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Existe um tipo de sucesso que isola. Não porque as pessoas se afastam, mas porque cada conquista adiciona uma camada entre quem conquista e quem está ao redor. O dinheiro chega, o reconhecimento chega, os resultados chegam. E a pessoa percebe, em algum momento tardio, que tudo o que toca funciona, exceto o que precisa ser sentido.
I
O Mito
Midas era rei da Frígia, território da Ásia Menor. Ovídio, nas Metamorfoses (Livro XI), conta que Midas encontrou Sileno, o velho sátiro companheiro de Dionísio, perdido e bêbado em seus jardins. Midas o acolheu por dez dias, alimentando-o e ouvindo suas histórias. Depois, devolveu-o a Dionísio em segurança.
Agradecido, Dionísio ofereceu a Midas qualquer desejo. Um único pedido. Sem restrição.
Midas pediu que tudo o que tocasse se transformasse em ouro.
Dionísio concedeu, mas com um aviso sutil que Ovídio registra como lamento antecipado: o deus sabia que o presente era armadilha.
A euforia inicial foi absoluta. Midas tocou um galho de carvalho: ouro. Uma pedra: ouro. Uma maçã: ouro. Sentou-se para comer. O pão endureceu em ouro na mão. O vinho solidificou em ouro nos lábios. A comida virou metal antes de chegar à boca.
Então sua filha correu para abraçá-lo.
Midas a tocou. Ela se transformou em estátua de ouro. Viva um segundo antes. Metal no seguinte. A mesma mão que transformava riqueza transformava destruição.
Midas implorou a Dionísio que revertesse o dom. O deus mandou que se lavasse no rio Pactolo. A água levou o toque dourado. As areias do rio ficaram douradas para sempre. A filha voltou à vida.
Aristóteles (Política, I.9) usa Midas como exemplo da diferença entre riqueza natural (bens úteis) e riqueza artificial (acumulação sem limite). Midas confundiu as duas. Acumulou ouro sem limite e perdeu acesso aos bens mais básicos: comida, água, toque. A crítica aristotélica é econômica, mas o mito é psicológico: quando o meio (dinheiro) se torna fim, os fins reais (nutrição, afeto) desaparecem.
Higino (Fábulas, 191) acrescenta que quando Midas pediu a Dionísio para remover o dom, foi obrigado a se lavar no rio Pactolo. A purificação exigiu imersão. Não um toque. Não um gesto rápido. Imersão completa no oposto do ouro: água corrente, impermanente, que não pode ser possuída. O antídoto para a solidificação era a fluidez. Para quem transformou tudo em sólido, a cura era aceitar o líquido.
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"Que tudo o que eu toque se transforme em ouro." (Midas, em Ovídio, Metamorfoses XI)
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II
O Diagnóstico
O que os gregos estavam registrando é o padrão da pessoa cuja capacidade de produzir resultado destrói sua capacidade de produzir conexão. Não por maldade. Por impossibilidade estrutural: a mesma coisa que gera sucesso gera distância.
Freud reconheceria aqui uma forma de sublimação total. A sublimação é o redirecionamento de energia pulsional para fins socialmente valorizados. Trabalho, arte, conquista. Funciona bem quando a pessoa mantém outros canais abertos. Quando a sublimação absorve tudo, o sujeito se torna uma máquina de resultado que não sabe mais funcionar fora do modo de produção.
Jung descreveria isso como identificação com a persona. O rei Midas não é uma pessoa. É um papel. A persona do vencedor, do acumulador, do que transforma tudo em resultado. Quando o ego se funde com essa persona, a pessoa não sabe mais tirar o papel. Cada gesto se torna performance. Cada toque se torna transação.
Hillman veria no toque de Midas a literalização do valor. Tudo se torna o mesmo. O pão vira ouro. A filha vira ouro. A distinção entre nutrição e riqueza, entre afeto e conquista, desaparece. Quando tudo tem o mesmo valor, nada tem valor diferenciado. O ouro, que deveria ser exceção, vira a única substância do mundo.
O padrão é reconhecível em qualquer ambiente de alta performance. O empreendedor que otimizou tudo e não consegue mais ter uma conversa sem pensar em retorno. O executivo cujos filhos o tratam com a mesma formalidade que os subordinados. A pessoa que transformou cada relação em oportunidade e agora não tem nenhuma relação que não seja negociação.
O diagnóstico é claro: o toque de Midas não é um dom raro. É o padrão de quem transformou a produtividade no único idioma que fala. E nesse idioma, afeto não tem tradução.
Erich Fromm, em 'Ter ou Ser', fez a distinção que define o mito de Midas: o modo de existência pelo ter e o modo de existência pelo ser. Quem opera no modo ter transforma tudo em posse. Relações viram aquisições. Experiências viram conquistas. Conversas viram negociações. O toque de Midas é o modo ter em estado puro: tudo vira ouro, tudo vira coisa, tudo vira ter.
O detalhe do mito que mais perturbava os antigos não era o pão que virava ouro. Era a filha. Porque o pão é coisa. A filha é pessoa. E o toque de Midas não distingue. Quando a mesma lógica que transforma objetos é aplicada a pessoas, o resultado é sempre o mesmo: a pessoa vira objeto. Funcional, valioso, dourado. E morto.
O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, em estudos sobre flow e felicidade, demonstrou que experiências intrínsecas (imersão, conexão, significado) geram mais bem-estar do que experiências extrínsecas (dinheiro, status, posse). Midas otimizou o extrínseco ao máximo. E o máximo do extrínseco é o mínimo do intrínseco. Ouro perfeito. Solidão perfeita.
III
O Espelho
Qual foi a última vez que você tocou algo sem transformá-lo em resultado?
Uma conversa que ficou só conversa. Um momento que ficou só momento. Sem métrica, sem lição, sem extração de valor. Sem transformar a experiência em conteúdo, em aprendizado, em ação.
Midas não perdeu a filha por ganância. Perdeu porque o mecanismo que gerava riqueza não tinha botão de desligar.
A pergunta é: você ainda consegue tocar sem transformar?
O diagnóstico de Midas tem um teste prático. Olhe para as suas relações mais próximas. Existe alguma que não produz nenhum resultado tangível e que você mantém mesmo assim? Se todas as suas relações produzem algo (networking, aprendizado, oportunidade, status), o toque pode estar operando sem você perceber. A relação que não serve para nada é a única que prova que você ainda consegue tocar sem transformar.
Até o próximo diagnóstico.
Até o próximo diagnóstico.
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