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Susanoo me incomoda porque a raiva dele não é defeito de fabricação: é força sem endereço. O mesmo deus que arrasou os campos celestes matou a serpente que ninguém mais enfrentaria. O diagnóstico de hoje é sobre onde a sua fúria mora.
Ele foi exilado duas vezes. Primeiro pelo pai. Depois pelos deuses. Entre um exílio e outro, destruiu o lar da irmã, contaminou o sagrado e causou uma morte. E no exílio, sem audiência, sem prestígio, choramingando na beira de um rio em Izumo, encontrou o dragão. E o matou.
E da carcaça retirou a espada mais preciosa da mitologia japonesa. Susanoo não se reformou. Encontrou o destino certo para o que sempre havia sido.
I
O Mito
Susanoo, Take-Hayasusanoo-no-Mikoto, "o valente impulsivo deus das tempestades", nasce do nariz de Izanagi quando este se purifica após escapar do submundo no Kojiki (712 d.C.) e no Nihon Shoki (720 d.C.). Recebe o domínio do mar. Mas não governa o mar.
Chora pela mãe morta, Izanami, presa no Yomi (o submundo). Seu choro é tão violento que seca rios, arranca florestas, assola a terra. Izanagi o exila.
Antes do exílio, Susanoo sobe ao Takamagahara, os Campos dos Céus, para despedir-se da irmã Amaterasu. O que se segue, a destruição dos arrozais sagrados, a contaminação dos ritos de primavera, a morte da tecelã, está narrado com precisão no Kojiki (capítulo 17).
O Nihon Shoki apresenta variantes mas preserva a estrutura: Susanoo age por impulso destrutivo não intencional de maldade direta, mas por excesso de uma energia que não sabe se conter. A consequência é o recolhimento de Amaterasu à caverna e o caos que se segue.
Susanoo é expulso do céu com os unhas arrancados e os cabelos cortados, punição ritual de degradação, e enviado ao exílio definitivo na terra de Izumo, no Japão central.
É em Izumo que o segundo arco começa. O Kojiki narra: Susanoo, vagando às margens do rio Hi, encontra uma família em prantos. Pai, mãe e uma filha única sobrevivente.
Um casal idoso, Ashinazuchi e Tenazuchi, perdera sete filhas em sete anos para a serpente Yamata no Orochi, "a serpente de oito cabeças e oito caudas" que descia da montanha anualmente para devorar uma virgem. A filha restante, Kushinadahime ("a princesa do pente"), era a próxima.
Susanoo propõe um acordo: ele mata a serpente, recebe Kushinadahime como esposa. O plano é direto e astuto. Susanoo pede que a família prepare oito barris de sake (saquê) com oito ramos de plataforma, cada barril com oito aberturas.
Transforma Kushinadahime num pente fino que enfia no cabelo, forma de protegê-la diretamente sobre seu corpo. Quando Yamata no Orochi desce, cada cabeça mergulha numa barril de sake. A serpente embriaga-se. Adormece. Susanoo a decapita com sua espada.
Ao cortar o quarto rabo (ou oitavo, dependendo da versão, o Kojiki diz "o oitavo" em passagem não ambígua), a lâmina encontra resistência. Dentro do rabo, enrolada em carne, está uma espada de lâmina nublada: Kusanagi-no-Tsurugi ("a espada cortadora de grama"), que Susanoo envia como oferenda a Amaterasu.
Essa espada torna-se um dos três tesouros imperiais do Japão, o Sanshu no Jingi, ao lado do espelho Yata no Kagami e das joias Yasakani no Magatama.
Susanoo se estabelece em Izumo. Casa-se com Kushinadahime.
Compõe o que o Kojiki registra como o primeiro poema waka da história japonesa: "Yakumo tatsu / Izumo yaegaki / tsuma gomi ni / yaegaki tsukuru / sono yaegaki wo", "Muitas nuvens surgem / em Izumo as cercas de oito camadas / para abrigar minha esposa / construo cercas de oito camadas / essas cercas de oito camadas." Um deus de tempestades compondo cercas para proteger o que ama.
II
O Diagnóstico
Susanoo é o arquétipo da raiva primária que não encontrou seu objeto. O problema com ele no Takamagahara não era que ele tinha raiva, era que a raiva era direcionada ao impossível (trazer a mãe morta de volta) e se descarregava lateralmente sobre tudo ao redor.
Jung, em Aion, descreve esse padrão como afeto autônomo: emoção que não foi integrada pelo ego consciente, que opera como complexo independente, que explode sem controle e destrói exatamente o que o ego consciente mais valoriza. Susanoo ama a irmã. Distrói o lar dela. Não por intenção, por transbordamento.
A psicologia clínica reconhece essa estrutura com precisão diagnóstica. Homens (e mulheres) que cresceram com luto não processado, perda de pai, mãe, lar, referência primária, frequentemente desenvolvem energia destrutiva que se manifesta como irresponsabilidade relacional: arrombam vínculos, contaminam ambientes, criam estragos em contextos sagrados. Não porque querem destruir.
Porque a dor não tem endereço correto e procura qualquer saída. O luto não ritualizado de Susanoo pela mãe (Izanami, no submundo) é a fonte de toda destrutividade subsequente.
O exílio como estrutura curativa é um tema que aparece nos principais estudos de mitologia comparada.
Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces, identifica o exílio como parte necessária da jornada: a separação forçada do domínio familiar que obriga o herói a encontrar suas forças em território sem proteção institucional. Susanoo não pode usar o prestígio celestial para resolver o problema de Izumo. Está sozinho.
Sem título. Sem exército. Sem a proteção do Takamagahara. Só com sua tempestade, agora sem alvo interno que a desvie.
E há o dragão. Yamata no Orochi não é obstáculo aleatório. É a forma exata de inimigo que corresponde à natureza de Susanoo.
Uma serpente de oito cabeças e oito caudas, multiplicidade caótica, voragem que consome o que é belo e inocente, terror que se perpetua ano após ano sem ser desafiado.
O ponto de Marie-Louise von Franz, em O Homem e Seus Símbolos (em sua análise de dragões e heróis), é que o dragão que o herói enfrenta é sempre o equivalente externo de sua sombra interna.
Susanoo, que era a serpente nas relações familiares, caótico, devorador de sagrado, causador de morte, encontra externamente a versão absoluta de si mesmo. E a mata.
A astúcia do sake é significativa. Susanoo não vence Yamata no Orochi pela força bruta. Usa a estratégia: sedução, intoxicação, timing. O mesmo deus que no paraíso agia por impulso puro aprende, no exílio, a planejar. A travessia psicológica entre os dois momentos não é de caráter mas de maturidade, a mesma energia, agora com direção e instrumento.
A espada dentro do rabo da serpente é o prêmio escondido no interior do monstruoso. Num plano simbólico: o que estava preso dentro do próprio dragão (leia-se: dentro do padrão destrutivo) era a ferramenta mais preciosa.
Kusanagi, a espada que Susanoo envia à irmã como reconciliação, não existiria sem o monstro. O instrumento de proteção máxima estava dentro do inimigo máximo.
Isso é topografia psicológica precisa: frequentemente, a capacidade mais valiosa de uma pessoa está aprisionada no interior do padrão que mais causa dano, e só é liberada quando esse padrão é enfrentado de frente, não evitado.
A cercas de oito camadas do poema final são o resultado. Susanoo, que destruiu a morada sagrada da irmã, constrói uma morada com paredes de oito dobras para a esposa. Não porque se transformou numa natureza diferente. Porque encontrou o que proteger. A raiva que arrasava arrozais virou arquitetura de proteção. A tempestade tornou-se cerca.
A pergunta para hoje: qual é o dragão que corresponde à sua tempestade? Toda raiva que destrói coisas erradas tem um objeto certo em algum lugar, algo que precisa ser enfrentado, não mais anestesiado ou descarregado lateralmente sobre quem não tem culpa.
E inversamente: qual é a espada escondida dentro do padrão que você mais odeia em si mesmo? O que está trancado no interior da sua Yamata no Orochi esperando ser liberado?
A inscrição: Susanoo destruiu o que amava antes de aprender a defender o que ama. A raiva não desapareceu. Mudou de objeto. O mesmo poder que arrasou os arrozais celestiais matou a serpente de oito cabeças. A pergunta não é como eliminar a tempestade, é se você já encontrou o dragão que a justifica.
Até o próximo diagnóstico.
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