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Os gregos fizeram do sono e da morte dois irmãos gêmeos, e essa escolha me parece menos poesia que precisão. Toda noite a gente se entrega a um deles sem saber qual veio. O mito de hoje mora nessa fronteira.
Toda noite você morre um pouco. A consciência se dissolve, o controle para, o corpo fica por conta própria. E toda manhã há o pequeno milagre: você volta.
Mas os gregos sabiam que esse retorno não é garantido, e que a fronteira entre o sono e o fim é mais fina do que o ego diurno gosta de reconhecer.
Por isso fizeram de Hipnos e Tânatos não opostos, mas gêmeos, irmãos que chegam juntos, do mesmo ventre, pela mesma noite.
I
O Mito
Hipnos (Sono) e Tânatos (Morte) são irmãos gêmeos, filhos de Nix (a Noite) e Érebo (a Escuridão Primordial).
Hesíodo os estabelece na Teogonia (211–212, 756–766): "E a Noite pariu a terrível Moros e a negra Ker e a Morte, e pariu o Sono e pariu o clã dos Sonhos." Habitam a região do Érebo, no limite do Ocidente, onde o sol se põe, território liminar entre o mundo dos vivos e o dos mortos.
Nunca estão ao mesmo tempo no mesmo lugar: enquanto um percorre a terra, o outro repousa.
Hesíodo distingue os dois em caráter (Teogonia, 758–766): Tânatos tem coração de ferro, mente de bronze, e não cede uma vez que toma alguém; Hipnos, ao contrário, é gentil com os mortais, dócil. Um é suave; o outro, implacável. Mas são da mesma mãe, do mesmo ventre. E isso é a chave do mito.
A iconografia clássica os representa como dois jovens alados, Hipnos frequentemente com asas brancas ou transparentes, adormecido, segurando um ramo de papoula (ou um chifre de sonho); Tânatos com asas negras ou escuras, de expressão serena, portando a tocha invertida (símbolo da vida extinta).
Em vasos gregos do período clássico, especialmente nas cenas da morte de Sarpédon, aliado de Tróia, eles aparecem juntos carregando o corpo do guerreiro morto. A cena é tocante: dois jovens, gêmeos, transportando o corpo com cuidado quase terno.
A cena de Sarpédon é narrada por Homero na Ilíada (XVI.671–683): Zeus, atormentado pela morte iminente do filho mortal Sarpédon pelas mãos de Pátroclo, considera intervir para salvá-lo. Hera o dissuade, outros pais de filhos mortais não receberão a mesma exceção; a ordem do mundo está em jogo.
Zeus, em lágrimas (as gotas de sangue que ele chora antes da morte do filho), permite que aconteça. Depois, manda Apolo limpar o corpo, e pede a Hipnos e Tânatos que transportem o corpo de Sarpédon para a Lícia para ser enterrado.
Eles chegam, pegam o corpo com os quatro braços, e levam. Não há palavras. É serviço.
Hipnos aparece também no episódio em que Hera o seduz para adormecer Zeus durante a guerra de Troia (Ilíada, XIV.230–360). Hera promete a Hipnos a ninfa Pásitea como esposa, presente pelo qual ele havia suspirado há muito tempo. Hipnos aceita, adormece Zeus, e Hera pode interferir na batalha sem que Zeus perceba. O sono do rei dos deuses é, literalmente, comprado.
No culto popular, Hipnos tinha santuários e templos, especialmente em Trezena, onde havia uma estátua de bronze. Invocado por mães para adormecer crianças, por doentes buscando alívio, por soldados antes de batalha. A papoula, planta de seu atributo, conecta o sono ao esquecimento: as papoulas cresciam ao redor do palácio de Hipnos no submundo, e o rio Lete (o esquecimento) passava por sua morada.
Tânatos raramente recebe culto, os gregos não queriam invocá-lo. Era figura de inevitabilidade, não de intercessão. Sísifos o enganou duas vezes (acorrentando-o em uma das versões), e toda vez que Tânatos estava preso, ninguém podia morrer, o que gerava caos na ordem natural. Ares ou Hades intervinha para libertá-lo. A morte não pode ser presa permanentemente: a narrativa o repete com insistência.
II
O Diagnóstico
O gêmeo par Hipnos-Tânatos é, na leitura junguiana, uma das construções míticas mais precisas sobre a fronteira entre a consciência e a dissolução, e sobre o que a psique humana faz, toda noite, ao cruzar essa fronteira voluntariamente.
Dormir é, para o ego, o exercício diário de morte simbólica. O controle se dissolve. A narrativa diurna para. O "eu" que funciona durante o dia, que toma decisões, defende posições, constrói identidade, se retira. O que sobrevive ao sono?
Algo sobrevive, chamamos de sonho, chamamos de inconsciente ativo, chamamos de alma em descanso. Mas é diferente do eu diurno.
Os gregos, ao fazer o sono irmão da morte, nomearam algo que a neurociência moderna confirma parcialmente: durante o sono profundo (NREM), há supressão de consciência tão intensa que não é possível distinguir, por critérios externos, de certas formas de coma leve.
Carl Jung, em Psicologia e Religião, descreve o sono como o período de maior abertura ao inconsciente coletivo, o que ele chama de "pequena morte diária" do ego.
A capacidade de dormir bem, de deixar a consciência se dissolver sem resistência, não é trivial: para muitas pessoas, especialmente aquelas com alto controle diurno, adormecer exige uma rendição que o ego resiste.
A insônia, nessa leitura, é o ego que não consegue morrer pequeno, que mantém a guarda até o limite da exaustão.
A ternura com que Hipnos e Tânatos carregam o corpo de Sarpédon em Homero é uma das imagens mais humanas de toda a Ilíada. Dois jovens, silenciosos, transportando com cuidado o que não pode mais andar. Não há julgamento. Não há pressa. O serviço é prestado como ritual.
James Hillman, em O Sonho e o Submundo, argumenta que a capacidade de se relacionar com a morte como presença, não como catástrofe, mas como companhia constante e silenciosa, é uma das marcas do que ele chama de "alma amadurecida".
Sarpédon é transportado com o mesmo cuidado que os vivos receberiam de bons amigos. A morte não é abandono.
A figura de Tânatos como jovem belo, não como esqueleto ou figura aterrorizante, é especificamente grega e especificamente terapêutica. Ars moriendi, a arte de morrer bem, começa com a capacidade de não ter horror à imagem da morte.
Quando Tânatos é monstro, o trabalho com a mortalidade é todo feito sob terror. Quando é jovem sereno com asas escuras, é possível uma relação diferente. Os gregos não amavam a morte, mas tampouco a demonizavam. Era irmão do sono. Chegava sempre.
E era mais gentil do que a imaginação terrorizada costuma supor.
A assimetria dos gêmeos é reveladora. Hipnos é dócil, aceita propina, pode ser enganado. Tânatos é inflexível, implacável, não negocia. Sísifos pode acorrentá-lo, mas só até Ares o libertar. O sono é maleável, pode ser manipulado, adiado, induzido. A morte não tem essa abertura.
Essa assimetria revela algo sobre a relação humana com as duas formas de dissolução: com o sono, negociamos constantemente (café, luz azul, ansiedade, ritmos). Com a morte, a única relação possível é de aceitação.
Erich Fromm, em A Arte de Amar, observa que a consciência da mortalidade é o que torna o amor humano distinto, somos a única espécie que sabe que vai perder todos a quem ama.
Hipnos e Tânatos, como par, codificam essa consciência: toda vez que alguém que amamos dorme, há o momento em que não sabemos ainda se Hipnos ou Tânatos veio, e isso nos faz, em algum nível, amar diferente.
A papoula de Hipnos, planta do esquecimento e do sono, conecta-se ao Lete, o rio do submundo que apaga memórias. Dormir inclui esquecer: os sonhos se dissolvem ao acordar; estados de consciência anteriores não chegam inteiros ao dia. Há limpeza no sono que não é apenas neurológica, é arquetípica.
A psique que não consegue esquecer, que não pode dormir porque os pensamentos não param, está sendo privada do irmão gentil, presa com o que deveria ser temporário.
A pergunta para hoje: como você se relaciona com a pequena morte de cada noite, com a rendição necessária ao sono, com a dissolução voluntária da consciência? Onde há resistência?
E, mais amplo: sua relação com Tânatos, com a mortalidade, com o fim das coisas, está mais próxima do monstro ou do jovem sereno que carrega corpos com cuidado?
O que mudaria na vida diurna se você soubesse, de verdade, que Tânatos chega com a mesma suavidade que o irmão, apenas sem devolver?
A inscrição: Hipnos e Tânatos chegam juntos toda noite. Um devolve. O outro não. A diferença entre eles é tão pequena que os gregos os fizeram irmãos, e tão grande que só descobrimos qual dos dois veio quando amanhecemos.
Até o próximo diagnóstico.
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