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O melhor construtor do mundo antigo criou algo tão eficiente que nem ele conseguiu sair de dentro. A prisão não foi imposta por falha de projeto. Foi consequência da perfeição. Quanto melhor a criação, mais difícil a saída.
I
O Mito
Dédalo era ateniense, neto de Erecteu, e o maior artesão e inventor de sua era. Apolodoro (Biblioteca, III.15) e Diodoro Sículo (Biblioteca Histórica, IV.76) listam suas criações: estátuas que pareciam se mover, ferramentas que ninguém havia imaginado, soluções mecânicas para problemas que não tinham solução. Ele era o que hoje chamaríamos de engenheiro-gênio.
Em Atenas, Dédalo ensinou o ofício a seu sobrinho Talos (ou Pérdix, dependendo da fonte). Talos demonstrou talento superior. Inventou a serra, o compasso, o torno de oleiro. Dédalo, tomado por inveja, empurrou Talos de uma altura. Atena transformou o rapaz num pássaro antes que morresse. Dédalo foi julgado e fugiu para Creta.
Em Creta, o rei Minos o contratou. A primeira grande obra: uma vaca oca de madeira para que Pasífae, esposa de Minos, consumasse sua paixão pelo touro sagrado. Dessa união nasceu o Minotauro. A segunda grande obra: o Labirinto, para aprisionar o Minotauro.
Ovídio (Metamorfoses, Livro VIII) descreve o Labirinto como um edifício de caminhos infinitos, onde cada corredor levava a outro corredor, cada porta abria para outra porta, e a saída era tão confusa quanto a entrada. Dédalo o construiu tão bem que quase ele próprio não encontrou a saída ao terminar.
Quando Teseu escapou do Labirinto com o fio de Ariadne, Minos culpou Dédalo. Trancou-o dentro da própria criação, junto com o filho Ícaro. As saídas terrestres e marítimas estavam fechadas. Dédalo, preso na obra que criou, olhou para cima. O único caminho era o que não existia. Construiu as asas.
Plutarco (Quaestiones Convivales, IX.15) menciona que Dédalo foi o primeiro a representar estátuas com olhos abertos e pernas separadas. Antes dele, as estátuas gregas tinham olhos fechados e pernas juntas. Dédalo deu movimento ao que era estático. A ironia é que o inventor do movimento ficou imóvel, preso na própria obra.
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"Ele mal conseguiu encontrar a saída da própria obra." (Ovídio, Metamorfoses VIII)
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II
O Diagnóstico
O que os gregos estavam registrando é o padrão do criador que se torna prisioneiro da própria competência. A mesma habilidade que construiu a solução construiu a armadilha.
Jung descreveria Dédalo como o arquétipo do Senex criativo: o mestre que domina a técnica mas perdeu a capacidade de se renovar. O Senex constrói estruturas. Quando as estruturas ficam complexas demais, o Senex fica preso nelas. Não por incompetência, mas por excesso de competência. Ele sabe demais sobre o labirinto para sair dele com simplicidade.
Freud reconheceria aqui a compulsão de domínio. A necessidade de controlar o ambiente através da construção. Dédalo não aceita problemas sem solução. Ele constrói para cada demanda. E a construção se torna o modo default de existir. Quando o problema é a própria construção, o criador entra em loop: tenta construir a saída da construção, o que gera mais construção.
Hillman leria Dédalo pelo viés da literalização. O labirinto é literal para Dédalo, mas é metáfora para nós. O empreendedor que criou um negócio tão complexo que não consegue mais sair. O acadêmico que construiu uma tese tão intrincada que perdeu a pergunta original. O programador que criou um sistema tão sofisticado que precisa dedicar todo o tempo a mantê-lo.
O padrão é reconhecível em qualquer pessoa de alta competência técnica. Quanto mais capaz o construtor, mais elaborada a construção. Quanto mais elaborada a construção, mais difícil a saída. As asas de cera que Dédalo inventa são a saída do gênio: uma solução fora do sistema. Mas mesmo essa solução cobra preço. Ícaro morreu porque o pai construiu as asas do mesmo jeito que construiu tudo: com brilhantismo e com limite.
O diagnóstico é direto: se você construiu algo do qual não consegue mais sair, o problema não é falta de competência. É excesso.
Gregory Bateson, teórico de sistemas, descreveu o double bind: a situação em que a pessoa recebe duas mensagens contraditórias e não pode sair do sistema que as emite. Dédalo está num double bind perfeito. Ele é brilhante demais para aceitar a prisão e brilhante demais para encontrar uma saída simples. Toda solução que imagina é complexa. E toda complexidade adiciona mais labirinto.
A psicologia ocupacional reconhece esse padrão como burnout de alta competência. A pessoa que sabe fazer demais nunca encontra o ponto de parar. Cada problema resolvido gera dois novos problemas que só ela pode resolver. O labirinto se expande na mesma velocidade que a habilidade de navegá-lo. E a saída exige algo que a competência não ensina: parar de construir.
O psicanalista Christopher Bollas descreve o que chama de 'objeto transformacional': algo que a pessoa usa para se transformar continuamente. Para Dédalo, o objeto transformacional é a construção em si. Ele se transforma construindo. E quando para de construir, não sabe mais quem é. O labirinto não é obra. É identidade. E sair da obra é sair de si.
III
O Espelho
Qual é o labirinto que você construiu e dentro do qual está preso?
O negócio que funciona perfeitamente mas que te consome. A rotina que você projetou para ser eficiente e que agora controla você. O sistema que era para resolver a vida e virou a vida inteira.
Dédalo saiu. Mas precisou olhar numa direção que nunca tinha olhado: para cima. Fora do sistema.
A pergunta é: existe uma saída que você não está vendo porque ela não faz parte do labirinto?
O labirinto de Dédalo tem uma assinatura clara: ele é bonito por dentro. As paredes são bem feitas. Os corredores são elegantes. A armadilha é esteticamente impecável. Se o sistema que te prende é bem-feito, se a rotina que te sufoca é eficiente, se a complexidade que te imobiliza foi construída com excelência, você pode estar dentro do labirinto de Dédalo. E a saída, como ele descobriu, não está nas paredes. Está acima delas.
Até o próximo diagnóstico.
Até o próximo diagnóstico.
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