Ele era dois terços deus e um terço humano. Construiu as muralhas de Uruk com suas próprias mãos, muralhas tão perfeitas que a epopeia as cita como prova de que ele viveu. Mas o que o fez humano foi um homem selvagem criado pela deusa para ser seu igual. E quando esse homem morreu, Gilgamesh saiu de Uruk, cruzou o fim do mundo conhecido, e foi buscar o que nenhum mortal buscou: a vida sem fim. Voltou de mãos vazias. E por isso o lembramos. I O MitoGilgamesh (Bilgameš em sumério) foi provavelmente rei histórico de Uruk por volta de 2700 a.C. A narrativa mítica é a Epopeia de Gilgamesh, preservada em doze tábuas de argila cuneiforme, a mais completa delas a Versão Padrão Acadiana (circa 1200 a.C.), compilada pelo escriba Sîn-lēqi-unninni. Mas versões sumérias do ciclo já existiam por volta de 2100–1700 a.C.: poemas como "Gilgamesh e Aga", "A Morte de Gilgamesh" e "Gilgamesh e a Terra dos Viventes" são fontes independentes da narrativa consolidada. A Epopeia foi perdida por milênios, redescoberta nas escavações de Nínive (Bibliotheca Assurbanipal) no século XIX, e a tábua do dilúvio causou escândalo acadêmico quando reconhecida como narrativa de inundação anterior ao Gênesis. A estrutura épica tem dois momentos. O primeiro: Gilgamesh como tirano que esgota sua cidade pela própria vitalidade excessiva, e a criação de Enkidu pelos deuses como antídoto, um ser selvagem, criado do barro, igualmente poderoso. Os dois se enfrentam. Gilgamesh vence na força, Enkidu o iguala no espírito. Tornam-se amigos inseparáveis. Juntos matam o Touro do Céu (enviado pela deusa Inanna, furiosa pela recusa de Gilgamesh de se tornar seu amante) e Humbaba, guardião da Floresta de Cedros. Os dois empreendimentos juntos. A glória compartilhada. Então os deuses decidem que um dos dois deve morrer como punição pelos excessos. Enkidu adoece. A doença é longa, dolorosa, indigna do guerreiro que foi. Na décima-primeira tábua, Enkidu morre. E Gilgamesh, pela primeira vez, confronta o que havia evitado: a morte é real. A morte chega. Chegou para o mais forte que conhecia. O segundo momento começa no luto e se transforma em missão. Gilgamesh nega o enterro por seis dias e sete noites, fica ao lado do corpo do amigo esperando que ele acorde, até que um verme cai do nariz de Enkidu. Então enterra. E parte. Percorre o mundo em busca de Utnapishtim, o único mortal a quem os deuses concederam imortalidade após o Dilúvio (o Ziusudra sumério, o Atrahasis acadiano, o Noé da narrativa semita). Gilgamesh atravessa as Montanhas Gêmeas (o fim do mundo habitado), navega o Mar das Mortes com Urshanabi o barqueiro, e chega à ilha onde Utnapishtim habita para sempre. Utnapishtim não tem como dar a Gilgamesh o que ele quer. Mas revela um segredo: no fundo do mar cresce uma planta que não dá imortalidade, mas renova a juventude. Gilgamesh desce ao fundo do mar, encontra a planta, volta à superfície. Na viagem de retorno, para descansar numa cisterna de água fresca, adormece. Uma serpente emerge da água, fareja a planta, e a leva. Quando Gilgamesh acorda, a serpente está partindo ao longe, com a pele trocada (daí, nas culturas mesopotâmicas, a serpente ser símbolo de renovação, ela tomou o presente que era de Gilgamesh). Gilgamesh chora. Não há mais nada a buscar. A última cena da Epopeia, tábua XI, mostra Gilgamesh chegando a Uruk com Urshanabi. Ele convida o barqueiro a percorrer as muralhas da cidade. "Sobe e percorre as muralhas de Uruk... examina a fundação de tijolo... o próprio Gilgamesh não pôs essa base?" As muralhas foram construídas antes de Enkidu, antes da jornada. São anteriores a toda perda. Ainda estão de pé. É tudo que ele tem. É suficiente. II O DiagnósticoA Epopeia de Gilgamesh é o mais antigo diagnóstico literário da condição humana que sobreviveu: a consciência da mortalidade como fardo civilizatório, e a trajetória do que acontece quando alguém com capacidade excepcional decide que a mortalidade não se aplica a ele. O arco não é de fracasso. É de maturação. Jung, em Símbolos da Transformação, analisa o herói solar como aquele que vai ao extremo de sua capacidade e retorna transformado pelo limite que encontra. Gilgamesh é esse herói no grau máximo: dois terços divino, rei de uma das primeiras cidades da história, e mesmo assim não pode cruzar o limite que a humanidade inteira compartilha. A epopeia não é sobre o que ele não conseguiu. É sobre o que ele aprendeu quando não conseguiu. O personagem de Enkidu é o coração do diagnóstico. Jung chamaria Enkidu de arquétipo do duplo, o outro que, ao ser encontrado, revela ao herói o que ele não pode ver em si mesmo. Gilgamesh como rei é brilhante, excessivo, tirânico por vitalidade transbordante. Enkidu vem do estado natural, sem civilização, sem persona social, é puro instinto integrado. O encontro entre os dois não é competição resolvida. É complementação necessária. Gilgamesh, sem Enkidu, é força sem alma. Com Enkidu, torna-se capaz de amizade genuína, o que a tradição mesopotâmica chamava de rū'ū, companheiro, camarada de existência. A morte de Enkidu é o ponto de virada que a psicologia do século XXI reconhece como "colapso do eu onipotente": o momento em que a pessoa que se construiu acima da vulnerabilidade comum descobre que vulnerabilidade não é fraqueza de caráter, é condição ontológica. Gilgamesh chora Enkidu como nenhum rei deveria chorar (e que todos deveriam). O luto que se nega por seis dias, esperando o impossível, é o luto de alguém que ainda não acreditou na perda. A serpente que rouba a planta da juventude é, para muitos estudiosos, o elemento mais honesto do mito. Joseph Campbell, em O Poder do Mito, observa que a serpente na mitologia mesopotâmica é renovação, ela troca de pele, rejuvenesce. Ao roubar a planta, ela não priva Gilgamesh apenas de um objeto. Demonstra que a renovação pertence ao ciclo natural, à serpente, à terra, ao cosmos, e não ao indivíduo que quer extrair-se do ciclo. Gilgamesh não pode se tornar como a serpente não porque é fraco, mas porque é outra coisa. As muralhas de Uruk como legado final é a resposta do mito à questão da imortalidade. Gilgamesh não alcançou imortalidade biológica. Alcançou imortalidade cultural: as muralhas, a cidade, o texto que narra sua busca. A epopeia existe. Você está lendo sobre um rei que viveu há quatro mil e setecentos anos. Isso é a única imortalidade que a humanidade oferece, e é diferente de viver para sempre, mas é real. A planta da juventude teria dado a Gilgamesh mais anos. As muralhas lhe deram milênios. Erich Neumann, em A Origem e a História da Consciência, vê a jornada de Gilgamesh como modelo de individuação heroica: a consciência ego que vai ao extremo de seus limites, confronta a morte (literalmente, na figura de Enkidu morto; simbolicamente, na viagem ao fim do mundo), e retorna não com o que foi buscar, mas com algo mais valioso, a aceitação de que a consciência finita tem dignidade própria, não apesar da mortalidade, mas por causa dela. A pergunta para hoje: de qual imortalidade você está fugindo, a biológica ou a cultural? E o que você está construindo que, como as muralhas de Uruk, permanecerá depois que você partir? Gilgamesh perdeu a planta para a serpente. As muralhas ainda estão de pé. A inscrição: Gilgamesh construiu muralhas que duram. Mas o que o fez humano foi Enkidu. A imortalidade que buscou nas ervas do fundo do mar, carregou sem saber nas histórias que outro rei leu dois mil anos depois. O legado não é o que você arranca do cosmos pela força. É o que fica porque você viveu de forma que valeu a pena narrar. Até o próximo diagnóstico. |