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A INSCRIÇÃO Hermes não pertence a lugar nenhum. Por isso transita por todos. |
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Existe um tipo de pessoa que está em todos os lugares e em nenhum. Que conecta mundos que não se comunicam. Que transita entre grupos, linguagens, códigos, e que em nenhum deles tem morada fixa. Não é superficialidade. É uma natureza diferente: a do intermediário permanente. I O MitoHermes nasceu de Zeus e Maia, uma ninfa que vivia numa caverna. O Hino Homérico a Hermes conta que ele nasceu ao amanhecer e antes do anoitecer já havia inventado a lira (a partir de uma tartaruga), roubado cinquenta vacas do rebanho de Apolo, e mentido na cara de Zeus quando confrontado. Zeus não o puniu. Riu. Porque Hermes era exatamente o que o Olimpo precisava: alguém que operasse entre as fronteiras. Não as respeitasse. Atravessasse. Hermes se tornou o mensageiro dos deuses. Carregava ordens de Zeus aos mortais e aos outros deuses. Conduzia as almas dos mortos ao Hades (como Psicopompo). Era o deus dos viajantes, dos comerciantes, dos ladrões, dos oradores, dos tradutores. Tudo o que opera na fronteira entre dois mundos era domínio de Hermes. Homero (Ilíada e Odisseia) o apresenta em funções variadas. É Hermes que guia Príamo até a tenda de Aquiles para pedir o corpo de Heitor. É Hermes que entrega a erva moly a Ulisses para resistir a Circe. É Hermes que mata Argos, o gigante de cem olhos que vigiava Io. Hermes nunca está onde deveria estar. Nunca é encontrado num templo fixo. Seu símbolo é o herma, uma pedra na beira da estrada, marcando o cruzamento. Não o destino. A passagem. O Hino Homérico a Hermes, um dos mais longos e humorísticos dos hinos gregos, retrata o deus como um recém-nascido que é simultaneamente encantador e perigoso. Ele inventa a lira de uma tartaruga morta, mente com a inocência de um bebê, e negocia com Apolo como um comerciante experiente. Hermes é o deus que prova que as fronteiras são convenções, não realidades. Hermes também era o deus dos sonhos. As fronteiras que ele cruzava incluíam a fronteira entre vigília e sono, entre consciente e inconsciente. Jung veria em Hermes a função transcendente: a capacidade da psique de criar uma ponte entre opostos aparentemente irreconciliáveis. Não escolhendo um lado. Transitando.
II O DiagnósticoO que os gregos estavam registrando é o arquétipo do trickster: o agente psíquico que opera nas fronteiras, nas ambiguidades, nos espaços que a ordem convencional não sabe classificar. Jung dedicou atenção especial ao trickster em "Sobre a Psicologia do Trickster". O trickster não é herói nem vilão. É a energia que impede o sistema de se calcificar. Quando a ordem se torna rígida demais, o trickster aparece para introduzir caos controlado. Quando o caos domina, o trickster pode restaurar uma forma. Ele é o equilíbrio em movimento permanente. Hillman reconheceria em Hermes o princípio hermenêutico: a capacidade de traduzir entre linguagens que não se entendem. A palavra "hermenêutica" vem de Hermes. Interpretar é a função essencial do mensageiro. Não transmitir. Traduzir. E traduzir é estar entre dois mundos sem pertencer a nenhum. Freud veria em Hermes o princípio do prazer em sua forma mais adaptativa: a capacidade de encontrar caminhos alternativos quando o caminho direto está bloqueado. A astúcia de Hermes não é moral ou imoral. É funcional. Ele encontra passagem onde não parece haver passagem. O padrão aparece em pessoas que habitam entre mundos. O filho de classes sociais diferentes. O imigrante que fala duas línguas e não pertence inteiramente a nenhuma cultura. O profissional que transita entre áreas e que nenhuma área reivindica completamente. O mediador nato que conecta pessoas e que, quando a conexão é feita, fica sozinho no cruzamento. O diagnóstico tem duas faces. O dom de Hermes é a mobilidade: ninguém vê mais, conecta mais, traduz mais. O custo de Hermes é a ausência de pertencimento: quem está em todo lugar não está em nenhum. O sociólogo Georg Simmel, em 'O Estrangeiro', descreveu a figura de quem está presente no grupo mas não pertence a ele. O estrangeiro traz perspectiva porque não tem raiz. Vê o que os nativos não veem porque não está preso às mesmas premissas. Hermes é o estrangeiro divino: está em todo grupo, não pertence a nenhum, e por isso vê o que ninguém mais vê. Na psicologia junguiana, o trickster é a energia que impede a unilateralidade. Quando a consciência se fixa numa única posição (ordem, moralidade, razão), o trickster introduz o oposto. Hermes roubou as vacas de Apolo não por maldade. Porque Apolo precisava perder algo para descobrir que existia algo além da perfeição. O trickster não destrói. Desestabiliza. E a desestabilização é, muitas vezes, o único caminho para o movimento. O filósofo Michel Serres, em 'Hermes', usa o deus como modelo para o pensamento contemporâneo: o pensamento-rede, que não se fixa em disciplinas mas transita entre elas. O tradutor que conecta linguagens é mais valioso (e mais solitário) do que o especialista que domina uma. Hermes é o generalista divino. E o custo do generalismo é não ter casa. III O EspelhoVocê pertence a algum lugar? Não onde mora. Não onde trabalha. Pertence. A sensação de que ali é sua base, seu chão, o lugar de onde não precisa sair e para onde não precisa ser convidado. Ou você é Hermes? O que transita, conecta, traduz, e que quando para percebe que não há herma marcando a sua casa, apenas os cruzamentos onde os outros se encontram graças a você. A pergunta é: a mobilidade que você tem é dom ou é falta de raiz? Se você é Hermes, a pergunta é outra. Não onde você pertence. Mas se você precisa pertencer. Existe um tipo de pessoa cuja função é conectar, não habitar. E o sofrimento vem não da falta de raiz, mas da crença de que deveria ter uma. O herma na beira da estrada não é infeliz. Está exatamente onde precisa estar: no cruzamento, onde os caminhos se encontram. Até o próximo diagnóstico. |
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O RITUAL DIÁRIO Todo dia, ao meio-dia e doze. Um mito. Cinco minutos de espelho. Todo mito é um diagnóstico. Toda edição é um espelho. |