Mitologia do Dia #031 · Hades
Mitologia do Dia

EDIÇÃO Nº 031

O MITO DE HOJE

Hades

Grécia arcaica. Irmão de Zeus. O senhor do que está abaixo.

O que mora no subterrâneo da mente

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Hades sentado no trono do submundo rodeado de sombras

A INSCRIÇÃO

Hades não é punição. É tudo o que você mandou para baixo e que continua vivo.

Ninguém quer descer. O subterrâneo é o lugar que evitamos, o andar que não visitamos, a gaveta que não abrimos. Mas os gregos não fizeram do submundo um lugar de punição. Fizeram dele um reino. Com governo. Com leis. Com uma população inteira de tudo o que já viveu e foi mandado para baixo.

I

O Mito

Hades não era um demônio. Era um dos três irmãos que dividiram o cosmos depois de derrotarem Cronos. Zeus ficou com o céu. Poseidon com o mar. Hades, que tirou a sorte mais curta, ficou com o mundo dos mortos.

Homero (Ilíada e Odisseia) e Hesíodo (Teogonia) retratam Hades como um deus sóbrio, não cruel. Ele não matava. Recebia. Os mortos não iam ao Hades como castigo. Iam porque era para lá que todos iam. O submundo grego não é o inferno cristão. É o repositório de tudo o que já existiu.

O reino tinha geografia. O rio Estige separava os mundos. Caronte conduzia as almas para o outro lado. Cérbero, o cão de três cabeças, vigiava a entrada (mas o ponto é: vigiava para que ninguém saísse, não para que ninguém entrasse). Os Campos Elísios abrigavam os virtuosos. O Tártaro, os condenados. Os Campos de Asfódelos, a maioria: aqueles que não foram nem particularmente bons nem particularmente ruins.

Hades raramente saia do submundo. Era invisível (seu nome possivelmente deriva de a-ides, "o não-visto"). Possuía um elmo que o tornava imperceptível. Os gregos evitavam pronunciar seu nome. Chamavam-no de Plouton ("o rico"), porque tudo o que está enterrado pertence a ele: minérios, sementes, mortos, memórias.

Apolodoro (Biblioteca, I.2) conta que após a Titanomaquia, Hades aceitou o submundo sem revolta. Não aspirava ao Olimpo. Não invejava Zeus. Governava o que lhe cabia com a mesma autoridade com que Zeus governava o céu. A diferença: ninguém queria visitar.

Pausânias (Descrição da Grécia, V.20) menciona que em Élis existia um templo de Hades, aberto apenas um dia por ano. E nesse dia, só o sacerdote podia entrar. O submundo não é acessível livremente. Tem horário. Tem limite. A descida é necessária, mas não é infinita. Desce-se, e sobe-se. O erro não é descer. É não subir.

Homero, na Odisseia (canto XI), descreve a descida de Ulisses ao Hades (a nekyia) como um dos episódios mais sombrios e mais reveladores da épica. Ulisses não vai ao Hades por aventura. Vai para pedir orientação a Tirésias. Vai porque precisa de informação que só os mortos têm. A descida não é turismo. É necessidade. E a informação que Ulisses recebe (como voltar a Ítaca, o que esperar em casa) é a que define o resto da jornada.

"Tudo o que está enterrado pertence a ele." (Tradição grega sobre Plouton)

II

O Diagnóstico

O que os gregos estavam registrando é o mapeamento mais preciso que qualquer cultura já fez do inconsciente. Hades é o inconsciente. Não como metáfora. Como cartografia.

Jung foi explícito. Em "Símbolos da Transformação" e em "O Livro Vermelho", ele descreve o inconsciente como o submundo psíquico: o lugar para onde vão as memórias esquecidas, os traumas não processados, os desejos reprimidos, as identidades abandonadas, os mortos psíquicos que continuam existindo embaixo. A nekyia (descida ao Hades) é, para Jung, o rito central da individuação. Descer, encontrar o que foi enterrado, conversar com os mortos, e subir diferente.

Freud descreveria Hades como o inconsciente reprimido: o reservatório de tudo o que o ego considerou inaceitável e empurrou para baixo. Mas Freud também notou que o reprimido não desaparece. Ele continua ativo. Envia mensagens em forma de sintomas, sonhos, atos falhos, repetições. Os mortos de Hades não estão em paz. Estão em atividade.

Hillman levaria a leitura mais longe. Em "O Sonho e o Submundo", ele propõe que a alma é naturalmente subterrânea. Não ascendente. A cultura ocidental valoriza a subida (sucesso, iluminação, progresso, céu). Hillman inverte: a profundidade é a direção da alma. Descer não é regredir. É aprofundar.

Hades é rico. Tudo o que você enterrou está lá. As experiências que marcaram e que você nunca revisitou. As versões antigas de si mesmo que foram descartadas. Os desejos que você decidiu que não podia ter. Os lutos que não terminou. As raivas que escondeu. Nada desapareceu. Tudo desceu.

O diagnóstico é este: o subterrâneo da mente não é vazio. É governado. E se você nunca desce para ver quem governa lá embaixo, o que mora lá continua governando por conta própria.

O conceito freudiano de inconsciente como repositório não é metáfora. É topografia. Freud descreveu o inconsciente como um lugar com leis próprias: condensação, deslocamento, atemporalidade. Os mortos de Hades não envelhecem. Os conteúdos inconscientes também não. O trauma de trinta anos atrás está tão fresco quanto no dia em que aconteceu, porque no inconsciente o tempo não passa.

Marion Woodman, em 'Addiction to Perfection', descreve como a cultura ocidental, ao valorizar exclusivamente a ascensão (sucesso, progresso, iluminação, céu), patologiza a descida. Descer é fracassar. Ir para baixo é regredir. O submundo é negativo. Hades é o vilão. Mas Hillman inverte: a alma naturalmente desce. A alma busca profundidade, não altura. E quem nunca desce vive cortado da própria alma. Funcional, produtivo, iluminado, e raso.

III

O Espelho

Quando foi a última vez que você desceu?

Não que pensou sobre si mesmo. Não que analisou. Que desceu. Visitou o que enterrou. Sentou com o que mandou para baixo e deixou que falasse.

Hades não é o inferno. É o que está debaixo. E o que está debaixo não está morto. Está invisível. Como o próprio deus que governa: presente, ativo, não-visto.

A pergunta final desta série é a pergunta que abre todas as outras: o que mora no seu subterrâneo, e há quanto tempo você não desce para ver?

Existe uma última forma de testar isso. Sente-se em silêncio por dez minutos. Sem celular. Sem música. Sem estímulo. E observe o que sobe. O que aparece sem convite. As memórias, os rostos, as sensações. Isso é Hades falando. Esse é o material que mora no subterrâneo e que só aparece quando você para de fazer barulho suficiente para abafá-lo. O que subiu nesses dez minutos é o começo do mapa.

Até o próximo diagnóstico.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: O submundo grego era um lugar de punição, equivalente ao inferno cristão?

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