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Existe uma fogueira parada na frente de quase todo mundo. Não é figura de linguagem, é uma hora marcada: o momento em que dá para entrar, mas ainda não dá para saber o que acontece depois de entrar. E é ali que a maioria descobre que estava esperando uma condição que nunca ia chegar.
Nanauatzin, o deus ferido que virou sol, é o mito que mostra esse instante sem enfeite: dois deuses diante do mesmo fogo, um com tudo a exibir e outro sem nada, e a diferença entre eles não está no que cada um tinha, está em quem entrou primeiro.
I
O Mito
No conto asteca, quatro sóis já haviam se acabado antes do nosso. O mundo estava no escuro, sem astro nenhum no céu, e os deuses se reuniram em Teotihuacan para resolver quem ia iluminar a próxima era.
A regra era simples e brutal. Não bastava se apresentar. Quem quisesse virar sol teria que se lançar dentro de uma fogueira sagrada e queimar por inteiro. O astro só nasceria de alguém disposto a deixar de ser o que era.
Tecciztecatl foi o primeiro a levantar a mão. Deus rico, bonito, cheio de posses, ele se ofereceu na frente de todos e ninguém achou estranho. Se alguém no conselho parecia talhado para virar luz, era ele.
Faltava um segundo candidato, e aí o salão emudeceu. Ninguém mais quis. Os deuses então se voltaram para Nanauatzin, o pustulento, o deus coberto de feridas que ficava encolhido num canto, e disseram que a vaga era dele. Ele aceitou sem discutir.
Veio a penitência de quatro noites, e com ela as oferendas. Tecciztecatl levou o melhor que possuía: penas de quetzal em vez de ramos verdes, bolas de ouro em vez de feno, espinhos de jade e coral, incenso da melhor qualidade.
Nanauatzin não tinha nada daquilo. Levou juncos verdes amarrados em três feixes, bolas de palha seca, espinhos de maguey manchados com o próprio sangue. No lugar do incenso nobre, ofereceu as cascas que caíam das próprias feridas. Foi o que ele tinha para dar.
A fogueira ardeu quatro dias sem parar até virar um braseiro branco de tão quente. À meia-noite, os deuses se posicionaram em volta e chamaram Tecciztecatl primeiro, por direito de quem se ofereceu antes.
Ele tomou impulso e avançou. Ao sentir o calor na pele, parou e voltou atrás. Tentou de novo e recuou. Tentou uma terceira vez e recuou de novo. Na quarta investida, o corpo simplesmente não obedeceu, e ele ficou parado na beirada, olhando para dentro do fogo.
Pela regra do conselho, ninguém tinha mais que três chances. Os deuses se viraram para Nanauatzin e o chamaram. Ele não pediu tempo, não mediu a distância, não perguntou o que ia acontecer depois. Fechou os olhos e se jogou. O corpo estalou nas brasas como lenha seca.
Vendo aquilo, Tecciztecatl saltou logo em seguida, agora que a coisa já estava feita e o fogo já tinha baixado um pouco. Uma águia mergulhou atrás dos dois e saiu com as penas chamuscadas de preto; uma onça pulou depois e ficou com o pelo salpicado de manchas queimadas.
Os deuses ficaram olhando para o leste, sem saber de que lado o novo astro apareceria. Nanauatzin subiu primeiro, vermelho, tremendo de luz. Logo atrás dele subiu Tecciztecatl, e o céu ficou com dois sóis idênticos, brilhando com a mesma força.
Aquilo não podia ficar de pé. Um dos deuses pegou um coelho e atirou na cara do segundo astro, apagando parte do brilho dele. Tecciztecatl virou a lua, mais fraca, com a marca do animal estampada no rosto para sempre.
Ainda faltava uma coisa: nenhum dos dois se mexia. Sol e lua ficaram pendurados no mesmo ponto do céu, imóveis. Só quando Ehécatl, o deus do vento, soprou com toda a força os astros começaram a andar. Desde então Nanauatzin abre o dia, e Tecciztecatl vem depois, com a luz que sobrou.
II
O Diagnóstico
Nanauatzin é, no seu núcleo arquetípico, o mito de quem entra sem garantia enquanto o outro espera a condição perfeita, o padrão do salto dado de olhos fechados diante de um fogo que ninguém sabe medir, e do preço cobrado de quem chega depois no mesmo lugar.
Repare no que torna o mito preciso: Tecciztecatl não é o covarde da história. Ele se ofereceu primeiro, por vontade própria, na frente do conselho inteiro. A falha dele não está na intenção, está nos metros finais.
Esse é o primeiro traço do padrão. A oferenda é a parte fácil. Ouro, jade, quetzal, incenso caro: tudo aquilo se separa do corpo sem doer. Nanauatzin ofereceu as próprias feridas porque era o único material que ele tinha. Quem só entrega o que dá para destacar de si nunca testou o que a entrada custa.
O segundo traço está na natureza da hesitação. Recuar não é falta de vontade, é exigência de garantia. Tecciztecatl queria entrar no fogo já sabendo que sairia sol. Ele não estava com medo do calor, estava esperando a certeza, e certeza é justamente o que uma fogueira sagrada não emite.
O terceiro traço é o mais desconfortável. Quem salta primeiro costuma ser quem tem menos a preservar. Nanauatzin não tinha figura para manter, reputação para arriscar nem plateia para decepcionar. O que parecia desvantagem virou a única coisa que deixou o corpo dele passar pela beirada.
O quarto traço é o que ninguém quer ouvir. A ordem pesa mais que o mérito. Os dois entraram no mesmo fogo, os dois queimaram inteiros, os dois subiram ao céu. O que separou o sol da lua não foi a qualidade da entrega, foi o relógio.
O quinto traço explica por que o segundo salto vale menos. Tecciztecatl entrou quando a brasa já tinha baixado e a resposta já era conhecida. Agir depois que o risco virou notícia não compra a mesma coisa que agir quando ninguém sabia o resultado. É o mesmo gesto, com metade do preço e metade do retorno.
O sexto traço está no coelho. Ninguém convocou um tribunal para punir a hesitação. O mundo simplesmente não comportava dois astros iguais, e a luz do segundo foi apagada por consequência, não por castigo. Quem demora não é julgado, é apenas realocado para o lugar que sobrou.
O sétimo traço é o mais esquecido. Nem o salto resolve sozinho. Depois de queimar, os dois astros ficaram parados no céu, sem andar, até que um terceiro deus soprasse. Entrar no fogo foi a condição de partida, não a linha de chegada. Ainda veio custo depois.
A saída do mito começa numa distinção simples. O oposto de hesitar não é agir sem pensar. É parar de tratar a temperatura ideal como pré-requisito e passar a diminuir o tamanho da fogueira: entrar mais cedo, com menos em jogo, tantas vezes quantas forem necessárias para o corpo aprender que dá para sair do outro lado.
E há uma verdade dura escondida no mito. Boa parte do que você chama de preparo é adiamento com nome técnico. A quarta investida de Tecciztecatl não foi mais preparada que a primeira, foi só mais tarde. Cada volta em torno da fogueira consome exatamente o tempo em que outra pessoa está entrando.
A pergunta para hoje é direta: existe alguma fogueira na sua frente que você já rondou três, quatro vezes, sempre voltando atrás no último metro, e que continua ali esperando?
E, indo mais fundo: o que exatamente você está esperando saber antes de entrar, e alguém já conseguiu saber isto antes de entrar? Tecciztecatl não perdeu o sol por falta de coragem. Perdeu por acreditar que existia um momento em que o fogo ia parar de queimar.
A inscrição: quem salta primeiro vira sol. Quem espera a temperatura ideal entra no mesmo fogo e sai com a luz que sobrou. A condição perfeita nunca chega, e a fila não espera por você.
Até o próximo diagnóstico.
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