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A INSCRIÇÃO Pigmalião não amou uma mulher. Amou o que esculpiu. A diferença é tudo. |
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Ele criou exatamente o que queria. Cada curva, cada traço, cada detalhe. A escultura era perfeita porque ele a fez perfeita. E quando ela ganhou vida, o verdadeiro problema começou: ela agora podia ser diferente do que ele tinha planejado. I O MitoPigmalião era um escultor da ilha de Chipre. Ovídio, nas Metamorfoses (Livro X), conta que ele vivia sozinho, repudiando as mulheres de carne e osso. Havia visto as Propétides, mulheres de Chipre que negaram a divindade de Afrodite e foram punidas com a prostituição forçada. A experiência o enojou. Decidiu que nenhuma mulher real era digna do seu amor. Então esculpiu uma. Em marfim. Trabalhou com paciência obsessiva. Deu a ela proporções perfeitas, um rosto que nenhum rosto humano igualava, uma postura de graça absoluta. Chamou-a de Galateia (embora Ovídio não use esse nome; a tradição posterior o estabeleceu). Pigmalião se apaixonou pela estátua. Vestia-a. Trazia-lhe presentes: conchas, pedras polidas, flores, pássaros, âmbar. Deitava-a em lençóis de púrpura. Beijava os lábios de marfim e acreditava sentir que eram quentes. No festival de Afrodite, Pigmalião foi ao templo e fez um pedido que não ousou pronunciar diretamente. Pediu uma esposa "semelhante à minha estátua de marfim". Afrodite, que era a única que entendia a verdade por trás do pedido, concedeu. Pigmalião voltou para casa. Tocou a estátua. O marfim cedeu. A pele ficou morna. As veias pulsaram. Galateia abriu os olhos. Ovídio termina a história com casamento e filhos. Mas não explora o que acontece depois que a projeção se torna pessoa. Isso fica com a psicologia. Clemente de Alexandria (Protréptico, IV.57) menciona que na tradição cipriota, Pigmalião originalmente era rei de Chipre que se apaixonou pela estátua de Afrodite no templo. A tradição fundiu o rei com o escultor. O deslocamento é significativo: de adorar uma deusa (impossível) para criar uma mulher (possível). A impossibilidade mudou de forma, não de natureza.
II O DiagnósticoO que os gregos (e Ovídio) estavam registrando é o padrão da pessoa que se apaixona pela imagem que criou do outro, não pelo outro. Enquanto a imagem é estátua, ela coopera. Quando ganha vida, a crise começa. Jung descreveria Pigmalião como a projeção da anima. O homem que projeta sua imagem feminina interior numa mulher externa e depois tenta fazer a mulher caber na projeção. Enquanto a mulher se comporta conforme a imagem, o amor funciona. Quando ela demonstra autonomia, vontade própria, defeitos que não estavam no projeto, a projeção se rompe. E o homem sente que perdeu o amor, quando na verdade perdeu a ilusão. Hillman faria a leitura pelo viés da estética como controle. Pigmalião é artista. Seu meio é a forma. Quando ele aplica a lógica da escultura ao amor, tenta moldar o outro como molda o marfim. O problema é que pessoas não são marfim. Elas se movem, mudam, contradizem. E cada contradição é sentida pelo Pigmalião como um defeito de execução, não como uma manifestação de vida. Freud reconheceria o narcisismo objetal: a pessoa que ama no outro apenas o que ela mesma colocou ali. O amor narcísico não ama o objeto. Ama a si mesmo refletido no objeto. Pigmalião não ama Galateia. Ama a sua capacidade de criar Galateia. O padrão aparece em toda relação onde um dos lados "construiu" o outro. O mentor que se apaixona pela discípula que ele moldou. O parceiro que elegeu alguém com potencial e passou anos tentando transformá-lo na versão idealizada. A pessoa que se frustra quando o outro finalmente se torna independente, porque a independência não fazia parte do projeto. O diagnóstico é este: quando você ama o que criou no outro, o momento em que o outro se torna pessoa é o momento em que o amor é testado de verdade. O psicanalista Jacques Lacan desenvolveu o conceito de objet petit a: o objeto-causa do desejo que nunca é o objeto real. O que Pigmalião deseja não é Galateia. É a perfeição que ele imaginou. Galateia viva é imperfeita. E a imperfeição é sentida como traição ao projeto. O amor lacaniano é sempre deslocado: ama-se o que não existe na pessoa real, e frustra-se com o que existe. O psicólogo Dan Kiley descreveu nos anos 1980 a Síndrome de Peter Pan: homens que se recusam a lidar com mulheres reais. Pigmalião é a versão mitológica: um homem que rejeita todas as mulheres reais e cria uma ideal. A criação ideal coopera. A mulher real contradiz. E a contradição é experimentada não como vitalidade, mas como defeito. O terapeuta Harville Hendrix, criador da Imago Relationship Therapy, argumenta que nos apaixonamos por uma imago: uma imagem composta dos traços dos nossos cuidadores primários. Pigmalião literaliza essa teoria. Ele cria a imago em marfim. A terapia consiste em reconhecer que a imago não é a pessoa. E que a pessoa é mais interessante que a imago, mesmo que menos perfeita. III O EspelhoExiste alguém na sua vida que você ama pela pessoa que ela é ou pela pessoa que você fez dela? Um parceiro que você moldou. Um filho que você projetou. Um protegido que você construiu à sua imagem. E que, quando demonstra uma vontade que não estava no seu plano, gera em você não admiração, mas frustração. Pigmalião criou a mulher perfeita. A mulher perfeita era um objeto. Quando se tornou pessoa, deixou de ser perfeita. A pergunta é: você consegue amar o que não esculpiu? Faça um inventário das suas expectativas sobre as pessoas mais próximas. Agora separe: quais dessas expectativas nasceram da pessoa real, e quais nasceram do que você projetou nela? A frustração que você sente quando alguém não corresponde diz mais sobre a sua escultura do que sobre a pessoa. Galateia está viva. Isso significa que ela pode dizer não. E o não de quem você criou é o diagnóstico mais preciso de Pigmalião. Até o próximo diagnóstico. |
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O RITUAL DIÁRIO Todo dia, ao meio-dia e doze. Um mito. Cinco minutos de espelho. Todo mito é um diagnóstico. Toda edição é um espelho. |