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Existe uma vaidade que se disfarça de amor. Ela não se envergonha, ao contrário, ela sobe no palco.
Você fala do que tem de mais precioso não para celebrar, mas para vencer alguém na comparação. O afeto vira argumento.
A pessoa amada vira número numa disputa que ela nem escolheu entrar. Níobe amava os filhos e, ainda assim, foi a arrogância dela que os colocou na mira.
I
O Mito
Níobe era rainha de Tebas, esposa do rei Anfíon, mulher de linhagem poderosa. Tinha tudo o que uma vida podia oferecer: trono, riqueza, beleza, um casamento firme.
E tinha, sobretudo, uma prole numerosa que era o seu maior orgulho.
Os relatos falam em catorze filhos, sete meninos e sete meninas, todos formosos, todos vivos, todos seus. Para Níobe, aquilo não era apenas felicidade. Era prova.
Prova de que ela valia mais que as outras mulheres, e mais até que certas deusas.
Na cidade, prestava-se culto a Leto, mãe dos gêmeos divinos Apolo e Ártemis. As tebanas ofereciam incenso e coroavam os altares em honra da deusa.
Foi aí que a vaidade de Níobe encontrou o palco que procurava.
Ela interrompeu a cerimônia em praça pública. Por que reverenciar Leto, perguntou, uma deusa que teve apenas dois filhos, quando havia diante delas uma rainha de catorze?
Mandou que o culto parasse. Que os altares fossem esvaziados. Que a honra fosse redirecionada a ela.
Repare no que Níobe fez, porque tudo se decide aqui. Ela não celebrou os filhos em silêncio, no calor da própria casa. Ela os ergueu como placar.
Transformou o amor materno num instrumento de comparação, e a comparação num desafio aberto ao que havia de mais alto.
Leto ouviu a afronta. Não desceu para discutir. Chamou os dois filhos, Apolo e Ártemis, e apontou a ofensa.
Os gêmeos entenderam sem precisar de muita explicação. A honra da mãe havia sido pisada em público, e a resposta divina não conhecia meio-termo.
Vieram armados de arco. Apolo encarregou-se dos meninos, Ártemis das meninas. Um a um, os filhos de Níobe tombaram sob as flechas certeiras, no campo, nos aposentos, sem que a rainha pudesse deter nenhuma delas.
O que ela exibira como troféu desmoronava diante dos seus olhos.
Anfíon, o marido, não suportou. E Níobe, que horas antes ostentava a maior prole de Tebas, viu-se de repente diante do vazio absoluto.
Tudo que ela usara para se elevar acima dos outros lhe foi retirado exatamente na mesma medida em que se gabara.
Diz o mito que a dor a paralisou. Níobe ficou imóvel, sem palavra, sem gesto, petrificada pelo próprio sofrimento.
Os deuses a transformaram em rocha e a levaram ao monte Sípilo, na sua terra natal. E daquela pedra, para sempre, escorria um fio de água, como se a rainha continuasse a chorar por toda a eternidade.
II
O Diagnóstico
Níobe é, em seu núcleo arquetípico, o retrato de quem transforma o que mais ama em troféu de comparação e descobre que o orgulho cobra o preço exato daquilo que se ostentou. O mito não fala de uma mãe fria. Fala de uma mãe que amava, mas que colocou esse amor a serviço da própria vaidade.
Comece pela natureza da ofensa, porque ela define o padrão. Níobe não pecou por ter muitos filhos. Pecou por usá-los como argumento numa disputa de status.
O afeto genuíno virou munição, e a munição foi disparada contra quem tinha poder para revidar.
Esse é o primeiro traço: o orgulho que precisa de plateia. Existe uma felicidade que se basta, vivida de portas para dentro. E existe outra que só se sente completa quando comparada, exibida, medida contra a do vizinho.
A segunda não celebra, ela compete. E competir com o que se ama é a forma mais silenciosa de traí-lo.
O segundo traço aparece na escolha do adversário. Níobe não se comparou a outra mãe qualquer. Comparou-se a uma deusa, e ainda exigiu tomar o lugar dela.
A arrogância não mede o tamanho do oponente. Ela infla até desafiar aquilo que, por definição, está fora do seu alcance derrubar.
Existe um nome antigo para esse mecanismo: hybris, o orgulho desmedido que ultrapassa o limite humano. Não é orgulho de fazer bem feito. É a soberba que se acha imune, que confunde ter muito com ser intocável.
A hybris trata a sorte presente como mérito permanente, e nunca vê a flecha antes de ela partir.
O terceiro traço é o mais cruel, e mora na simetria do castigo. Níobe se gabou dos filhos, e foram os filhos que lhe tiraram. O preço não foi aleatório.
Cobrou-se exatamente na moeda que ela havia colocado na mesa. Quem aposta o que ama numa disputa de vaidade descobre que a aposta pode ser executada.
Há uma lógica dura por trás disso, e ela dispensa deuses. Quando você transforma algo em símbolo do seu valor perante os outros, você amarra esse algo ao seu ego.
E o que está amarrado ao ego fica exposto a todo golpe que mira o ego. O que era abrigo vira alvo, só porque foi erguido como bandeira.
O espelho moderno é imediato. O pai que fala do filho não para celebrar, mas para diminuir o filho alheio. O profissional que exibe a conquista menos por alegria e mais para rebaixar o colega.
Quem posta a família como prova de que venceu na vida, sem perceber que transformou pessoas queridas em placar de uma competição que ninguém pediu.
Repare no papel de Leto, porque ele completa o diagnóstico. A deusa não atacou por inveja. Ela respondeu a uma provocação pública, a uma honra roubada diante de todos.
A soberba raramente cai sozinha. Ela costuma cutucar exatamente quem tinha poder de resposta, e a queda vem menos do azar do que do convite feito de peito aberto.
Há ainda a Níobe interna, a mais difícil de encarar. É a parte de você que só se sente valiosa em contraste, que precisa que o outro tenha menos para se sentir com mais.
Essa parte não ama em paz. Ela mede, compara, exibe, e no fim coloca o que é mais precioso no lugar mais perigoso: a vitrine de uma disputa.
A saída do mito não é amar menos nem esconder o que se tem. É amar sem transformar o amor em arma. Níobe não caiu por ter catorze filhos. Caiu por usá-los para se erguer acima de todos.
A pergunta não é se você tem motivos de orgulho. É se você os carrega em silêncio ou os brande como espada contra os outros.
A pergunta para hoje: o que você mais ama, você celebra ou exibe? Em quantas conversas o seu bem mais precioso aparece como alegria genuína, e em quantas ele aparece como prova de que você está à frente de alguém?
E se um dia a comparação for cobrada, quanto do que você ama estaria pendurado numa disputa que ele nunca escolheu?
A inscrição: Níobe não caiu porque amava demais os filhos. Caiu porque os transformou em placar contra os outros. Quem exibe o que ama como prova de superioridade não protege o que ama, expõe.
Até o próximo diagnóstico.
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