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Ele governava bem. Era amado. E por isso mesmo Set o matou. Não por maldade abstrata, por inveja de quem ocupa o lugar que se deseja. O corpo foi fechado num caixão e jogado no Nilo.
Quando isso não bastou, Set o encontrou, cortou em pedaços e espalhou pelos quatro cantos do Egito. Quatorze fragmentos. Quatorze lugares. E uma mulher que foi buscar cada um deles.
I
O Mito
Osíris (Wsır em egípcio antigo; Ousir em grego) é uma das divindades mais antigas e centrais do panteão egípcio, documentado desde os Textos das Pirâmides (séc. XXV-XXIII a.C.), os textos religiosos egípcios mais antigos conhecidos.
Sua mitologia está amplamente preservada nesses textos, nos Textos dos Sarcófagos (Primeiro Período Intermediário) e no Livro dos Mortos, mas o relato mais completo e narrativo do mito nos chegou através de Plutarco (Sobre Ísis e Osíris, séc.
II d.C.), fonte essencial para o ciclo osírico, ainda que de período tardio e de perspectiva helênica.
Osíris é filho de Geb (terra) e Nut (céu), irmão de Set, Ísis e Néftis. Casado com Ísis, sua irmã e consorte. Reinou sobre o Egito como primeiro faraó divino, ensinando a humanidade a agricultura, as leis e os ritos.
Set (Stḫ), seu irmão, movido por inveja, armou uma conspiração: convidou Osíris a se deitar num caixão feito sob medida para seu corpo. Quando Osíris se deitou, Set e seus setenta e dois cúmplices fecharam a tampa, selaram o caixão com chumbo e o lançaram no Nilo.
Isso é narrado por Plutarco (Mor. 356A-B).
O caixão derivou até Biblos (litoral da Fenícia), onde uma tamareira cresceu ao redor dele. O rei local usou a tamareira como pilar de seu palácio. Ísis, procurando o marido, chegou a Biblos, recuperou o pilar e o corpo.
Mas Set encontrou o corpo novamente, desta vez o cortando em quatorze partes (em algumas versões, dezesseis ou quarenta e dois) e dispersando-as pelo Egito. Plutarco (Mor. 358B) lista as partes e os locais onde Ísis as encontrou.
Ísis, com a ajuda de sua irmã Néftis e do deus chacal Anúbis, percorreu o Egito inteiro reunindo os fragmentos. Reconstitui o corpo com bandagens de linho, criando o primeiro processo de mumificação. A única parte não recuperada foi o falo, devorado por um peixe do Nilo (o oxirrinco).
Ísis criou um falo de ouro como substituto. Então, assumindo a forma de uma pássara (Milvago ou kite), desceu sobre o corpo reconstituído e, batendo as asas, o animou com seu feitiço e concebeu Hórus.
Osíris, revivificado apenas o tempo necessário para essa concepção, desceu ao Duat (o submundo) para se tornar rei dos mortos e juiz das almas.
Os Textos das Pirâmides (especialmente as pirâmides de Unis e Teti) contêm as mais antigas formulações deste mito em forma de encantamentos fúnebres. O faraó morto é identificado com Osíris; o faraó vivo, com Hórus seu filho. A sequência Osíris-Set-Ísis-Hórus é o modelo simbólico de toda sucessão real egípcia.
A iconografia de Osíris o representa em forma mumificada com pele verde (cor da vegetação renascente, do Nilo em cheia) ou preta (cor da terra fértil do Vale do Nilo). Usa a coroa Atef (branca com plumas de avestruz), segura o cajado (heqa) e o flagelo (nekhakha), símbolos de realeza e julgamento.
II
O Diagnóstico
O mito de Osíris é um dos mais poderosos da história humana sobre fragmentação e reconstituição, não restauração. Essa distinção é central. Osíris não retorna ao que era antes do desmembramento. Ele retorna como algo que só o desmembramento tornou possível: rei do Duat, juiz das almas, símbolo de ressurreição.
A morte e a despedaçamento são a condição de sua potência definitiva, não um episódio anterior a ela.
Carl Jung, em Psicologia e Religião e em Símbolos de Transformação, descreve os mitos de despedaçamento e reconstituição como representações do processo de individuação em sua fase mais radical.
A descida ao "estado fragmentado", a experiência de ter a identidade dissolvida, de não saber mais quem se é, de sentir-se "cortado em pedaços", é reconhecida em crises psicológicas severas (lutos profundos, esgotamentos, traumas). O que acontece nessa fase não é um erro no processo: é o processo.
Erich Neumann, em As Origens e História da Consciência, analisa o ciclo osírico como arquétipo da transformação da consciência masculina. O deus do Sol (consciência diurna, ordenada, nominal) desce ao submundo, fragmenta-se, e retorna como deus dos mortos, consciência que agora compreende tanto o dia quanto a noite.
Quem não passou pelo desmembramento tem consciência de um só lado. A experiência do Duat, do submundo interior, é o que torna possível julgar almas (incluindo a própria) com genuína equanimidade.
A reconstituição por Ísis é igualmente diagnóstica. Note que não é Osíris que se remonta. Ele não age durante esse processo. Outro o reúne.
O amado, o parceiro, o princípio da memória e do amor (o arquétipo de Ísis será visto com mais detalhe na próxima edição) percorre o mundo para reunir os fragmentos.
Isso é um padrão que a psicoterapia conhece bem: em certos estados de fragmentação, o ego não tem recursos para se reconstituir sozinho. Precisa de testemunha, de relação, de alguém que passe pelo trabalho de buscar os pedaços junto.
O fato de que o falo é a única parte não recuperada é de uma honestidade mítica perturbadora. O que Osíris perde permanentemente, o que não se recupera após certos tipos de desmembramento, é o princípio gerador, a potência criativa de seu antigo modo de existência.
Ele não pode mais criar da forma como criava antes. O falo de ouro que Ísis fabrica é funcional (Hórus é concebido) mas não é o original. A nova criação é possível, mas através de instrumentos diferentes do que eram antes.
Quem passou por certa ordem de perda sabe que nunca se recupera completamente o modo de criar anterior. Cria-se de outro lugar, com outra ferramenta. Isso não é defeito. É a marca de Osíris.
A dimensão do julgamento é também fundamental. Osíris não retorna para reinar sobre os vivos, retorna para presidir o julgamento dos mortos.
A experiência do desmembramento produz uma forma de sabedoria que é específica para esse papel: quem foi fragmentado e se sabe reconstituído não julga o fragmentário como fato irremediável. Julga-o como estado de passagem.
Isso gera a misericórdia específica que a teologia egípcia atribui a Osíris no Livro dos Mortos: não é clemência por fraqueza, mas compreensão por experiência.
James Hollis, em The Middle Passage, descreve o que chama de "colapso da estatura provisional do ego", quando a construção identitária que funcionou na primeira metade da vida se fragmenta. Esse colapso, que culturalmente chamamos de crise de meia-vida ou burnout profundo ou depressão maior, é o desmembramento osírico.
O que sai do outro lado não é o mesmo: é mais capaz de julgamento, de presença no escuro, de compreensão do que não é visível à luz do dia.
A pergunta para hoje: por quais desmembramentos você já passou que não reconheceu como tal enquanto ocorriam? Que "quatorze partes" de você foram espalhadas em diferentes direções, e quantas já foram reunidas? E o que, nessa reconstituição, você percebeu que não voltou, e o que de diferente emergiu no lugar?
A inscrição: Osíris não foi restaurado ao que era. Foi reconstituído em algo que o que era nunca poderia ter sido. O desmembramento não é interruption da história, é a condição de sua próxima fase. Toda reconstrução genuína carrega a marca do que se perdeu, visível e integrada, não disfarçada. O rei dos mortos sabe coisas que o rei dos vivos nunca poderia.
Até o próximo diagnóstico.
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