que vozes, que padrões repetidos, que verdades que chegam e chegam, e que você continua não ouvindo porque ouvi-las implicaria mudar o que não quer mudar? E: onde você é Tirésias, onde você vê com clareza o que os outros ao redor não veem, e carrega esse saber sozinho, sem poder forçar ninguém a ouvir?
A inscrição: Tirésias via tudo. E não podia mudar nada. A maldição do profeta não é o que ele vê, é carregar o saber sozinho enquanto os outros escolhem não ouvir. A profecia sempre se confirma. A questão é quantas tragédias teriam sido evitadas se alguém, uma vez, tivesse parado para escutar.
Até o próximo diagnóstico.
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