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Ele está cercado por tudo o que deseja. Água cristalina na altura do queixo. Frutas maduras ao alcance da mão. E no instante em que se move para alcançar qualquer uma, ela se afasta. A água desce. O fruto sobe. Ele permanece exatamente onde estava: faminto, sedento, cercado de abundância.
I
O Mito
Tântalo era rei da Lídia e filho de Zeus. Tinha tudo: riqueza, poder, linhagem divina, e algo que nenhum outro mortal possuía: acesso à mesa dos deuses. Ele era convidado do Olimpo. Comia com os imortais. Ouvia seus planos. Conhecia seus segredos.
Homero (Odisseia, canto XI) descreve o castigo. Píndaro (Olímpica I) e Apolodoro registram os crimes. Tântalo cometeu três transgressões. Primeiro: roubou néctar e ambrosia da mesa dos deuses e os compartilhou com mortais. Segundo: revelou segredos divinos. Terceiro, o mais perturbador: para testar a onisciência dos deuses, matou o próprio filho Pélops, cozinhou-o e serviu a carne como banquete.
Os deuses perceberam imediatamente. Apenas Deméter, distraída pela perda de Perséfone, comeu um pedaço do ombro. Os deuses reconstruíram Pélops, substituindo o ombro por marfim. Tântalo foi enviado ao Tártaro.
O castigo foi sob medida. Tântalo ficou de pé num lago de água fresca, sob galhos carregados de frutas: peras, maçãs, romãs, figos. Quando se inclinava para beber, a água recuava. Quando estendia a mão para a fruta, o vento levantava os galhos para fora do alcance. Fome e sede eternas, cercadas de saciedade impossível.
Ovídio (Metamorfoses, Livro IV) acrescenta que sobre sua cabeça pairava uma rocha enorme, sempre prestes a cair. O medo somava-se à privação.
Licofron e Higino acrescentam que Tântalo não apenas serviu o filho aos deuses: fez isso como teste. Queria verificar se os deuses eram realmente oniscientes. A motivação não era crueldade pura. Era curiosidade sobre o limite divino. Tântalo desafiou o sistema para ver se o sistema era real. O sistema era. E respondeu.
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"A água recuava quando ele se inclinava para beber." (Homero, Odisseia XI)
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II
O Diagnóstico
O que os gregos estavam registrando é o padrão do desejo que se alimenta da impossibilidade de satisfação. Não é que Tântalo não consiga alcançar a água. É que a estrutura do castigo garante que o quase-alcançar se repita infinitamente.
Freud identificou esse mecanismo com precisão. O desejo, na teoria psicanalítica, não quer ser satisfeito. Quer continuar desejando. Lacan levou isso ao extremo: o objeto do desejo é sempre objet petit a, o objeto que se desloca permanentemente. Você não quer a coisa. Quer o querer. A satisfação é a morte do desejo, e o desejo não quer morrer.
Tântalo é a representação perfeita. A água está ali. A fruta está ali. A distância entre ele e a saciedade é mínima. É quase. Sempre quase. E o quase é o combustível do desejo. O quase é o que mantém a fome viva. A saciedade mataria não apenas a fome, mas a razão de existir de quem se define pela fome.
Jung veria em Tântalo o complexo de poder invertido. Alguém que teve acesso ao mais alto (a mesa dos deuses) e que, em vez de se contentar com o que tinha, precisou de mais. O roubo de néctar, a revelação de segredos, o assassinato do filho: cada ato é uma escalada. E cada escalada é uma tentativa de provar que a posição entre os deuses era merecida, não concedida.
Hillman leria o castigo como estrutura do vício. O viciado não quer a substância. Quer o alívio que a substância promete e nunca entrega completamente. A dinâmica de Tântalo é a dinâmica de qualquer dependência: proximidade constante, satisfação impossível, repetição infinita.
O padrão é amplo. A pessoa que está sempre quase satisfeita com o que tem. O profissional que atinge cada meta e, no instante em que atinge, já está mirando a próxima sem pausar para registrar o que conquistou. O consumidor que compra e o prazer desaparece antes de terminar de abrir a caixa.
O diagnóstico é este: se a saciedade recua toda vez que você se aproxima, o problema não é distância. É estrutura.
O neurocientista Wolfram Schultz demonstrou que o sistema de dopamina responde mais fortemente à antecipação da recompensa do que à recompensa em si. A dopamina dispara quando o macaco vê o sinal de que o suco vai chegar, não quando o suco chega. Tântalo está preso no pico da antecipação, eternamente. O suco nunca chega. O sinal nunca para.
Zygmunt Bauman, em 'Modernidade Líquida', descreve o consumidor contemporâneo como alguém que vive num estado de insatisfação programada. O objeto desejado perde valor no instante da aquisição. O próximo objeto já está acenando. Tântalo no lago é o consumidor na loja: cercado de opções, incapaz de saciedade, convicto de que a próxima tentativa será a que funciona.
O filósofo Arthur Schopenhauer descreveu a vontade (Wille) como uma força cega e insaciável que constitui a essência de toda existência. O sofrimento nasce da distância entre o querer e o ter. Tântalo é a expressão mais pura da vontade de Schopenhauer: querer sem cessar, sem possibilidade de saciedade, num universo que oferece a aparência de satisfação sem jamais entregá-la.
III
O Espelho
O que na sua vida está sempre quase?
O reconhecimento que quase chega. O descanso que quase vem. A satisfação que quase aparece. A sensação de suficiência que está logo ali, na próxima conquista, no próximo projeto, no próximo mês.
Tântalo tem tudo ao redor. E nada ao alcance. O castigo não é a falta. É a proximidade permanente do que nunca se completa.
A pergunta é: você está com fome, ou está viciado no quase?
O teste de Tântalo é observar o que acontece no instante depois de conseguir algo. Não uma hora depois. No instante. Se a mente já está na próxima coisa, se o prazer desaparece antes de ser registrado, se a conquista vira imediatamente lista de pendências, a água está recuando. E o problema não é a água. É a sede que não sabe que é estrutura, não carência.
Até o próximo diagnóstico.
Até o próximo diagnóstico.
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