Mitologia do Dia #044 · Pã
Mitologia do Dia

EDIÇÃO Nº 044

O MITO DE HOJE

O pavor que paralisa

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Pã — ilustração mitológica

A INSCRIÇÃO

Pã não persegue ninguém. Apenas grita uma vez, ao meio-dia, e o exército inteiro foge sem inimigo, machucando-se a si mesmo.

Ele não ataca. Não persegue. Não invade. Apenas grita uma vez, num bosque qualquer, ao meio-dia. E o exército inteiro, sem ver inimigo nenhum, larga as armas, corre, atropela-se, mata-se mutuamente. Pã não fez nada. Mas todos estão mortos.

I

O Mito

é deus rural, nascido na Arcádia (região montanhosa do Peloponeso). Tem pernas de bode, chifres, barba, flauta de bambu. Filho de Hermes (em algumas versões) com uma ninfa, ou de Zeus com uma cabra, ou de Penélope (em versão menos conhecida). A genealogia varia. O que não varia é a aparência: meio humano, meio animal, completamente selvagem. Hesíodo, Homero (Hino Homérico a Pã), e Apolodoro (Biblioteca, I.4.1) registram o personagem.

Pã governa florestas, bosques, pastagens, rebanhos. Não pertence ao Olimpo. É deus rural, regional, periférico. Os pastores arcádios o invocam para proteção dos rebanhos. Mas o mesmo deus que protege também aterroriza. Quando Pã passa por um bosque ao meio-dia, sob o sol vertical, em silêncio total, qualquer pessoa ali sente um terror inexplicável. Sem causa visível. Sem ameaça nomeada. Apenas pavor.

Daí a palavra "pânico", em todas as línguas indo-europeias. Vem de panikon deima, "terror panico", o medo causado por Pã. O grego Plutarco, em Vidas Paralelas e em Por que os oráculos calaram, comenta que viajantes em florestas frequentemente eram tomados por pavor súbito sem causa identificável. Atribuíam a Pã.

A função militar de Pã aparece em várias batalhas mitológicas. Heródoto (Histórias, VI.105) registra que, antes da Batalha de Maratona (490 a.C.), o mensageiro Filípides correndo de Atenas a Esparta para pedir reforços encontrou Pã no caminho. O deus prometeu ajudar os atenienses se fosse cultuado. Em Maratona, segundo a tradição, Pã teria infundido pânico repentino nos persas, contribuindo para a vitória ateniense. Atenas erigiu altar a Pã na Acrópole após a vitória.

Em Apolodoro (Biblioteca, I.6.2) e em Higino, Pã aparece na Titanomaquia (a guerra dos olímpicos contra os titãs) gritando um grito tão potente que os titãs, momentaneamente, recuam em pavor. O grito de Pã é arma psicológica antes de ser arma física.

Pã também é deus da sexualidade selvagem. Persegue ninfas. Ovídio (Metamorfoses, I.689-712) narra a perseguição à ninfa Sirinx, que, fugindo do deus, é transformada em junco às margens de um rio. Pã corta os juncos e fabrica a flauta-de-pã (siringe), que carrega para sempre como instrumento. O desejo se transforma em música. A ninfa virou som.

Plutarco, em De defectu oraculorum (Por que os oráculos calaram), conta uma história curiosa do reinado de Tibério. Um marinheiro chamado Tamuz, navegando perto da ilha de Paxos, ouviu uma voz divina ordenando-lhe que anunciasse, ao chegar a Palodes: "o grande Pã morreu". Quando Tamuz fez o anúncio, ouviu-se gemido coletivo de várias vozes. A história foi interpretada por cristãos posteriores (Eusébio, Rabelais) como o anúncio mítico do fim da era pagã com o nascimento de Cristo. Mas a história em si, pré-cristã, narra a morte do deus que produzia pânico. Como se o pânico em si tivesse, em algum momento, perdido a divindade arcaica e virado fenômeno meramente humano.

II

O Diagnóstico

A psicologia clínica reconhece o pânico como categoria distinta da ansiedade. Ansiedade é estado prolongado de alerta sobre ameaças possíveis. Pânico é episódio agudo, súbito, sem causa imediata identificável, que dura entre cinco e trinta minutos, com sintomas físicos intensos (taquicardia, tontura, sensação de irrealidade, falta de ar, dormência). O DSM-5 classifica como Transtorno do Pânico quando os episódios se repetem.

A intuição mítica é precisa. Pã é o deus do pânico porque o pânico tem características divinas: chega sem aviso, age sobre o corpo antes de qualquer pensamento, parece vir de fora (não de dentro), e desaparece sem deixar causa rastreável. Quem nunca teve um ataque de pânico tende a achar que é exagero. Quem teve um sabe: durante o episódio, é como se outra força tomasse posse do corpo.

James Hillman, em vários ensaios sobre arquétipos, observa que Pã governa o que os gregos chamavam de pavor meridiano: o terror do meio-dia, no silêncio total, em florestas. É específico. Não é o medo da noite (que é Hécate, ou Tânatos). É o medo do silêncio diurno, da pausa, do momento em que tudo está parado e nenhuma ameaça aparece, mas algo invisível está presente. Hillman lê isso psicologicamente: o pânico vem na pausa. Quando você finalmente para. Quando não há urgência aparente. É no silêncio que Pã grita.

Por isso o pânico clínico raramente surge durante crises agudas reais. Costuma surgir nos intervalos: férias, fim de semana, manhã de domingo, momentos sem demanda. O sistema nervoso, condicionado a alta atividade, perde referência quando a demanda cessa. Sem causa externa, fabrica causa interna. Pã grita.

Aldo Carotenuto, junguiano italiano, em Eros e Pathos, observa que o pânico em forma de ataque clínico é frequentemente a aparição da Sombra individual num momento de baixa vigilância. Conteúdos psíquicos longamente reprimidos (medos, lutos não-feitos, raivas guardadas, desejos negados) usam o vácuo da pausa para emergir. Mas como nunca foram nomeados, aparecem desnomeados, em puro pavor. O corpo reage à invasão sem entender. É Pã: presença sem rosto.

A leitura sociológica é igualmente útil. Heródoto associa Pã a batalhas. Quando exércitos inteiros entram em pânico (sem ataque concreto, ou diante de ataque mínimo), morrem mais soldados pisoteados pelos próprios companheiros do que pela mão do inimigo. O pânico coletivo é a violência interna do próprio grupo aterrorizado. Pã não precisa fazer nada. Apenas insinuar a presença. O exército faz o resto.

Esse padrão se repete em situações modernas. Crises bancárias por boato. Estouros de mercado. Saídas em massa de teatros lotados. Compras-pânico em supermercados. O fenômeno é conhecido em psicologia social: contágio emocional de pavor. Não há ameaça concreta. Há apenas a sensação coletiva de que algo está errado. E o coletivo, mexendo todos juntos, fabrica a catástrofe que estava antes apenas insinuada.

Carl Jung, em Aion, descreve o pavor coletivo como uma das formas pelas quais conteúdos arquetípicos invadem a consciência sem mediação. Quando uma cultura inteira recusa olhar para certo tema (morte, desejo, raiva, finitude), esse tema retorna como pânico difuso, sem objeto claro. O Pã coletivo é uma cultura inteira correndo de um inimigo invisível. Os exemplos modernos abundam.

A pergunta pessoal é: o que dispara o seu pânico? Em que momento, em que pausa, em que silêncio o pavor aparece? Porque Pã, como Hillman observa, geralmente avisa onde mora. Vem em horários parecidos. Em situações parecidas. No final das férias. Antes de adormecer. No meio-dia silencioso. Em viagens longas em estrada deserta. Quem não mapeia os pontos de aparição não pode preparar-se. Quem mapeia pode, ao menos, esperar a chegada com nome no bolso.

A intervenção mais eficaz para pânico clínico, segundo a literatura cognitiva-comportamental, é exposição gradual com treinamento de respiração diafragmática. Mas a leitura mítica adiciona algo. Pã é deus rural. Habita florestas. O pânico humano contemporâneo, frequentemente urbano, talvez se beneficie de retorno periódico ao território real do deus: tempo na natureza, longe de telas, em silêncio buscado, não evitado. Não como cura definitiva. Como forma de dialogar com o que está avisando que existe, em vez de fingir que não existe.

A inscrição: Pã não persegue ninguém. Apenas grita uma vez, ao meio-dia, e o exército inteiro foge sem inimigo, machucando-se a si mesmo. A maior parte do dano do pânico não vem da causa. Vem da reação ao pânico. Quem aprende a sentar com o pavor sem fugir descobre, em algumas tentativas, que o deus apenas passou. O bosque continua. O sol baixou. Não havia ataque. Havia presença.

A pergunta para hoje. Em que momento da sua vida o Pã grita? E há quanto tempo você vem fugindo, machucando-se mais na fuga do que se machucaria se parasse para olhar o que estava ali, no meio-dia, no silêncio, sem rosto?

Até o próximo diagnóstico.

 

☞ Quiz da edição

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