|
A parte mais cruel do mito de Sedna é a mão do pai no remo, cortando os dedos da própria filha. E ainda assim é dos dedos cortados que nasce toda a vida do mar. O diagnóstico de hoje é sobre o que afundou em você e voltou como força.
Ela se agarrou à borda do barco enquanto o pai levantava a faca. Um dedo. Outro. Outro. A cada corte, as mãos cediam um pouco mais. Quando o último dedo foi, ela afundou. Mas não morreu. O fundo do mar a recebeu.
E os dedos cortados, cada um, viraram foca, baleia, narval, pássaro marinho. O que foi cortado alimentou todo um povo por gerações. Sedna perdeu a forma humana e ganhou algo que os humanos não têm nome para chamar.
I
O Mito
Sedna, chamada também Nunavgak, Arnakuagsak, Nerrivik, Sanna, dependendo da comunidade inuíte e do dialeto, é a figura fundacional da cosmologia inuíte do Ártico, espalhada da Sibéria à Groenlândia pelo vasto território circumartico.
O corpus do mito existe em múltiplas variantes registradas por etnógrafos e antropólogos, notavelmente Franz Boas em The Central Eskimo (1888), o documento etnográfico fundacional dos povos inuítes do Ártico Central, e Knud Rasmussen nas expedições Thule (1921-1924), particularmente em Intellectual Culture of the Iglulik Eskimos (1929).
A estrutura narrativa central é consistente, com variantes no detalhe. Uma jovem de beleza extraordinária recusa todos os pretendentes. Em certas versões, é abordada por um ser disfarçado, frequentemente um pássaro (fulmar ou corvo) apresentando-se como homem rico.
Em outras, é prometida pelo pai a um estranho para resolver uma dívida ou simplesmente porque ela era seletiva demais. Em qualquer variante, ela parte para longe da comunidade e descobre que foi enganada: o parceiro não é o que pareceu, ou as condições de vida são intoleráveis.
Ela envia mensagem ao pai pedindo resgate. O pai chega. Mas durante a viagem de volta, seus companheiros ou elementos sobrenaturais levantam uma tempestade sobrenatural.
Em pânico de perder o barco e a própria vida, o pai toma uma decisão que o tornará personagem central do mito: empurra a própria filha de volta ao mar. Ela se agarra ao barco. Ele corta seus dedos. Ela cai.
Os dedos cortados afundam um a um e se transformam em animais marinhos: as falanges mais externas tornam-se focas, as do meio tornam-se morsas, as mais internas tornam-se baleias.
Na versão registrada por Boas para os Netsilik (Nattilingmiut), os primeiros nós dos dedos tornam-se focas pequenas, os nós do meio tornam-se focas-barbudas (ugjuk), e os nós mais internos tornam-se morsas e baleias.
Sedna afunda e habita o fundo do oceano ártico, Adlivun, o mundo inferior, onde as almas dos mortos vivem antes de ascenderem ao céu.
Ela não é simplesmente vítima. No fundo, torna-se a senhora de todos os animais marinhos. Os caçadores inuítes dependem inteiramente dos animais que ela controla para subsistência. Quando a comunidade viola tabus, Sedna retém os animais, a caça fracassa, a fome ameaça.
Os angakkuit (xamãs) realizam a jornada espiritual ao fundo do mar para visitar Sedna. Encontram-na com os cabelos emaranhados, cheios de sujeira e impurezas, os pecados e violações de tabu da comunidade ficam presos em seus cabelos. O xamã desembaraça os cabelos, penteia, limpa. Sedna, apaziguada, solta os animais.
A caça volta.
A tradição oral inuíte transmitiu esse mito como pedagogia de reciprocidade: cada animal morto tem de ser tratado com respeito ritual preciso, a foca recebe água fresca após ser trazida ao barco, porque os animais marinhos desejam água doce; os ossos são devolvidos ao mar. Cada violação desses acordos fica presa nos cabelos de Sedna. O cosmos moral inuíte passa pelo corpo dela.
II
O Diagnóstico
A estrutura narrativa de Sedna pertence a uma categoria específica que a psicologia analítica chama de katabasis, descida ao mundo inferior como precondição de transformação.
Mas com um elemento distintivo que a separa dos outros mitos de descida: em Inanna (Mesopotâmia), Perséfone (Grécia) ou Orfeu (Grécia), a descida é voluntária ou resultado de sequestro. Sedna não desce, é jogada. A violência não vem de fora. Vem do pai.
Marie-Louise von Franz, em A Interpretação dos Contos de Fadas (1970), analisa a figura do pai que falha a filha em contos mundiais como padrão arquetípico específico: a função paterna que deveria sustentar e proteger, mas que, sob pressão, abandona ou destrói.
O efeito psicológico dessa traição específica é diferente da traição por estranhos. A traição pelo pai (ou pela figura paterna) cria cisão entre o mundo de confiança e o mundo real que é difícil de reparar por caminhos convencionais. A ferida é anterior à linguagem, é ferida de pertencimento fundamental.
O que o mito de Sedna afirma, e que é sua contribuição única entre os mitos de traição, é a transformação do que foi cortado. Os dedos não são simplesmente amputados e perdidos. Afundam e se tornam a fonte de toda vida no Ártico.
O que foi separado à força, rejeitado com violência, considerado descartável pelo pai que teve medo, isso é exatamente o que sustenta a vida de gerações. Não apesar da violência. Através da descida que a violência forçou.
A leitura junguiana é precisa aqui. Jung, em Psicologia do Inconsciente (1912, rev. 1952), descreve o processo de individuação como exigindo o abandono da identidade da infância para o renascimento numa forma mais profunda.
Mas quando esse abandono é forçado por traição, não escolhido, a psique pode travar em dois movimentos opostos: fixar-se na ferida (permanecer na borda do barco, metaforicamente, esperando que o pai estenda a mão) ou descer de fato ao fundo e tornar-se outra coisa. Sedna faz o segundo.
Ela não espera resgate. Ela desce.
O ato de os xamãs pentear os cabelos de Sedna tem dimensão terapêutica que ecoa práticas contemporâneas. A sujeira nos cabelos representa o custo acumulado das violações da comunidade, os não-cumprimentos de acordos, os tabus quebrados, os animais não honrados. Sedna acumula isso no próprio corpo.
O trabalho ritual do xamã não é apenas místico: é a função de qualquer sistema de cuidado que visa restaurar o fluxo entre a comunidade e sua fonte de sustento. Na linguagem clínica moderna: o trauma não-processado bloqueia o acesso ao que sustenta a vida (criatividade, prazer, conexão).
A "visita a Sedna" é o trabalho terapêutico que desembaraça o bloqueio.
Sharon Blackie, em If Women Rose Rooted: The Power of the Celtic and Pre-Celtic Goddesses (2016), ao analisar figuras paralelas em tradições célticas e árticas, observa que Sedna pertence ao conjunto de deusas que não são simplesmente vitimizadas, mas que experimentam a traição total e então se tornam, no fundo, a legislação ecológica do mundo.
Ela não é uma vítima transformada em santo. É uma vítima transformada em lei, a lei de que cada animal tem de ser honrado, de que a reciprocidade não é opcional, de que o que é tomado tem de ser reconhecido.
A pergunta para hoje: o que em sua história foi "cortado" e jogado fundo, uma capacidade, uma parte sua, um sonho, que você ainda não desceu para encontrar no fundo? E: onde o que foi rejeitado ou amputado de você está gerando vida para outros sem que você saiba, ou sem que você tenha reconhecido como sua criação?
A inscrição: Eles cortaram os dedos que se agarravam ao barco. E cada dedo afundando virou uma criatura do mar. O que foi rejeitado não morreu, desceu ao fundo e virou a fonte de toda vida. Sedna não foi destruída pela traição. Foi transformada por ela.
Até o próximo diagnóstico.
|