Mitologia do Dia #011 · Édipo
Mitologia do Dia

EDIÇÃO Nº 011

O MITO DE HOJE

Édipo

Grécia arcaica. Rei de Tebas. O investigador que era o criminoso.

O que você não quer saber sobre si mesmo

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Édipo diante de Tirésias no palácio de Tebas

A INSCRIÇÃO

A verdade não esperou Édipo estar pronto. Ela nunca espera.

Ele queria salvar a cidade. Mandou investigar a causa da peste. Seguiu cada pista com rigor de detetive. Interrogou testemunhas, confrontou oráculos, desafiou quem lhe pedia para parar. Não aceitou evasivas. Exigiu a verdade completa. E quando a verdade apareceu, descobriu que o crime era dele.

I

O Mito

Édipo nasceu filho de Laio e Jocasta, reis de Tebas. Um oráculo anunciou que ele mataria o pai e se casaria com a mãe. Laio, para evitar o destino, mandou que o bebê fosse abandonado no monte Citéron com os pés furados. Um pastor o salvou. Ele foi criado como filho dos reis de Corinto, sem saber de sua origem.

Sófocles, em Édipo Rei, estrutura toda a peça como uma investigação. Édipo, já adulto e rei de Tebas, enfrenta uma peste que devasta a cidade. O oráculo de Delfos diz que a peste cessará quando o assassino do antigo rei Laio for encontrado e expulso.

Édipo conduz a investigação pessoalmente. Interroga o profeta Tirésias, que se recusa a falar. Quando Tirésias finalmente diz a verdade ("o assassino que procuras és tu"), Édipo não acredita. Acusa Tirésias de conspirar com Creonte. Segue investigando.

Cada depoimento aproxima a verdade. Um mensageiro de Corinto revela que Édipo era adotado. O pastor que o salvou confirma a origem. Jocasta percebe antes e implora que Édipo pare. "Não continues a buscar. Já basta."

Édipo não para. A verdade se completa. Ele matou Laio numa encruzilhada, sem saber que era seu pai. Casou-se com Jocasta, sem saber que era sua mãe. Os filhos que tiveram são simultaneamente seus filhos e seus irmãos.

Jocasta se enforca. Édipo arranca os próprios olhos com os broches do vestido dela. Não porque não queira ver. Porque viu demais.

Sófocles estruturou Édipo Rei como um thriller investigativo, dois mil anos antes do gênero existir. Cada cena revela um dado. Cada dado aponta para o investigador. Aristóteles, na Poética, considerava Édipo Rei a tragédia perfeita por causa da peripécia (a reversão da sorte) e da anagnórise (o reconhecimento). A anagnórise de Édipo é a mais violenta da literatura: ele reconhece que é o criminoso que procura.

"O assassino que procuras és tu." (Tirésias, em Sófocles, Édipo Rei)

II

O Diagnóstico

O que Sófocles registrou não é uma tragédia sobre destino inevitável. É uma tragédia sobre a busca por autoconhecimento e o preço que se paga quando o que se encontra é insuportável.

Freud nomeou o complexo central da psicanálise a partir desse mito. O complexo de Édipo (1899) descreve o desejo inconsciente da criança pelo genitor do sexo oposto e a rivalidade com o genitor do mesmo sexo. Mas o insight mais profundo de Freud sobre Édipo não está no desejo. Está na resistência: a força psíquica que impede o sujeito de ver o que está diante dos seus olhos.

Édipo é um investigador brilhante. Ele segue as pistas, confronta as testemunhas, exige respostas. Ele faz tudo certo, exceto aceitar o resultado. Quando Tirésias diz a verdade, Édipo a rejeita. Quando Jocasta pede que ele pare, ele continua. A investigação não falha por incompetência. Falha porque o investigador não está preparado para descobrir que o criminoso é ele.

Jung descreveria isso como o encontro com a sombra. A sombra é o conteúdo psíquico que o ego recusa reconhecer como seu. Édipo não nega a existência do assassino. Nega que ele mesmo seja o assassino. A sombra não é o desconhecido. É o não-reconhecido. A diferença é abismal.

Hillman levaria o mito para o terreno da psicologia da ferida. Os olhos que Édipo arranca são os mesmos olhos que investigaram. A visão que encontra a verdade é a mesma que não suporta vê-la. O cegamento voluntário não é fuga. É o reconhecimento de que ver sem poder mudar é uma forma diferente de escuridão.

O diagnóstico é este: a pessoa que busca a verdade sobre si mesma eventualmente encontra algo que não quer ter encontrado. O padrão não é evitar a busca. O padrão é continuar buscando e negar o que aparece.

O conceito psicanalítico de resistência é central aqui. A resistência não é preguiça. Não é burrice. É a força psíquica que protege o ego de informação que ele não suporta. Édipo é inteligente. Capaz. Persistente. Exatamente essas qualidades tornam a resistência mais sofisticada. Uma pessoa menos capaz teria parado de investigar. Édipo continua porque é inteligente demais para aceitar evasivas. E inteligente demais para aceitar o resultado.

Irvin Yalom, em 'Psicoterapia Existencial', descreve o que chama de confronto com os dados existenciais da vida: morte, liberdade, solidão, falta de sentido. Édipo confronta todos de uma vez. A verdade sobre si destrói a narrativa que sustentava a identidade, o casamento, a paternidade, a realeza. Não sobra nada. E quando não sobra nada, arrancar os olhos é uma resposta que, dentro do mito, faz sentido: se a visão não serviu para evitar o desastre, a visão se torna insuportável.

O fenômeno que Freud chamou de Verdrängung (repressão) e que Lacan refinaria como méconnaissance (desconhecimento estrutural) está no coração de Édipo. A pessoa não ignora a verdade por burrice. Ignora porque reconhecer a verdade exigiria a demolição de toda a estrutura identitária. Édipo não é rei se é o assassino. Não é marido se é o filho. A verdade não remove um dado. Remove o chão.

III

O Espelho

Existe algo sobre você que todas as evidências apontam e que você continua não aceitando?

Não um segredo externo. Uma verdade interna. Um padrão que as pessoas ao seu redor já perceberam e que você, apesar de toda a inteligência, apesar de toda a capacidade analítica, continua explicando de outra forma.

Édipo era o melhor investigador de Tebas. E foi exatamente isso que o destruiu. Não a verdade. A busca pela verdade combinada com a incapacidade de suportá-la.

A pergunta é: o que você já encontrou sobre si mesmo e está fingindo que não viu?

O teste de Édipo é impiedoso: cite uma coisa sobre você que, se fosse verdade, destruiria a narrativa que você conta sobre si mesmo. Se não consegue citar, a resistência está funcionando. Se consegue, mas nunca investigou, a investigação está parada exatamente onde Jocasta pediu que parasse.

Até o próximo diagnóstico.

Até o próximo diagnóstico.

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