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Ela soube antes de ser informada. É sempre assim com quem ama profundamente: a ausência chega antes da notícia. Ísis saiu procurando sem ter endereço. Percorreu o Egito, a Fenícia, o que havia de mundo conhecido. Não para recuperar o que era. Mas porque a alternativa, aceitar a perda como completa e não fazer nada, não era opção que sua psique reconhecia como real.
I
O Mito
Ísis (Aset ou Iset em egípcio antigo, "trono") é filha de Geb e Nut, irmã e esposa de Osíris, mãe de Hórus.
É das divindades mais cultuadas do mundo antigo: seu culto nasceu no Egito por volta do Período Dinástico Antigo e se espalhou pelo mundo mediterrâneo, chegando à Roma Imperial e persistindo até o séc. VI d.C. Apuleio, em O Asno de Ouro (séc.
II d.C.), inclui um hino a Ísis entre os textos religiosos mais belos da Antiguidade.
A iconografia egípcia representa Ísis com um hieróglifo de trono sobre a cabeça (seu nome como símbolo), asas de falcão estendidas (posição protetora), e às vezes com disco solar encimado por chifres de vaca (elemento compartilhado com Hathor).
Como deusa da magia (heka), da cura e da proteção, era invocada em práticas médicas e em fórmulas de encantamento nos Papiros Mágicos de Leiden e nos Textos Mágicos do Cairo.
O mito central é o do luto e da busca, narrado por Plutarco (Sobre Ísis e Osíris, 357C-360E) e prefigurado nos Textos das Pirâmides e nos Textos dos Sarcófagos.
Após o assassinato e desmembramento de Osíris por Set (ed. 052), Ísis percorre o Egito e além recolhendo os quatorze fragmentos do marido.
Em cada local onde encontra uma parte, erige um templo ou santuário, razão pela qual Plutarco relata que havia múltiplos "túmulos de Osíris" no Egito: cada local era genuíno, porque abrigava um fragmento real.
Ao reunir os pedaços, Ísis e Néftis os cobrem com bandagens de linho, o primeiro ato de mumificação na tradição egípcia. Anúbis (abordado na ed. 054) assiste o processo. A reconstituição é obra de magia e amor combinados.
Então, transformada em bȝ (alma-pássaro) ou em pássara de falcão, Ísis se deita sobre o corpo de Osíris, bate as asas e, pelo poder do feitiço de heka, o anima o tempo suficiente para conceber Hórus.
No Texto das Pirâmides (Encantamento 466), Ísis diz: "Venho a ti (...) traz meu coração para mim, traz minha alma para mim.
(...) Para que o deus faça o deus, para que o poder faça o poder." A relação entre Ísis e Osíris é descrita nos textos egípcios não como dependência passiva, mas como complementaridade ativa: ele sem ela não existe; ela sem ele não geraria Hórus.
Após a concepção, Ísis parte para os pântanos do Delta do Nilo para dar à luz e criar Hórus em segredo, protegendo-o de Set.
Os Textos Mágicos de Metternich (Período Tardio) preservam os encantamentos de cura que Ísis usava quando Hórus se feria nos pântanos, e que eram então invocados por curandeiros egípcios ao tratar crianças doentes: a criança enferma era identificada com Hórus, e a mãe que curava, com Ísis.
II
O Diagnóstico
Se Osíris é o arquétipo do que é despedaçado e reconstituído, Ísis é o arquétipo do luto ativo, do que não aceita a perda como definitiva e vai trabalhar para reconstituir o que se fragmentou. A diferença entre luto ativo e negação não é pequena; é a diferença entre o que move e o que imobiliza.
Marion Woodman, em Leaving My Father's House e em Dancing in the Flames (coescrito com Elinor Dickson), descreve o arquétipo de Ísis como "o feminino que não desiste da vida quando a vida parece morta". Não é otimismo. É algo mais visceral: a recusa do nada como resposta suficiente.
Ísis chora Osíris, os Textos das Pirâmides descrevem o lamento de Ísis e Néftis como os "Lamentos de Ísis", textos de profunda beleza poética, cantos funerários que atravessaram milênios. Ela chora completamente. E depois vai buscar.
O padrão psicológico que Ísis representa é o que os terapeutas contemporâneos chamam de "luto com agência", a capacidade de sentir a perda em sua totalidade sem paralisar.
Verena Kast, em The Nature of Loving e especialmente em A Time to Mourn, analisa o luto não como fase a ser superada mas como trabalho ativo de relação com o que se perdeu. O luto de Ísis não é encerrado quando ela encontra todos os fragmentos.
Continua no ritual, na mumificação, no cuidado do corpo reconstituído. A perda é integrada pela ação, não pela resignação.
A dimensão mágica de Ísis é diagnóstica em si mesma. Ela não reconstitui Osíris apenas com amor e cuidado, usa heka, a magia egípcia. Heka (personificado também como divindade) é a força criativa primordial, anterior aos deuses, que possibilita a criação e a transformação.
Em termos psicológicos, heka é a função imaginativa: a capacidade de conceber o que ainda não existe, de tratar o ausente como se presente, de dar forma ao informe.
A mágica de Ísis é a imaginação ativa, aquilo que Jung chamava de active imagination, a capacidade da psique de criar novas formas a partir de sua própria substância.
O falo de ouro que Ísis fabrica para substituir o que foi perdido permanentemente é símbolo de uma criatividade compensatória. Quando certa forma de geração se encerra, quando uma capacidade específica não retorna após a crise, a psique saudável não entra em luto permanente dessa perda. Cria substituto funcional.
Não idêntico. Não melhor. Mas suficiente para gerar o que precisa ser gerado. Hórus nasce. A história continua.
O cuidado de Ísis pelos humanos é igualmente revelador. Os Textos Mágicos de Metternich mostram que a tradição de Ísis como curadora de crianças doentes deriva diretamente de sua função como protetora de Hórus nos pântanos.
O mito privado, o que aconteceu com seu filho, torna-se o mapa de cura para os filhos dos outros.
Aqui está um padrão profundamente humano: a perda que se trabalhou ativamente, o luto que não foi negado, o fragmento que foi buscado e integrado, tudo isso cria capacidade de cuidar do semelhante. Não apesar da dor, mas por causa dela.
James Hillman, em Re-Visioning Psychology, descreve a anima como "a alma do mundo que exige que nos ligemos ao que sofre". Ísis é, numa leitura, a anima coletiva egípcia, a força que mantém o cosmos costurado mesmo quando os fragmentos são dispersos. Ela voa sobre o corpo.
Ela bate as asas. Ela não abandona. E é justamente esse impulso, que parece irracional, que parece um excesso diante da evidência da perda irreversível, que mantém mundos vivos.
A pergunta para hoje: o que na sua vida você perdeu e não foi buscar porque parecia impossível reconstituir? Que fragmento ainda está disperso, de uma relação, de uma versão sua, de um projeto, de um sonho, que poderia ser recolhido se você fizesse a viagem de Ísis? E: o que você teria que largar para fazer essa viagem?
A inscrição: Ísis não esperou que o amado voltasse. Foi buscar cada pedaço. Isso é o que o luto ativo parece: não resignação, mas viagem. Não passividade diante do que está disperso, mas percurso metódico de recolha.
O amor que não faz essa viagem talvez não seja ainda tão profundo quanto imagina. E o que se reúne pela viagem nunca é idêntico ao que havia, mas é real, e é seu.
Até o próximo diagnóstico.
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