Mitologia do Dia #009 · Perséfone
Mitologia do Dia

EDIÇÃO Nº 009

O MITO DE HOJE

Perséfone

Grécia arcaica. Filha de Deméter. A rainha de dois mundos.

A descida necessária

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Perséfone entre o mundo dos vivos e o submundo

A INSCRIÇÃO

Nem toda descida é queda. Algumas são inauguração.

Nem toda descida é queda. Existe um tipo de mergulho que a pessoa não escolhe, que parece destruição enquanto acontece, mas que no retorno revela uma versão que não existia antes. Os gregos registraram esse padrão numa deusa que governa dois mundos exatamente porque foi forçada a conhecer os dois.

I

O Mito

Perséfone era filha de Deméter, deusa da colheita, e de Zeus. O Hino Homérico a Deméter, um dos textos mais antigos sobre o mito, descreve a cena inaugural. Perséfone colhia flores num campo quando a terra se abriu. Hades, deus do submundo, emergiu e a levou para baixo.

Deméter enlouqueceu de dor. Vagou pela terra procurando a filha. Enquanto procurava, nada cresceu. As colheitas morreram. Os campos secaram. Os humanos começaram a morrer de fome. A deusa da fertilidade se tornou a causa da esterilidade.

Ovídio (Metamorfoses, Livro V) e Apolodoro (Biblioteca, I.5) acrescentam os detalhes da negociação. Zeus, pressionado pela fome dos mortais, mandou Hermes ao Hades buscar Perséfone. Hades concordou em devolvê-la. Mas antes de ela partir, ofereceu-lhe sementes de romã.

Perséfone comeu seis sementes. Comer no submundo significa pertencer a ele. Não há como voltar inteiramente.

O acordo foi este: seis meses acima, com a mãe, na luz. Seis meses abaixo, com Hades, na escuridão. Quando Perséfone sobe, Deméter celebra e a terra floresce. Quando Perséfone desce, Deméter sofre e a terra morre. As estações do ano nasceram desse ciclo.

O detalhe mais importante é frequentemente ignorado: Perséfone não voltou como era. Desceu como Kore (a donzela, a filha). Subiu como rainha do submundo. A descida não foi desvio. Foi transformação.

O Hino Homérico a Deméter, composto provavelmente no século VII a.C., é uma das fontes mais antigas e detalhadas. Nele, Deméter não apenas busca a filha. Ela se disfarça de mortal, se emprega como ama-de-leite num palácio humano, e tenta tornar imortal o bebê que cuida, mergulhando-o no fogo à noite. Quando a mãe humana a descobre e grita, Deméter revela sua forma divina, furiosa. O paralelo é claro: Deméter tenta substituir a filha perdida. E a substituição falha.

"Ela desceu como donzela. Subiu como rainha." (Hino Homérico a Deméter)

II

O Diagnóstico

O que os gregos estavam registrando é o padrão da transformação que exige perda de inocência. Não existe retorno ao que era. Existe passagem para o que se torna.

Jung reconheceria em Perséfone o processo central da individuação: a descida ao inconsciente como etapa obrigatória do amadurecimento. Em "Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo", Jung descreve que toda individuação genuína passa por uma fase de nekyia, a descida ao mundo dos mortos. Não metafórica. Experiencial. A pessoa desce. Perde referências. Encontra o que estava enterrado. E quando sobe, sobe diferente.

A romã é o elemento decisivo. Comer no submundo é aceitar que parte de você agora pertence àquele lugar. Não dá para visitar o Hades e voltar intacto. A descida deixa marca. Quem passou por uma depressão profunda, por um luto devastador, por uma crise que desmontou toda a estrutura sabe disso: você sai, mas não sai inteiro. E a parte que ficou lá é exatamente o que te torna mais real.

Hillman diria que Perséfone é o arquétipo da profundidade involuntária. A pessoa não escolheu descer. Foi puxada. Mas a sabedoria que adquiriu no submundo não teria vindo de outra forma. A luz não ensina o que a escuridão ensina. E quem nunca desceu não tem autoridade sobre a profundidade.

Robert Johnson, em "She", identifica nesse mito o padrão da mulher que precisa perder a mãe interior (a proteção, a dependência, o território conhecido) para acessar o próprio poder. Mas o padrão não é exclusivamente feminino. É de qualquer pessoa que precisa perder a versão anterior de si para encontrar a seguinte.

O diagnóstico é direto: a descida que parece destruição pode ser inauguração. Mas só se a pessoa aceitar que comeu a romã. Que não volta como era.

Sylvia Brinton Perera, em 'Descent to the Goddess', usa o mito de Perséfone (e de Inanna, equivalente sumério) para descrever o processo psicológico da mulher que precisa perder tudo o que a define para encontrar o que a sustenta. A descida não é opcional. É a condição para que a profundidade exista. Quem nunca desceu vive na superfície. E a superfície, por mais iluminada que seja, não tem raiz.

O detalhe da romã merece atenção clínica. Seis sementes. Não uma. Não todas. Seis. A descida não transforma Perséfone completamente em moradora do Hades. Transforma-a em alguém que transita. Que pertence aos dois mundos. Que carrega escuridão dentro da luz e luz dentro da escuridão. A saúde psíquica, segundo Jung, não é a eliminação da sombra. É a capacidade de transitar entre a luz e a escuridão sem se perder em nenhuma delas.

A psicóloga Judith Herman, em 'Trauma e Recuperação', descreve três estágios de recuperação: segurança, reconstituição da narrativa, e reconexão. Perséfone passa pelos três. A segurança vem ao retornar ao mundo de cima. A narrativa se reconstitui quando ela se torna rainha, não vítima. A reconexão acontece no trânsito entre os dois mundos. A descida não é o trauma. É o que a pessoa faz com a descida.

III

O Espelho

Existe uma descida na sua vida que você ainda trata como erro?

Um período escuro que você narra como desvio, como falha, como tempo perdido. Algo que desmontou a pessoa que você era e que você ainda tenta reconstruir em vez de reconhecer a pessoa que saiu dali.

Perséfone não voltou como Kore. Voltou como rainha. A pergunta não é se a descida deveria ter acontecido. A pergunta é: o que você se tornou por causa dela que não teria se tornado de outra forma?

Existe um indicador simples. Quando alguém pergunta sobre um período difícil da sua vida, como você descreve? Se descreve como desvio, como erro, como tempo perdido, a descida não foi integrada. Se descreve como passagem, como fundação, como o lugar onde algo nasceu, a romã foi comida. E o trânsito entre mundos começou.

Até o próximo diagnóstico.

Até o próximo diagnóstico.

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