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Ela não escolheu sentir. Acordou um dia já sentindo. O desejo veio inteiro, sem aviso, em direção exatamente à pessoa em direção à qual era impossível ir. E ela, criada para ser rainha, não foi treinada para o que fazer quando o corpo quer o que a vida proíbe.
I
O Mito
Fedra é filha de Minos, rei de Creta, e de Pasífae. Irmã de Ariadne (a que ajudou Teseu a sair do labirinto) e do Minotauro. A linhagem dela é pesada: a mãe se apaixonou por um touro e gerou o Minotauro; a irmã foi abandonada em Naxos por Teseu. O sangue de Fedra carrega tendência ao desejo desencontrado.
Teseu, depois de matar o Minotauro e abandonar Ariadne, casa-se com Fedra. Têm filhos. Mas Teseu também tem um filho anterior, Hipólito, fruto da união com a amazona Antíope (ou Hipólita, dependendo da fonte). Hipólito é jovem, casto, devoto exclusivo de Ártemis. Despreza Afrodite. Caça nos bosques, recusa amor, mantém-se virgem por princípio.
Eurípides, em Hipólito (428 a.C.), narra a tragédia. Afrodite, ofendida pelo desprezo de Hipólito, decide puni-lo. Não diretamente. Faz com que Fedra, a madrasta, se apaixone perdidamente pelo enteado. A paixão é divina, induzida, irresistível. Fedra não escolhe sentir. É possuída pelo sentimento.
Ela resiste. A peça começa com Fedra já há semanas em jejum, magra, prestes a morrer. Recusa-se a comer, a dormir. Não nomeia o motivo. A ama, preocupada, insiste. Fedra finalmente confessa o nome do amado: Hipólito. A ama, contra a vontade da rainha, decide intervir. Conta a Hipólito, esperando obter o consentimento dele.
Hipólito reage com horror. Considera Fedra uma mulher abjeta. Faz um discurso longo (quase 50 versos em Eurípides) contra todas as mulheres, propondo que homens deveriam reproduzir-se sem mulheres. Sua reação é desproporcional, virulenta, jovem. Fedra ouve por trás de uma porta. Sabe que perdeu não só o objeto do desejo, mas também a honra. Sua paixão será conhecida. Sua reputação, destruída.
Fedra escreve uma carta acusando falsamente Hipólito de tê-la atacado. Suicida-se enforcada, com a carta presa às vestes. Teseu encontra a esposa morta e a carta. Acredita. Amaldiçoa o filho com uma das três maldições garantidas que lhe foram concedidas por Posêidon. Quando Hipólito está conduzindo seu carro pela costa, um touro monstruoso surge do mar (enviado por Posêidon), os cavalos enlouquecem, Hipólito é arrastado pelas pedras, gravemente ferido.
Ártemis aparece em deus ex machina. Revela a Teseu a verdade: a paixão de Fedra foi obra de Afrodite, Hipólito é inocente, Fedra mentiu por desespero. Hipólito é trazido moribundo. Reconcilia-se com o pai. Morre. Teseu fica, devastado, com duas mortes nas mãos: a esposa e o filho.
Sêneca escreveu uma versão romana da peça (Fedra), e Racine no século XVII (Phèdre, 1677), considerada uma das obras-primas do teatro francês. Em todas as versões, o esqueleto é o mesmo: desejo proibido, induzido, que destrói quem sente, quem é desejado e quem está em volta.
II
O Diagnóstico
A leitura junguiana é direta. Marie-Louise von Franz, em Animus e Anima nos Contos de Fadas, observa que figuras como Fedra encarnam o problema do desejo possessivo que aparece na meia-idade. Fedra é casada, é mãe, tem posição. O desejo por Hipólito não é jovem-querendo-jovem. É a mulher madura sendo invadida por uma força que ela não pediu, em direção a alguém que representa o que ela perdeu (juventude, inocência, possibilidade não-vivida).
Hipólito não é objeto sexual realista. É símbolo. É a vida que Fedra não viveu. É o que poderia ter sido se ela não tivesse seguido o caminho que seguiu. Por isso a intensidade. Por isso a impossibilidade. O desejo dela não é por ele. É pela própria juventude perdida, projetada nele.
Eurípides já tinha intuição disso. A Afrodite que ele faz aparecer no prólogo da peça não é a deusa do amor genuíno. É a deusa da força do desejo cego, irresponsável, que age através de mortais sem se importar com as consequências. Fedra é instrumento. Hipólito é instrumento. Os dois são esmagados por uma engrenagem maior. Eurípides está mostrando que paixão divina (= desejo arquetípico irrefletido) é destruição sem culpa pessoal.
Sigmund Freud usaria Fedra para falar do desejo edipiano transposto. A madrasta-enteado é uma das configurações mais clássicas do desejo proibido. Não há laço de sangue, mas há a estrutura familiar. O tabu é cultural, não biológico, mas é tabu suficiente. Em terapia familiar moderna, esse padrão aparece com frequência: madrasta apaixonada por enteado, padrasto apaixonado por enteada, tio por sobrinha. A proximidade emocional sem laço biológico cria zona de risco específica.
Carl Jung, em Símbolos da Transformação, descreve o que ele chama de "apaixonamento regressivo": quando a libido, em vez de fluir para frente (para metas, para projetos, para evolução), reflui para objetos do passado ou para figuras simbólicas que representam algo que já não pode ser. Fedra apaixonada por Hipólito é libido refluindo. Não vai dar em nada construtivo, porque o objeto não é real. É símbolo.
Mas há uma leitura mais cruel, mais ética, sobre Fedra. Ela podia ter morrido sem mentir. Ela escolheu, no último momento, levar Hipólito junto na queda. A acusação falsa é decisão, não impulso. Fedra deixa de ser vítima total e vira agente moral exatamente nessa decisão final. E é isso que gera a maior tragédia: não o desejo, mas a mentira que ela usa como vingança preventiva contra a humilhação.
Eurípides está mostrando algo sutil. O desejo proibido por si só seria fato psicológico. Doloroso, mas íntimo. O que transforma o fato em catástrofe pública é a incapacidade de processar a humilhação. Fedra não suporta que Hipólito a tenha rejeitado e que a ama saiba. A vergonha social vira motor de destruição. Mata o jovem inocente para não morrer sozinha em vergonha.
A leitura clínica contemporânea reconhece esse padrão. Pessoas que entram em estados intensos de desejo proibido (por colega de trabalho, por terapeuta, por amigo do cônjuge, por enteado) tendem, quando confrontadas, a uma de três respostas: confessam e atravessam o constrangimento, retiram-se em silêncio e processam internamente, ou viram a história contra o objeto e o destroem para preservar a própria imagem. A terceira é Fedra. É a mais comum em ambientes profissionais e familiares.
A profilaxia é nomear o desejo cedo, em ambiente seguro (terapeuta, diário íntimo, amigo de confiança), antes que ele aja por si mesmo. Sentimentos não nomeados não desaparecem. Crescem em silêncio até forçar a saída por algum canto. Fedra escondeu por semanas. Quando o desejo finalmente saiu, saiu em forma destrutiva, porque havia acumulado pressão demais.
Outro diagnóstico crítico é sobre Hipólito. A reação dele à confissão é igualmente desproporcional. Ele não disse "obrigado pela confiança, isso é difícil para você, vou pensar em como podemos lidar com isso sem destruir a família". Disse: "todas as mulheres são abjetas, eu desprezo a humanidade feminina inteira". A juventude rígida dele é tão problemática quanto o desejo da madrasta. Hipólito recusa Afrodite tão completamente que vira a outra face da mesma moeda. Ártemis perfeita acaba criando Afrodite catastrófica, em alguém ao redor.
A peça é diagnóstico duplo. Fedra: o que acontece quando você reprime sistematicamente o desejo até que ele explode em direção errada. Hipólito: o que acontece quando você nega o desejo como princípio ético, sem reconhecer que negar uma força não a elimina, só a redireciona contra você.
A pergunta para hoje. Há um desejo seu que está tomando direção que você sabe que é insustentável? Que você está fingindo que não existe, esperando que passe sozinho? Quanto tempo está esperando? E o que você vai fazer quando esse desejo, ignorado por tempo demais, decidir agir por conta própria?
Por outro lado: você está rejeitando alguém ou alguma coisa de forma tão absoluta, tão moralmente íntegra, tão aspecto-Hipólito, que está, sem perceber, criando o cenário para uma catástrofe vinda do oposto exato? Ártemis pura cria Afrodite vingativa. Não porque Afrodite seja má. Porque equilíbrio é lei.
Fedra escreveu uma carta. A carta matou Hipólito. Toda carta acusatória escrita em estado de desespero relacional carrega esse risco. Antes de mandar, antes de postar, antes de denunciar, antes de transformar dor própria em arma contra outra pessoa: pergunta quem está dirigindo essa decisão. É você ou é a Fedra interna em estado de queda?
Até o próximo diagnóstico.
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