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A INSCRIÇÃO O Minotauro não persegue. Ele espera. No centro do labirinto que você construiu. |
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O monstro não estava solto. Estava contido. Preso no centro de uma construção feita para escondê-lo. E o herói não precisava fugir dele. Precisava ir até ele. Entrar voluntariamente no lugar que foi projetado para que ninguém saísse vivo. I O MitoO Minotauro nasceu de uma transgressão. Minos pediu a Poseidon um touro magnífico para sacrifício. Poseidon enviou. Minos, impressionado com a beleza do animal, ficou com ele e sacrificou outro. Poseidon, como punição, fez Pasífae (esposa de Minos) apaixonar-se pelo touro. Dédalo construiu a vaca de madeira que permitiu a consumação. O filho foi o Minotauro: corpo de homem, cabeça de touro. Resultado de engano, desejo proibido e vergonha. Apolodoro (Biblioteca, III.1) e Plutarco (Vida de Teseu) descrevem o que Minos fez. Não matou o Minotauro. Escondeu-o. Mandou Dédalo construir o Labirinto, uma estrutura tão complexa que quem entrasse não sairia. Colocou o Minotauro no centro. A cada nove anos, Atenas enviava sete rapazes e sete moças como alimento. Teseu, príncipe de Atenas, se voluntariou para entrar no terceiro tributo. Chegou a Creta. Ariadne o viu e lhe deu o novelo de fio. Teseu entrou no Labirinto, desenrolou o fio, caminhou até o centro, encontrou o Minotauro, e o matou com as próprias mãos (ou com uma espada, dependendo da versão). Seguiu o fio de volta. Saiu. O detalhe que a maioria ignora: Teseu não matou o Minotauro emboscando-o. Foi até ele. Caminhou para dentro da escuridão, sabendo o que o esperava no centro. O monstro não o perseguia. Ele é que foi atrás do monstro. Plutarco registra que Teseu, ao voltar de Creta, esqueceu de trocar as velas do navio de pretas para brancas (o sinal combinado de sucesso). Egeu, o pai, viu as velas pretas, acreditou que o filho estava morto, e se jogou no mar. O mar passou a se chamar mar Egeu. Teseu venceu o Minotauro e perdeu o pai. A vitória sobre o monstro interno tem custo externo. Baquílides (Ditirambo XVII) descreve que Teseu, antes de entrar no Labirinto, mergulhou no mar para provar aos companheiros que era filho de Poseidon. Voltou do fundo com um anel dourado e uma coroa. A descida já era seu padrão antes do Labirinto. Descer, enfrentar o desconhecido, e voltar com algo. O Minotauro era mais uma descida, não a primeira.
II O DiagnósticoO que os gregos estavam registrando é o padrão do conteúdo psíquico que é trancado em vez de enfrentado, e que, quanto mais escondido, mais devora. Jung veria no Minotauro a sombra coletiva. O conteúdo que a família, a cultura, a sociedade se recusa a integrar e esconde num labirinto. O Minotauro não escolheu nascer. É produto de vergonha alheia. É o segredo de família que ninguém menciona, o trauma geracional que ninguém processa, o conteúdo que é alimentado (os tributos humanos) para que continue existindo sem ser enfrentado. Hillman descreveria o Labirinto como a estrutura da evitação. Quanto mais complexo o labirinto, mais sofisticada a evitação. Pessoas inteligentes constroem labirintos intelectuais ao redor dos seus monstros. Racionalizam, justificam, contextualizam, criam corredores intermináveis de explicação para não chegar ao centro. Freud reconheceria no Minotauro o retorno do reprimido. O conteúdo que é empurrado para o inconsciente não desaparece. Consome energia. Os sete rapazes e sete moças a cada nove anos são a energia psíquica que a repressão cobra como manutenção. Alimentar o monstro é mais caro do que enfrentá-lo. Mas enfrentá-lo exige caminhar para dentro, não para fora. O fio de Ariadne é a função de orientação: a capacidade de manter conexão com o ponto de partida enquanto se avança no escuro. Sem o fio, Teseu mataria o Minotauro e morreria perdido. Matar o monstro sem saber voltar é tão perigoso quanto não matá-lo. O padrão é universal. A pessoa que gasta mais energia evitando um confronto do que o confronto exigiria. O profissional que constrói sistemas elaborados ao redor de um problema central que nunca é tocado. A família que mantém a paz superficial alimentando o monstro no porão com silêncio. O diagnóstico é direto: o monstro está no centro. O caminho é para dentro, não para fora. E o fio que te leva de volta é tão importante quanto a coragem de entrar. O terapeuta existencial Rollo May, em 'O Homem à Procura de Si Mesmo', descreveu a coragem não como ausência de medo, mas como a capacidade de se mover em direção ao medo. Teseu não entra no Labirinto sem medo. Entra apesar dele. E a diferença entre Teseu e todas as vítimas anteriores não é a força. É a decisão de caminhar para dentro. Fritz Perls, fundador da Gestalt-terapia, dizia que a neurose é a evitação do contato. Cada corredor do Labirinto é uma evitação: um desvio, uma racionalização, uma explicação que leva a outro corredor em vez de levar ao centro. O Minotauro está no centro porque é ali que ninguém quer ir. O fio de Ariadne não leva ao Minotauro. Leva de volta. O confronto, Teseu faz sozinho. O psicólogo Eugene Gendlin, criador do Focusing, descreve o processo de levar atenção para dentro do corpo e aguardar o que emerge. O Focusing é uma descida voluntária ao centro. Gendlin descobriu que os pacientes que progrediam em terapia eram os que conseguiam ir ao centro da sensação, não os que a analisavam de fora. Teseu não analisou o Labirinto. Entrou nele. III O EspelhoQual é o Minotauro no centro do seu labirinto? O assunto que você contorna. O confronto que adia. A verdade sobre si mesmo ou sobre uma situação que você alimenta com energia, silêncio, evitação, em vez de caminhar até ela. Teseu não fugiu do Labirinto. Entrou nele. A pergunta é: o que você está alimentando no centro, e o que te impede de caminhar até lá? Quantos corredores você já percorreu ao redor do seu Minotauro? Quantas estratégias de contorno? Quantos livros lidos, terapias iniciadas, conversas planejadas que nunca chegaram ao centro? O Labirinto não é grande. É repetitivo. Os corredores se parecem porque a evitação se parece. Mudar de corredor não é progresso. Caminhar para o centro é. Até o próximo diagnóstico. |
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O RITUAL DIÁRIO Todo dia, ao meio-dia e doze. Um mito. Cinco minutos de espelho. Todo mito é um diagnóstico. Toda edição é um espelho. |