Mitologia do Dia #008 · Midas
Mitologia do Dia

EDIÇÃO Nº 008

O MITO DE HOJE

Midas

Grécia arcaica. Rei da Frígia. O toque que transforma tudo.

Quando tudo vira ouro (e nada vira afeto)

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Midas tocando a filha que se transforma em ouro

A INSCRIÇÃO

O toque que transforma tudo acaba por não tocar ninguém.

Existe um tipo de sucesso que isola. Não porque as pessoas se afastam, mas porque cada conquista adiciona uma camada entre quem conquista e quem está ao redor. O dinheiro chega, o reconhecimento chega, os resultados chegam. E a pessoa percebe, em algum momento tardio, que tudo o que toca funciona, exceto o que precisa ser sentido.

I

O Mito

Midas era rei da Frígia, território da Ásia Menor. Ovídio, nas Metamorfoses (Livro XI), conta que Midas encontrou Sileno, o velho sátiro companheiro de Dionísio, perdido e bêbado em seus jardins. Midas o acolheu por dez dias, alimentando-o e ouvindo suas histórias. Depois, devolveu-o a Dionísio em segurança.

Agradecido, Dionísio ofereceu a Midas qualquer desejo. Um único pedido. Sem restrição.

Midas pediu que tudo o que tocasse se transformasse em ouro.

Dionísio concedeu, mas com um aviso sutil que Ovídio registra como lamento antecipado: o deus sabia que o presente era armadilha.

A euforia inicial foi absoluta. Midas tocou um galho de carvalho: ouro. Uma pedra: ouro. Uma maçã: ouro. Sentou-se para comer. O pão endureceu em ouro na mão. O vinho solidificou em ouro nos lábios. A comida virou metal antes de chegar à boca.

Então sua filha correu para abraçá-lo.

Midas a tocou. Ela se transformou em estátua de ouro. Viva um segundo antes. Metal no seguinte. A mesma mão que transformava riqueza transformava destruição.

Midas implorou a Dionísio que revertesse o dom. O deus mandou que se lavasse no rio Pactolo. A água levou o toque dourado. As areias do rio ficaram douradas para sempre. A filha voltou à vida.

Aristóteles (Política, I.9) usa Midas como exemplo da diferença entre riqueza natural (bens úteis) e riqueza artificial (acumulação sem limite). Midas confundiu as duas. Acumulou ouro sem limite e perdeu acesso aos bens mais básicos: comida, água, toque. A crítica aristotélica é econômica, mas o mito é psicológico: quando o meio (dinheiro) se torna fim, os fins reais (nutrição, afeto) desaparecem.

Higino (Fábulas, 191) acrescenta que quando Midas pediu a Dionísio para remover o dom, foi obrigado a se lavar no rio Pactolo. A purificação exigiu imersão. Não um toque. Não um gesto rápido. Imersão completa no oposto do ouro: água corrente, impermanente, que não pode ser possuída. O antídoto para a solidificação era a fluidez. Para quem transformou tudo em sólido, a cura era aceitar o líquido.

"Que tudo o que eu toque se transforme em ouro." (Midas, em Ovídio, Metamorfoses XI)

II

O Diagnóstico

O que os gregos estavam registrando é o padrão da pessoa cuja capacidade de produzir resultado destrói sua capacidade de produzir conexão. Não por maldade. Por impossibilidade estrutural: a mesma coisa que gera sucesso gera distância.

Freud reconheceria aqui uma forma de sublimação total. A sublimação é o redirecionamento de energia pulsional para fins socialmente valorizados. Trabalho, arte, conquista. Funciona bem quando a pessoa mantém outros canais abertos. Quando a sublimação absorve tudo, o sujeito se torna uma máquina de resultado que não sabe mais funcionar fora do modo de produção.

Jung descreveria isso como identificação com a persona. O rei Midas não é uma pessoa. É um papel. A persona do vencedor, do acumulador, do que transforma tudo em resultado. Quando o ego se funde com essa persona, a pessoa não sabe mais tirar o papel. Cada gesto se torna performance. Cada toque se torna transação.

Hillman veria no toque de Midas a literalização do valor. Tudo se torna o mesmo. O pão vira ouro. A filha vira ouro. A distinção entre nutrição e riqueza, entre afeto e conquista, desaparece. Quando tudo tem o mesmo valor, nada tem valor diferenciado. O ouro, que deveria ser exceção, vira a única substância do mundo.

O padrão é reconhecível em qualquer ambiente de alta performance. O empreendedor que otimizou tudo e não consegue mais ter uma conversa sem pensar em retorno. O executivo cujos filhos o tratam com a mesma formalidade que os subordinados. A pessoa que transformou cada relação em oportunidade e agora não tem nenhuma relação que não seja negociação.

O diagnóstico é claro: o toque de Midas não é um dom raro. É o padrão de quem transformou a produtividade no único idioma que fala. E nesse idioma, afeto não tem tradução.

Erich Fromm, em 'Ter ou Ser', fez a distinção que define o mito de Midas: o modo de existência pelo ter e o modo de existência pelo ser. Quem opera no modo ter transforma tudo em posse. Relações viram aquisições. Experiências viram conquistas. Conversas viram negociações. O toque de Midas é o modo ter em estado puro: tudo vira ouro, tudo vira coisa, tudo vira ter.

O detalhe do mito que mais perturbava os antigos não era o pão que virava ouro. Era a filha. Porque o pão é coisa. A filha é pessoa. E o toque de Midas não distingue. Quando a mesma lógica que transforma objetos é aplicada a pessoas, o resultado é sempre o mesmo: a pessoa vira objeto. Funcional, valioso, dourado. E morto.

O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, em estudos sobre flow e felicidade, demonstrou que experiências intrínsecas (imersão, conexão, significado) geram mais bem-estar do que experiências extrínsecas (dinheiro, status, posse). Midas otimizou o extrínseco ao máximo. E o máximo do extrínseco é o mínimo do intrínseco. Ouro perfeito. Solidão perfeita.

III

O Espelho

Qual foi a última vez que você tocou algo sem transformá-lo em resultado?

Uma conversa que ficou só conversa. Um momento que ficou só momento. Sem métrica, sem lição, sem extração de valor. Sem transformar a experiência em conteúdo, em aprendizado, em ação.

Midas não perdeu a filha por ganância. Perdeu porque o mecanismo que gerava riqueza não tinha botão de desligar.

A pergunta é: você ainda consegue tocar sem transformar?

O diagnóstico de Midas tem um teste prático. Olhe para as suas relações mais próximas. Existe alguma que não produz nenhum resultado tangível e que você mantém mesmo assim? Se todas as suas relações produzem algo (networking, aprendizado, oportunidade, status), o toque pode estar operando sem você perceber. A relação que não serve para nada é a única que prova que você ainda consegue tocar sem transformar.

Até o próximo diagnóstico.

Até o próximo diagnóstico.

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