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Ela decidiu descer. Não foi empurrada, não foi capturada, não foi condenada. A rainha do céu e da terra, senhora da fertilidade e da guerra, detentora dos me divinos, ela mesma escolheu atravessar os portões do reino de sua irmã. Ninguém sabia por quê. Talvez ela também não soubesse completamente.
Mas foi. E em cada portão, deixou algo para trás. Chegou lá embaixo sem nada, cravada num gancho na parede como pedaço de carne.
I
O Mito
Inanna (Inanna em sumério, Ishtar em acadiano) é a deusa mais importante do panteão sumério-acadiano: senhora de Eridu e Uruk, deusa do amor erótico, da fertilidade, da guerra e da justiça celeste. Está associada ao planeta Vênus (sua estrela de oito pontas é símbolo recorrente na iconografia mesopotâmica).
As fontes primárias são o poema sumério "Inanna na Terra Inferior" (Inanna kur-nu-gi-a, circa 1750 a.C., preservado em múltiplas versões em argila) e sua versão acadian "Ishtar na Terra Inferior".
O texto completo foi reconstruído a partir de fragmentos encontrados em Nippur, Ur e outras cidades sumérias, traduzido e analisado extensamente por Samuel Noah Kramer (Sumerian Mythology, 1944) e Diane Wolkstein (Inanna: Queen of Heaven and Earth, 1983).
O mito começa com Inanna abandonando todos os seus domínios no céu e na terra e descendo para o Kur, o Grande Embaixo, o reino governado por sua irmã Ereshkigal ("Grande Senhora do Submundo"), deusa dos mortos.
Inanna carrega consigo os sete me (atributos sagrados de poder) e veste sete adornos reais: a coroa shugurra na cabeça, lazúli nos ombros, contas de lazúli no pescoço, anéis de ouro nas mãos, um peitoral de pedras preciosas no peito, um manto real no corpo e sandálias nos pés.
Ela instrui sua serva Ninshubur a agir se não retornar em três dias: percorrer os templos dos grandes deuses, lamentar publicamente, pedir socorro. A previdência sugere que Inanna sabe, ou suspeita, do perigo.
Nos sete portões do submundo, o guardião Neti obedece a ordens de Ereshkigal: em cada portão, remove um adorno ou atributo de Inanna. Primeiro portão: a coroa. Segundo: os brincos. Terceiro: as contas do pescoço. Quarto: o peitoral. Quinto: os braceletes. Sexto: a correia do peitoral.
Sétimo portão: o manto real. Inanna chega diante de Ereshkigal nua, sem atributo divino, completamente despojada. Ereshkigal a mata. Seu cadáver é pendurado num gancho.
Após três dias, Ninshubur cumpre as instruções. Os deuses maiores, Enlil e Nanna, recusam-se a intervir. Enki, deus da sabedoria e dos abismos, aceita.
Cria duas criaturas minúsculas, kurgarra e galaturra, de sujeira sob suas unhas, e as envia ao submundo com o "alimento da vida" e a "água da vida".
As criaturas lamentam junto a Ereshkigal (que está em dores ela mesma, de parto, de luto, a narrativa oscila); comovida, Ereshkigal concede o que pedem. Inanna é revivida com o alimento e a água da vida.
Mas a lei do submundo é inegociável: ninguém deixa o Kur sem deixar um substituto. Inanna sobe acompanhada por demônios galla que exigem o substituto. Ela percorre seus domínios, encontra Ninshubur em luto, Shara em luto, Lulal em luto.
Não os entrega aos demônios: estavam de luto por ela, continuaram fiéis. Mas então encontra seu consorte Dumuzi sentado no trono real, vestido com suas melhores roupas, não de luto. Inanna aponta: "Levem esse." Dumuzi é levado ao submundo.
Sua irmã Geshtinanna tão profundamente lamenta que os deuses concordam em dividir o tempo: Dumuzi no submundo metade do ano, Geshtinanna a outra metade. Daí as estações.
II
O Diagnóstico
A descida de Inanna é o mito mais preciso da iniciação por despojamento, o processo pelo qual a transformação real exige perda da identidade construída, não apenas adição de novas capacidades.
Em termos junguianos: a pessoa que desce ao inconsciente carregando toda a sua persona social, seus títulos, seus atributos de poder, descobre que nada disso atravessa o último portão. A transformação só ocorre quando o ego chega nu diante do que estava evitando.
Jung, em Psicologia e Alquimia, descreve o nigredo, a fase de escurecimento alquímico, como análogo ao que Inanna experimenta no submundo: a fase de desintegração que precede a reintegração. Não é destruição vazia.
É dissolução necessária das estruturas que o ego construiu para funcionar no mundo superior, mas que impedem o acesso ao que está mais fundo. Os sete portões como estrutura iniciática são precisos: não há um momento de perda total, mas uma série de perdas graduais.
Cada portão tira uma camada de identidade construída. A pessoa vai ficando mais ela mesma à medida que vai ficando menos o que construiu.
Diane Wolkstein e Samuel Noah Kramer, em Inanna: Queen of Heaven and Earth, analisam a descida como narrativa do ciclo de vida: morte e renascimento das colheitas, das estações, da psique. Mas a leitura psicológica é mais íntima. Inanna não vai ao submundo "porque é necessário para o cosmos".
Vai por algo que o texto não nomeia completamente, uma atração, uma necessidade de encontrar Ereshkigal, de conhecer o que está lá embaixo. Ela mesma não sabe completamente por quê. E essa é a estrutura honesta do processo: as descidas reais não são planejadas em benefício do cosmos.
Começam com um impulso interior que precede a racionalização.
Ereshkigal como sombra de Inanna é o elemento mais poderoso do mito. As duas são irmãs, faces do mesmo ser. Inanna é a luz, o desejo, a fertilidade, a guerra que conquista. Ereshkigal é o submundo, o luto, a dor dos mortos, o parto em agonia.
Jung chamaria esse par de Eu e Sombra, ou de persona e anima-sombra. O encontro entre os dois aspectos não é resolução, Inanna é morta pelo encontro. Mas depois de morrer e reviver, o cosmos muda: Dumuzi e Geshtinanna entram no ciclo de alternância.
O encontro com a sombra não elimina a sombra. Cria novo equilíbrio.
As criaturas de Enki, kurgarra e galaturra, são o elemento inesperado e mais sutil. Não são guerreiros, não são deuses, não são poderes. São seres sem gênero, feitos de sujeira de debaixo das unhas, que têm uma habilidade única: empatia espelhada.
Eles se sentam com Ereshkigal e espelham sua dor, "Ai, meu coração interior" / "Ai, meu coração exterior", sem tentar resolver, sem tentar mudar, sem julgamento. E é isso que libera Inanna.
A presença empática a um ser em dor profunda é o que move o cosmos quando nada mais funciona.
Marion Woodman, em Consciência Feminina, descreve a descida como iniciação específica ao feminino profundo, não no sentido de gênero, mas do modo de conhecer que inclui o corpo, o luto, o eros, o que está abaixo do racional.
A cultura que valoriza apenas o que é Inanna no topo, competente, brilhante, poderosa, visível, e teme o que é Ereshkigal no fundo, sofrendo, obscura, em contato com morte, produz pessoas que nunca descem. Que evitam o Kur. E que portanto nunca encontram o que só existe lá embaixo.
A pergunta para hoje: de qual descida você tem fugido? Que portão você parou porque o adorno que ia tirar era valioso demais para perder? E que Ereshkigal, que aspecto seu que está nos recessos escuros, em dor ou em raiva ou simplesmente esperando ser encontrado, você ainda não encontrou porque chegou com coroa e manto e os portões não deixaram você passar?
A inscrição: Inanna entrou no submundo como rainha. Saiu como alguém que sabe o que é morrer e querer viver mesmo assim. Nenhum dos sete portões devolveu o que tirou. Ela não precisou. Quem desce despido e volta vivo não precisa dos adornos que deixou para trás. Tornou-se maior do que eles.
Até o próximo diagnóstico.
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