Mitologia do Dia #041 · Jasão
Mitologia do Dia

EDIÇÃO Nº 041

O MITO DE HOJE

Jasão

O herói que se acomoda depois da glória

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Jasão — ilustração mitológica

A INSCRIÇÃO

Jasão trouxe o Velocino de Ouro. E nunca mais soube o que fazer com a vida que recebeu como prêmio.

Ele teve a maior expedição da Grécia. Dezenas de heróis o seguiram. Cruzou mares impossíveis, dragões, reis hostis. Voltou com o Velocino de Ouro nas mãos. E aí veio a parte que ninguém treinou ele para enfrentar: o tempo depois. Os anos sem missão. A vida sem dragão.

I

O Mito

Jasão é filho de Esão, rei legítimo de Iolco, deposto pelo meio-irmão Pélias. Para evitar que Pélias matasse a criança, Jasão é entregue ao centauro Quíron, que o cria nas montanhas. Apolodoro (Biblioteca, I.9.16) e Apolônio de Rodes (As Argonáuticas) detalham a história.

Aos vinte anos, Jasão volta a Iolco para reclamar o trono. Pelo caminho, atravessa um rio carregando uma anciã (que é Hera disfarçada, testando a hospitalidade do herói). Perde uma sandália na travessia. Pélias havia recebido oráculo de que seria deposto por um homem com uma sandália só. Quando Jasão chega, Pélias o reconhece pelo sinal e lhe propõe uma missão impossível: trazer o Velocino de Ouro do reino de Cólquida, no extremo leste do mundo conhecido. Pélias espera que Jasão morra na empreitada.

Jasão reúne os Argonautas, a primeira grande expedição da mitologia grega. Heracles, Teseu, Castor, Pólux, Orfeu, Atalanta (em algumas versões), Pélias filho de Posêidon, e dezenas de outros heróis se juntam. Constroem o navio Argo. Partem. Atravessam ilhas hostis, mulheres de Lemnos, Harpias, Symplégades (rochas que se chocam). Apolônio de Rodes dedica quatro livros à viagem.

Em Cólquida, o rei Eetes recebe Jasão com a mesma intenção de Pélias: matá-lo via tarefas impossíveis. Jasão precisa lavrar um campo com touros que cuspem fogo, semear dentes de dragão (de que brotam guerreiros armados), e enfrentar o dragão que guarda o Velocino. Sozinho, ele não consegue. É salvo por Medeia, filha do rei, princesa-feiticeira, que se apaixona por ele (graças a uma intervenção de Afrodite e Eros).

Medeia entrega a Jasão poções, instruções e magia. Ele cumpre as tarefas. Rouba o Velocino. Foge com Medeia, que abandona o pai e até mata o próprio irmão para retardar a perseguição (esquarteja-o e joga os pedaços no mar para que o pai pare a fim de recolher os restos). A volta é movida pela inteligência e pela violência de Medeia, não pela coragem de Jasão.

Voltam a Iolco. Pélias se recusa a entregar o trono. Medeia executa o velho rei: convence as filhas dele a esquartejá-lo num caldeirão "para rejuvenescê-lo". Pélias morre. Jasão e Medeia são expulsos de Iolco pela população horrorizada. Vão para Corinto.

Em Corinto, vivem dez anos. Jasão e Medeia têm dois filhos. E aqui o mito vira dramático. Eurípides, em Medeia (431 a.C.), narra a queda. Jasão decide abandonar Medeia para casar com Glauce, filha do rei Creonte de Corinto. A justificativa que Jasão dá é fria: o casamento real lhe traria estabilidade, segurança, um trono para os filhos. Medeia argumenta que abandonou tudo (pai, pátria, irmão) por ele. Jasão responde que Medeia foi salva pelo amor (Afrodite), não pela própria vontade, e que o herói não deve nada a ela. Que o herói retribuiu com fama.

Medeia se vinga. Envia a Glauce um manto envenenado que mata a princesa e seu pai. Mata os próprios dois filhos para destruir Jasão por dentro. Foge num carro puxado por dragões. Jasão, sozinho em Corinto, sem esposa, sem filhos, sem trono, sem missão, perambula. Os anos passam. Anos depois, conta a tradição, Jasão dorme à sombra do navio Argo abandonado. Uma viga apodrecida do navio se desprende e cai sobre ele. Mata-o. O herói da maior expedição grega morre esmagado pelas ruínas do próprio navio.

II

O Diagnóstico

Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces, descreve a estrutura completa da jornada do herói: chamado, travessia, provas, encontro com o feminino divino, reconciliação com o pai, apoteose, retorno com o elixir, reintegração. Jasão completa as primeiras fases brilhantemente. A reintegração é onde falha.

Trazer o Velocino de Ouro deveria ser meio, não fim. O herói volta para entregar à comunidade o conhecimento, o objeto, ou a transformação que adquiriu. Jasão volta, mas não entrega nada. Pélias se nega a transferir o trono. Medeia mata Pélias. Jasão e Medeia são expulsos. Em vez de se tornarem rei e rainha, viram exilados. A reintegração falha completamente.

A partir daí, Jasão entra em estagnação. Os dez anos em Corinto são anos sem missão. Sem inimigo. Sem tarefa heroica. E é aí que o personagem revela sua fragilidade interna. Sem missão, ele não sabe quem é. A identidade dele estava colada ao papel de herói. Quando o papel acaba, sobra um homem que não sabe ser marido (despreza Medeia, que sacrificou tudo por ele), não sabe ser pai (suas decisões mostram que os filhos são peões na sua estratégia social), não sabe ser cidadão (não constrói nada em Corinto além da própria conveniência).

Carl Jung, em Os Estágios da Vida, observa que muitos homens fazem brilhantemente a primeira metade da vida (formação, conquista, projeção) e fracassam na segunda metade (integração, sentido, transmissão). A primeira metade é Jasão indo buscar o Velocino. A segunda metade é Jasão tendo que decidir quem ele é depois de tê-lo trazido. Jasão fracassa na segunda metade porque nunca desenvolveu identidade própria. Sempre foi reativo: à profecia da sandália, ao pedido de Pélias, à missão de Cólquida, ao amor de Medeia. Quando o estímulo externo cessa, ele entra em pane.

Marie-Louise von Franz, junguiana, descreve isso como o sintoma do puer aeternus: o eterno menino. O Jasão da segunda metade da vida é o homem de meia-idade que troca a esposa por uma versão mais nova, com a justificativa pragmática de "estabilidade", "futuro dos filhos", "novo capítulo". Mas a verdadeira motivação não é racional. É terror do envelhecimento, terror da perda de juventude, terror de ter que parar e olhar para dentro. Trocar de esposa é simulacro de nova missão. Faz com que ele se sinta herói de novo. Por pouco tempo.

A leitura ética de Eurípides é implacável. Medeia, em sua fúria, é monstruosa. Mas não está errada na análise inicial. Jasão prometeu fidelidade, recebeu sacrifício total da parte dela, e a descartou pela conveniência política. O herói virou homem comum, oportunista, sem coragem nem para nomear o que estava fazendo. A defesa que Jasão articula (era pelo bem de todos, era pela estabilidade, ela não entendeu) é o tipo de discurso que homens contemporâneos ainda usam ao terminar casamentos longos por trocas convenientes. Eurípides já tinha mapeado essa retórica há 2.400 anos.

O diagnóstico contemporâneo é triplo. Primeiro: cuidado com identidades coladas a missões temporárias. O atleta que foi campeão e não sabe quem é depois da aposentadoria. O empresário que vendeu a empresa e adoece em seis meses. O alpinista que escalou tudo e fica vazio. O CEO recém-aposentado que liga compulsivamente para os ex-colegas. Quem é Jasão sem o Velocino?

Segundo: cuidado com casamentos baseados na utilidade da etapa. Medeia foi essencial para vencer Cólquida. Jasão a descartou quando a etapa Cólquida acabou. Esse padrão se repete: o sócio que era essencial no início, descartado depois; o terapeuta que ajudou em uma fase, esquecido na seguinte; a parceira que sustentou o início da carreira, trocada quando o status permitiu. Jasão é o nome desse descarte. E o preço é a viga do navio caindo na cabeça vinte anos depois.

Terceiro: a estagnação posterior à glória é específica. Não é depressão genérica. É o vazio do herói sem nova missão. A solução não é arranjar uma missão qualquer (isso vira Belerofonte tentando voar até o Olimpo). A solução é fazer luto pelo encerramento da missão antiga e construir, com paciência, uma vida de presença em vez de uma vida de feito. Vida adulta de verdade. Vida em que valor não vem do que se conquista, mas do que se sustenta no cotidiano.

A pergunta para hoje. Que Velocino você já trouxe? Que missão você já completou? E o que você fez com a vida depois? Está descansando à sombra do Argo apodrecido, esperando que algo aconteça? Está procurando nova missão para sentir que ainda é herói? Ou está, finalmente, aprendendo a ser uma pessoa em vez de um papel?

Jasão morreu sob a viga do próprio navio. O navio era símbolo da glória passada. Apodreceu. Caiu. Matou-o. Deixar a glória passada apodrecer em cima de você é uma forma específica de morte. Lenta. Sem dignidade. Sem sentido. O homem que não soube fazer luto da própria vitória paga assim.

Até o próximo diagnóstico.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: O verdadeiro perigo da jornada de Jasão estava nos dragões e mares?

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