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Eles sabiam. Esse é o detalhe que muda tudo. Os deuses nórdicos conheciam a profecia. Sabiam que Fenrir escaparia, que Jörmungandr sairia do oceano, que Loki lideraria os mortos de Hel contra Asgard, que Odin seria devorado, que Thor mataria a serpente e morreria envenenado em nove passos. Sabiam.
E lutaram assim mesmo. Não por esperança de vencer. Mas porque era o que precisava ser feito.
I
O Mito
Ragnarök (Ragnarök em nórdico antigo, "destino dos deuses" ou "crepúsculo dos deuses", sendo Ragnarøkkr a forma alternativa) é a profecia do fim e o evento escatológico central da cosmologia nórdica.
As fontes primárias são o Völuspá ("A Profecia da Vidente") na Edda Poética, um dos mais antigos e complexos poemas éddicos, provavelmente do séc. X, e o Gylfaginning da Edda em Prosa de Snorri Sturluson (séc. XIII), que oferece a narrativa mais extensa.
O Völuspá é narrado por uma völva (sacerdotisa-profeta) que Odin invocou dos mortos para que revelasse o que ela sabe sobre o passado e o futuro. O poema começa com a criação e termina com o Ragnarök e o renascimento. Os versos 44-65 descrevem o fim com precisão perturbadora.
Os sinais precursores são o Fimbulwinter: três invernos consecutivos sem verão, guerras e conflitos em toda parte, laços de família dissolvidos ("irmãos travam batalha, irmãos se matam", estrofe 45).
O lobo Fenrir rompe suas correntes; Jörmungandr (a Serpente do Mundo) sai do oceano; Loki liberta-se de sua prisão e comanda o navio Naglfar (feito de unhas e cabelos de mortos). O gigante de fogo Surtr avança do sul com sua espada flamejante.
Os confrontos finais são previstos com precisão. Odin é devorado por Fenrir; seu filho Víðarr vinga o pai, matando o lobo.
Thor mata Jörmungandr mas morre envenenado após nove passos. Freyr, que havia dado sua espada mágica (que lutava sozinha) como presente de casamento, enfrenta Surtr sem arma e é morto. Týr mata e é morto pelo cão Garm. Heimdall e Loki se matam mutuamente. Surtr incendeia o mundo.
Mas o Völuspá não termina no fogo. As estrofes 59-66 descrevem o que vem depois: a terra emerge novamente do mar, verde e fértil. Águias pescam. Os campos crescem sem semear.
Os deuses sobreviventes, Víðarr, Váli, Móði, Magni, Baldr (que retorna de Hel) e Höðr, se reencontram nos campos de Iðavöllr. Dois humanos, Líf e Lífþrasir, sobreviveram escondidos em Hoddmímis holt (a floresta), alimentando-se de orvalho. Eles repovoam o mundo.
A vidente vê uma nova morada de ouro emergir para os deuses. E cala.
II
O Diagnóstico
O Ragnarök é singular entre as escatologias mundiais por uma razão precisa: é a única tradição em que os deuses sabem de antemão que vão perder e lutam mesmo assim.
As escatologias abraâmicas oferecem ao crente a promessa de vitória final, o bem vence, os justos são salvos, o mal é derrotado. A escatologia budista dissolve o ciclo. O Ragnarök diz: os deuses morrem. E lutam.
Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces e em As Máscaras de Deus: Mitologia Primitiva, observa que a cosmologia nórdica tem uma relação com a morte radicalmente diferente das mitologias do Mediterrâneo. A morte não é derrota. É função.
O guerreiro nórdico (e o deus nórdico) não busca evitar o fim, busca que o fim seja digno. Isso é diagnóstico de uma postura existencial que a psicologia moderna chama de "aceitação radical" ou, na terminologia de Irvin Yalom (Existential Psychotherapy), "confrontação com a finitude".
Jung, em Aion e nos ensaios sobre o Mysterium Coniunctionis, descreve os ciclos de dissolução e recriação como fundamentais à psique. O ego construído precisa periodicamente dissolver-se para que um self mais amplo possa emergir.
A coniunctio alquímica, a união de opostos que produz o ouro, é sempre precedida pela nigredo, a fase de apodrecimento e escuridão. O Ragnarök é, em escala cósmica, a nigredo. O que vem depois, a terra verde, os campos que crescem sozinhos, Baldr retornando, é a albedo e a rubedo.
A psicologia das crises pessoais segue estrutura análoga. James Hollis, em What Matters Most, observa que as grandes crises de vida, colapso de relacionamento, falência, doença grave, perda de identidade, são, na linguagem mítica, Ragnarök individuais. A estrutura que existia dissolve. O que se pensava eterno prova-se contingente.
O que parecia sólido revela-se construção. E a questão não é "como evitar?" mas "o que emerge do outro lado?".
O Fimbulwinter, os três invernos sem verão antes do fim, é diagnóstico preciso de como as grandes crises se anunciam. Não chegam de repente. Chegam após período de frio crescente, erosão gradual, sinais ignorados. O fim de um casamento tem seus três invernos de gelo.
O colapso de uma empresa tem seu Fimbulwinter de métricas deteriorando. O esgotamento mental tem seu inverno de meses antes do Ragnarök final. A mitologia nórdica constrói tempo de aviso no mito. Mas o aviso não é para evitar, é para preparar.
Há uma dimensão ética fundamental no mito. Odin sabe que vai morrer. Freyr sabe que vai morrer, e ainda assim deu a espada que poderia salvá-lo. Thor sabe que morrerá envenenado em nove passos mas mata a serpente assim mesmo.
A ética nórdica não está baseada em resultado, está baseada em agir de acordo com o que se é, independente do resultado. Esse é o drengr (código de honra guerreiro) em sua versão mais radical: o valor do ato não depende de sua eficácia, mas de sua integridade.
Marion Woodman, em Dancing in the Flames, usa a imagem do fim como pré-condição do genuíno começo. "O antigo self não pode simplesmente reformar-se ou melhorar-se", ela escreve. "Em algum ponto, precisa morrer completamente para que o novo possa nascer." O Ragnarök não é pessimismo.
É a recusa de ser ingênuo quanto ao preço da transformação. A terra verde não emerge sem o fogo de Surtr. Os campos não crescem sem que o mundo antigo tenha sido queimado.
A leitura contemporânea mais direta diz respeito às crises sistêmicas, pessoais e coletivas. Há uma tentação, diante do fim de qualquer sistema (empresa, relacionamento, modo de vida, identidade), de fazer pequenos reparos. O Ragnarök diz: às vezes, o reparo é inimigo do recomeço. Às vezes, o que precisa acontecer é o colapso completo, atravessado com dignidade, para que o novo emerge da água limpa.
A pergunta para hoje: qual Fimbulwinter você já está vivendo e ainda não nomeou? Qual estrutura em sua vida está chegando ao fim que você adiar prolonga sem evitar? E, a pergunta do Ragnarök, você seria capaz de lutar mesmo sabendo que vai perder? Não por masoquismo, mas porque o que você representa merece ser defendido até o fim?
A inscrição: Ragnarök não é o fim. É o preço que o mundo paga para se tornar possível de novo. A terra verde emerge porque o fogo passou. Os campos crescem porque o antigo sistema de raízes foi queimado. Nem toda destruição gera renascimento, mas todo renascimento genuíno exige que algo tenha morrido de verdade antes.
Até o próximo diagnóstico.
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