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Todo sistema que depende de uma proibição para funcionar carrega dentro de si a data da própria quebra. Os gregos sabiam disso. E registraram num mito em que o problema não era o conteúdo da caixa, mas a ordem de não abri-la.
I
O Mito
Pandora não foi criada por acidente. Hesíodo, em Os Trabalhos e os Dias, descreve sua criação como um projeto deliberado de Zeus. Uma retaliação calculada contra os humanos por terem recebido o fogo de Prometeu.
Zeus ordenou que Hefesto a moldasse em argila. Atena a vestiu e ensinou os trabalhos manuais. Afrodite lhe deu graça e desejo. Hermes colocou nela a fala, a mentira e a curiosidade. Cada deus contribuiu com um atributo. O nome Pandora significa "todos os dons". Ela era, literalmente, um presente feito por todos.
Zeus a enviou a Epimeteu, irmão de Prometeu. Prometeu havia avisado: não aceite presentes dos deuses. Epimeteu (cujo nome significa "aquele que pensa depois") aceitou.
Pandora trouxe consigo um jarro (a tradição posterior transformou em caixa, por erro de tradução de Erasmo de Roterdã no século XVI). O jarro continha todos os males: doença, velhice, trabalho, loucura, vício, fome, dor. E, no fundo, a esperança.
Havia uma instrução: não abra.
Pandora abriu.
Os males se espalharam pelo mundo. Quando ela conseguiu fechar o jarro, restou apenas a esperança, presa dentro, na borda.
Hesíodo não explica se a esperança ficou presa como consolo ou como mais um mal. A ambiguidade é intencional.
Teógnis de Mégara, poeta do século VI a.C., menciona que antes de Pandora os humanos viviam sem doença, sem velhice, sem trabalho pesado. A Idade de Ouro. Pandora marca a transição. Não como punição isolada. Como o início da condição humana completa: conhecer o mal é o preço de conhecer.
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"Restou apenas a esperança, presa na borda do jarro." (Hesíodo, Os Trabalhos e os Dias)
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II
O Diagnóstico
O que os gregos estavam registrando não é um alerta contra a curiosidade. É o reconhecimento de que proibir algo sem explicar o porquê cria uma compulsão inevitável.
Freud descreveu em 1920 o conceito de pulsão de morte (Thanatos), a tendência do organismo a se mover em direção à destruição. Mas antes disso, em 1905, nos Três Ensaios, ele já havia identificado a pulsão epistemofílica: a pulsão de saber. A curiosidade não é opcional. É estrutural. A criança que pergunta de onde vêm os bebês não está sendo desobediente. Está respondendo a uma necessidade psíquica de completar um vazio cognitivo.
Pandora está operando sob essa mesma pulsão. O jarro fechado é um vazio. A instrução "não abra" transforma o vazio em mistério. E o mistério é insuportável para uma mente que foi construída (literalmente, pelos deuses) com curiosidade como componente central.
Jung reconheceria aqui o padrão da individuação interrompida. A proibição impede o contato com o conteúdo. Mas o conteúdo não desaparece por estar escondido. Pelo contrário. Quanto mais trancado, mais pressiona. O inconsciente coletivo funciona assim: o material reprimido acumula energia até encontrar uma fresta.
Hillman faria a leitura mais radical. A esperança, presa no fundo do jarro, não é um consolo. É o último mal. A esperança que sobrou é a que impede a pessoa de lidar com o que saiu. Enquanto a pessoa espera que as coisas melhorem, não processa os males que já se espalharam. A esperança vira adiamento.
O padrão é cotidiano. A decisão que você sabe que precisa tomar mas adia porque "talvez melhore sozinha". A conversa que precisa acontecer mas que você adia porque "talvez não seja necessária". A informação que você evita buscar porque, enquanto não souber, pode continuar esperando.
O diagnóstico é este: a curiosidade que Pandora demonstrou não era defeito. Era o único caminho para que os males fossem enfrentados. O problema não é abrir a caixa. O problema é acreditar que existia um cenário em que a caixa ficaria fechada para sempre.
Melanie Klein, na psicanálise de crianças, descreveu a posição depressiva como o momento em que a criança percebe que o mesmo objeto (a mãe) é fonte de prazer e de frustração. Pandora funciona nessa mesma lógica: o jarro contém os males e a esperança. A tentativa de separar o bom do mau é o que a proibição propõe. E a tentativa fracassa porque bom e mau estão no mesmo recipiente.
O filósofo Hans Blumenberg, em 'Work on Myth', argumenta que Pandora não é a causadora dos males. É a portadora da consciência. Antes dela, os humanos viviam sem saber. Depois dela, viviam sabendo. O jarro aberto é o momento em que a inocência termina. E a inocência, ao contrário do que a narrativa moral sugere, não é um estado desejável. É um estado incompleto.
O psicanalista Wilfred Bion descreveu a capacidade de tolerar a incerteza como a qualidade mais importante do pensamento maduro. Pandora não tolera a incerteza do jarro fechado. E a incapacidade de tolerar incerteza não é fraqueza. É o mecanismo que impede a mente de ficar presa num estado de suspensão permanente. Às vezes, abrir é a única forma de seguir.
III
O Espelho
O que você está evitando abrir?
Não o que não sabe. O que já sabe que está ali, mas prefere não confirmar. A conversa, o exame, a pergunta, a decisão. O jarro que você mantém fechado não porque é forte o suficiente para segurá-lo, mas porque a esperança de que o conteúdo tenha desaparecido sozinho ainda funciona como anestesia.
Pandora não trouxe os males ao mundo. Eles já estavam no jarro. Já existiam. Ela apenas tirou a tampa que impedia que fossem vistos.
A pergunta é: o que está no seu jarro, e há quanto tempo você finge que ele está vazio?
A versão mais honesta desta pergunta é: não o que você está evitando abrir, mas por que ainda finge que pode mantê-lo fechado. A tampa já está frouxa. O conteúdo já está vazando em forma de sintomas, de ansiedade, de decisões adiadas. A diferença entre Pandora e a maioria das pessoas é que Pandora abriu de uma vez. A maioria deixa vazar aos poucos e chama isso de controle.
Até o próximo diagnóstico.
Até o próximo diagnóstico.
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