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Ela não gritou. Não chorou em público. Não bateu o pé. Sentou, pensou, e em três dias destruiu tudo o que sustentava a nova vida do homem que a traiu. Inclusive os filhos dele. Inclusive os filhos dela. A vingança de Medeia não é furor. É arquitetura.
I
O Mito
Medeia é princesa de Cólquida, filha do rei Eetes, neta do deus Hélios (o Sol). Por linhagem é meio-deusa. Pela formação, é feiticeira: domina ervas, venenos, transformações. Apolônio de Rodes, em As Argonáuticas (livros III e IV), e Eurípides em Medeia (431 a.C.), são as fontes principais. Apolodoro (Biblioteca, I.9.23-28) consolida a tradição.
Quando Jasão chega a Cólquida em busca do Velocino de Ouro, Medeia se apaixona por ele. A paixão é induzida (Hera e Atena pedem a Afrodite que envie Eros para flechar a princesa). Mas Medeia age. Trai o pai. Entrega a Jasão as poções e os encantamentos que tornam possível a missão. Jasão jura fidelidade eterna em troca.
Na fuga de Cólquida, Medeia leva o irmão pequeno, Apsirto. Quando o pai persegue o navio Argo, Medeia esquarteja o irmão e joga os pedaços no mar. Sabe que o pai vai parar para recolher os restos para sepultamento. Cada pedaço é um atraso. O navio escapa. Medeia matou um irmão para salvar o amante. O preço da fuga foi sangue da família dela. E Jasão aceitou.
Em Iolco, Medeia também executa a tarefa suja. Pélias, o usurpador, recusa entregar o trono. Medeia convence as filhas dele a esquartejá-lo num caldeirão "para rejuvenescê-lo". Pélias morre. Iolco repele Jasão e Medeia. Vão para Corinto.
Em Corinto, vivem dez anos. Têm dois filhos. E aí Jasão decide casar com Glauce, filha do rei Creonte, para ascender politicamente. Medeia, segundo Eurípides, recebe a notícia do próprio Jasão, que tenta apresentar a decisão como racional, estratégica, benéfica para os filhos. Medeia ouve em silêncio. Por dentro, calcula.
Eurípides constrói a peça em torno do raciocínio de Medeia. Ela considera matar Jasão. Descarta. Matar Jasão seria libertá-lo do sofrimento. Considera fugir e desaparecer. Descarta. Fuga sem retaliação seria validar o que ele fez. Decide pela vingança máxima: destruir tudo o que dá a Jasão sentido, deixá-lo vivo dentro do próprio inferno.
Envia a Glauce um manto e um diadema, presentes de aparente reconciliação. Glauce os veste. O manto está envenenado. Glauce queima viva. O pai, Creonte, abraça-a para apagar o fogo, e queima junto. A nova esposa e o sogro morrem em poucas horas.
E aí o ato final. Medeia mata os próprios dois filhos. A cena é descrita em segundo plano (Eurípides usa o coro). Os meninos são mortos pela mãe que os pariu. Por quê? Porque eram filhos de Jasão. Eram a ponte que o ligava ao futuro. Sem eles, ele não tem dinastia. Não tem nome. Não tem sucessão. Medeia rasga a árvore genealógica de Jasão.
Foge num carro alado puxado por dragões, presente do avô Hélios. Vai a Atenas, onde o rei Egeu lhe oferece refúgio. Eurípides termina a peça com Jasão clamando aos deuses, sem resposta. Sozinho. Sem futuro. Sem o que destruir, sem o que reconstruir.
II
O Diagnóstico
A leitura mais simples é o monstro. Medeia mata o irmão, mata o sogro, mata a rival, mata os próprios filhos. A história é monstruosa. E é. Mas reduzir Medeia a monstruosa é perder o que Eurípides estava efetivamente narrando.
A tese de Eurípides, articulada com precisão jurídica em monólogos longos, é a seguinte: Medeia foi traída em um pacto sagrado. Os juramentos de Jasão (à Hera, à fidelidade conjugal) eram irretrucáveis. Quando ele os quebra para conveniência política, Medeia não está agindo por ciúme passional, está executando uma sanção. A peça é, em parte, sobre a falência da estrutura social grega, que não tem mecanismo para punir um homem que abandona uma estrangeira.
Medeia é estrangeira em Corinto. É bárbara, vinda de Cólquida. Não tem família no local. Não tem cidadania. Não tem direitos. Quando Jasão a descarta, ela está literalmente sem proteção legal nenhuma. Eurípides usa a peça para mostrar que, num sistema desses, a única opção que resta a uma mulher abandonada com filhos é ou aceitar a humilhação ou se vingar com violência total. Não há terceiro caminho institucional. A peça é uma denúncia da estrutura, embrulhada em horror.
James Hillman, em Re-Imaginando a Psicologia, observa que a fúria mítica feminina (Medeia, Mênades, Erínias) costuma ser leitura masculina simplificada do que aconteceria se as estruturas que protegem o masculino entrassem em colapso. Medeia é o que aparece quando os juramentos não valem mais e a mulher tem que se proteger sozinha. A monstruosidade é resposta à monstruosidade prévia (a quebra do juramento). Eurípides faz Medeia recitar isso explicitamente.
Carl Jung, em Aspectos do Feminino, e Marie-Louise von Franz após ele, descrevem o arquétipo da mulher escura como a face da psique feminina que aparece quando a mulher é sistematicamente reprimida ou traída. Não é loucura. É reação compensatória. A psique tem mecanismos para retomar equilíbrio. Quando o equilíbrio é forçado por anos de submissão, e a submissão é finalmente recompensada com traição aberta, a compensação vem violenta.
A diferença entre Medeia e qualquer mulher contemporânea numa situação análoga é grau de poder real. Medeia tem magia. Tem dragões. Tem capacidade material de executar a vingança. A maioria das pessoas traídas não tem. O que sobra é a vingança simbólica: ressentimento, fofoca, processo, redes sociais, vingança lenta no campo social. A intensidade emocional pode ser idêntica à de Medeia. As ferramentas, não.
Mas há um diagnóstico crítico que vai além da peça. Quando uma pessoa investe tanto em outra que perde a própria identidade no processo, e essa outra pessoa se vai, a perda não é só relacional. É existencial. Medeia traiu o pai, matou o irmão, foi expulsa da terra natal, virou exilada perpétua. Tudo por Jasão. Quando Jasão a abandona, ela não está perdendo um marido. Está perdendo o motivo único pelo qual fez tudo o que fez. A vida inteira dela vira sem sentido retroativo.
É por isso que a vingança precisa ser tão total. Vingança proporcional não basta. Não dá para devolver com tranquilidade quando a pessoa abandonada percebe que abriu mão de tudo por aquela ponte que agora foi cortada. A reação é destruir a ponte inteira, e quem quer que esteja em cima dela. Inclusive os próprios filhos, que são os símbolos vivos da relação que foi negada.
A leitura clínica é dura. Quando alguém faz "tudo" por outra pessoa (abandona família, muda de país, troca de carreira, desconstrói identidade própria), está colocando peso impossível sobre essa relação. Quando a relação termina, o desabamento é proporcional ao investimento. Medeia é o caso extremo. Mas o padrão se repete em escalas menores: pessoas que sacrificaram demais por casamentos, sociedades, carreiras, projetos, e que, quando o investimento não retorna, entram em modo aniquilação.
A profilaxia é não fazer nenhum Jasão se tornar o seu chão inteiro. Manter pertencimentos, identidade, vínculos, projetos próprios. Isso parece truísmo, mas o mito mostra que a retirada total de outras âncoras é exatamente o que cria a Medeia em alguém. Não é maldade. É arquitetura emocional. Quem investe tudo em uma única estrutura colapsa tudo quando a estrutura cai.
Para quem está do outro lado: cuidado com pessoas que abandonam tudo por você. A intensidade impressiona no início. É erótica. É halagadora. Mas é fragilidade disfarçada de devoção. Em algum dia, vai chegar uma decisão sua que essa pessoa interpretará como traição (e que talvez seja). E aí você descobre que a Medeia mora junto, e que o que parecia adoração era, na verdade, apólice de seguro contra uma traição que ela já temia desde o começo.
A pergunta para hoje. Você é Jasão ou Medeia? E em qual relação? Está jurando coisa que não vai cumprir, em troca de favores que está aceitando como naturais? Ou está investindo a vida inteira em alguém, sem manter outras âncoras, e construindo silenciosamente o cenário em que a Medeia interna terá que aparecer?
Eurípides escreveu Medeia em Atenas, em 431 a.C., e perdeu a competição teatral daquele ano. A peça era violenta demais para o gosto contemporâneo. Mas atravessou 2.400 anos. Continua sendo encenada. Porque o padrão não morreu. Porque toda geração tem os seus Jasões. E toda geração descobre, geralmente tarde, que abandonar uma Medeia não é coisa que se faça impunemente.
Até o próximo diagnóstico.
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