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Existe um tipo de dor que não mata, só afasta. Ela não te derruba de vez, apenas faz todo mundo em volta procurar um motivo educado para se distanciar.
Filoctetes carregou uma ferida assim: uma chaga no pé que apodrecia, fedia, não cicatrizava. E o exército mais poderoso da Grécia decidiu que era mais fácil largá-lo numa ilha deserta do que conviver com o cheiro.
Depois, quando precisou, voltou.
I
O Mito
Filoctetes era um arqueiro mortal, herdeiro de um objeto sagrado. Ao morrer, Héracles deixou para ele o próprio arco e as flechas envenenadas com o sangue da Hidra.
Nenhuma arma daquela era acertava e falhava. Quem segurava aquele arco carregava a vitória na mão.
A caminho de Troia, com os gregos, algo se rompeu. Numa parada de navegação, uma serpente cravou o pé de Filoctetes. A mordida não o matou.
Fez pior: abriu uma ferida que não fechava, supurava, exalava um odor que ninguém do acampamento suportava.
Os relatos variam no detalhe, convergem no essencial. O grito de dor de Filoctetes atrapalhava os sacrifícios. O cheiro da chaga revirava o estômago da tropa.
Um homem íntegro, dono da arma mais valiosa da campanha, virou um incômodo ambulante que os companheiros já não olhavam de frente.
A decisão foi fria e coletiva. Por ordem de Agamemnon, coube a Odisseu executar o descarte. Deixaram Filoctetes adormecido na ilha de Lemnos, sozinho, com pouca comida e o arco que ainda lhe restava.
Zarparam sem ele. A frota seguiu para a guerra, e o ferido ficou com o mar, as rochas e a própria chaga.
Dez anos se passaram. Dez anos mancando atrás de aves para comer, caçando com o arco que era sua única companhia, remoendo o abandono numa ilha sem ninguém.
A ferida não cicatrizou nesse tempo. A mágoa, muito menos.
Enquanto isso, Troia não caía. Os gregos morriam diante da muralha, ano após ano, sem quebrar o cerco.
Até que uma profecia expôs o que ninguém queria ouvir: a cidade só tombaria com o arco de Héracles em campo. A arma sem a qual não havia vitória estava exatamente na mão do homem que eles tinham largado para trás.
Então os mesmos gregos que fugiram do cheiro precisaram voltar. E coube justamente a Odisseu, o arquiteto do abandono, retornar a Lemnos para convencer Filoctetes a ir junto.
O ferido descartado por atrapalhar virou, de uma hora para outra, a peça sem a qual a guerra inteira estava perdida.
O mito guarda a ironia mais afiada para o fim. Filoctetes finalmente aceita, chega a Troia, é curado por um dos filhos de Asclépio.
E é a flecha do seu arco que derruba Páris, o príncipe cuja escolha havia acendido a guerra. A vitória que dez anos de heróis não conseguiram veio da mão que a tropa jogou fora.
II
O Diagnóstico
Filoctetes é, em seu núcleo arquetípico, a imagem da dor crônica que afasta as pessoas e do mundo que te descartou voltando porque ainda precisa de você. O mito não conta a história de um herói azarado. Conta o que acontece com quem carrega uma ferida que os outros não conseguem encarar de perto.
Repare no motivo do abandono, porque ele é o coração do diagnóstico. Filoctetes não foi largado por traição, covardia ou crime. Foi largado porque incomodava.
O grito, o cheiro, a lentidão da chaga. Nada disso era culpa dele, e mesmo assim tudo isso bastou para a tropa decidir que era mais cômodo virar as costas.
Esse é o primeiro traço do padrão: a dor prolongada não gera compaixão automática, gera distância. As pessoas aguentam a crise curta, o susto, o luto de poucas semanas.
A ferida que não fecha testa outra coisa. Ela cansa a paciência alheia, e num certo ponto o cansaço se disfarça de decisão prática.
O segundo traço é mais duro de encarar. Quem foi abandonado assim não vira só uma vítima passiva. Filoctetes passou dez anos afiando a mágoa junto com a mira.
O abandono não o apagou. Endureceu ele. E quando o mundo voltou pedindo ajuda, encontrou um homem que já não devia nada a ninguém.
Aqui aparece o erro de cálculo de quem descarta. Os gregos acharam que largar o ferido resolvia o problema. Descartaram o incômodo sem perceber que estavam descartando junto a arma da vitória.
A dor de Filoctetes estava colada exatamente na coisa mais valiosa que ele tinha. Você não corta um sem cortar o outro.
Existe um nome para esse engano: confundir a pessoa com a ferida dela. A tropa olhou para Filoctetes e viu só a chaga. Não viu o arqueiro, não viu o arco, não viu que aquele corpo doente guardava a chave da guerra.
Reduziram um homem inteiro ao pior dos seus dias.
O espelho moderno dispensa esforço. O amigo que some quando a depressão do outro se arrasta. A família que se afasta do parente com doença longa porque cuidar cansa. O colega adoecido que vira assunto de bastidor até pedirem demissão silenciosa dele.
Ninguém confessa que fugiu do cheiro. Todo mundo arruma um motivo mais apresentável.
E há a parte que quase ninguém quer dizer em voz alta: o mundo costuma voltar. Não por arrependimento, mas por necessidade. O ex que reaparece quando descobre que precisa de algo que só você tem. O grupo que ignorou seu trabalho até o projeto emperrar sem ele.
A empresa que empurrou o funcionário para o canto até faltar quem soubesse fazer o que ele fazia.
O grego que criou Filoctetes entendia uma coisa cruel sobre o poder. A profecia não disse que Troia cairia com um homem bom, disse que cairia com aquele arco.
O valor de Filoctetes nunca dependeu de gostarem dele. Dependia de precisarem dele. E precisar não é o mesmo que respeitar.
Há ainda o Filoctetes interno, o mais difícil de olhar. É a parte de você que guarda a lista de quem sumiu quando a coisa apertou. Ela sabe cada nome que se afastou no pior momento.
E quando essas pessoas reaparecem sorrindo, precisando de algo, essa parte de você lembra da ilha e pergunta em silêncio por que agora, de repente, você voltou a ser útil.
A pergunta para hoje: de qual ferida sua as pessoas fugiram fingindo que era outra coisa? E do outro lado, de quem você se afastou porque a dor da pessoa cansou você, jurando que era só falta de tempo?
Quando o mundo voltar pedindo o seu arco, você entrega, cobra ou fica na ilha?
A inscrição: Filoctetes não foi punido por um crime. Foi abandonado por uma ferida que ninguém aguentava perto. O mundo o largou pelo cheiro e voltou pela necessidade, e a mesma chaga que o tornou insuportável guardava a arma sem a qual ninguém venceria.
Até o próximo diagnóstico.
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