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Cú Chulainn vencia qualquer batalha e perdia para si mesmo, e esse é o tipo de vitória que eu não desejo a ninguém. A fúria que torna alguém imbatível cobra aluguel por dentro. O espelho de hoje incomoda.
Um dos olhos afundou até o fundo do crânio. O outro projetou-se para fora, do tamanho de uma tigela. A boca rasgou até as orelhas. O coração batia como tambor de guerra. O calor do corpo era tão intenso que derretia a neve a trinta passos de distância.
Não era raiva. Era o ríastrad, a distorção do herói, o furor de combate que transformava Cú Chulainn em algo que nenhum inimigo conseguia olhar de frente. Vencia tudo. E ao fim, o consumia.
I
O Mito
Cú Chulainn, "o Cão de Culann", é o herói central do Ciclo do Ulster da mitologia irlandesa medieval, cujas narrativas foram preservadas em manuscritos dos séculos XII e XIII, sobretudo no Lebor na hUidre ("Livro da Vaca Parda", c. 1100) e no Book of Leinster (c. 1160).
As fontes primárias principais são: Táin Bó Cúailnge ("O Roubo do Gado de Cooley", a epopeia central do Ciclo), Fled Bricrenn ("O Banquete de Bricriu"), Togail Bruidne Dá Derga e as narrativas das Aided (mortes de heróis). Estudiosos modernos como T.F.
O'Rahilly em Early Irish History and Mythology (1946) e Proinsias Mac Cana em Celtic Mythology (1970) são referências essenciais.
Seu nome de nascença era Sétanta, filho de Deichtine (irmã ou filha do rei Conchobar mac Nessa de Ulster) e, em versões distintas, do deus Lugh ou do próprio Conchobar.
O nome Cú Chulainn ("Cão de Culann") surgiu quando, ainda criança, ele matou o feroz cão de guarda do ferreiro Culann, e prometeu servir como seu substituto até que um filhote novo fosse treinado.
Desde essa primeira proeza, sua sina está marcada: a grandeza como herói é inseparável da obrigação e do custo.
O ríastrad (riastrad ou lon láith, "fúria do guerreiro") é descrito com detalhe clínico aterrorizante no Táin Bó Cúailnge (tradução de Thomas Kinsella, The Táin, 1969, e de Ciaran Carson, The Táin: A New Translation, 2007): "O primeiro contorção de Cú Chulainn chegou sobre ele...
Seu corpo todo estremeceu dentro da pele. Seus pés e canelas e joelhos viraram para trás. Seus calcanhares e panturrilhas viraram para a frente. Os tendões de seu pescoço foram para a frente da garganta, onde cada nó ficou grande como a cabeça de um recém-nascido.
Seu rosto ficou vermelho como brasa. Ele engoliu um olho tão fundo na cabeça que um garça silvagem dificilmente alcançaria no crânio e o arrancaria de volta; o outro projetou-se para fora, da bochecha." O calor de seu furor criava vapor, derretia neve, fazia a lança tremer na mão.
A genealogia heroica de Cú Chulainn é marcada pelos geasa, obrigações rituais e tabus que, se violados, acarretam consequências sobrenaturais. Ele tem múltiplos geasa, entre os quais: nunca recusar comida oferecida por uma mulher; nunca comer carne de cão (o animal que dá seu nome).
A morte de Cú Chulainn, narrada no Aided Con Culainn, é orquestrada exatamente por seus inimigos manipulando seus geasa em sequência.
Ele é forçado a comer carne de cão (violando o tabu do nome), enfraquecido espiritualmente, e então abatido, não por derrota em combate igual, mas por feitiçaria e violação forçada de seus próprios princípios.
A deusa A Morrígan aparece em múltiplos momentos de sua vida: como amante rejeitada que se vinga atacando-o durante a batalha do Táin (em forma de enguia, lobo e vaca), como profetessa de sua morte, e ao final, como corvos pousados em seus ombros enquanto ele, amarrado a uma coluna para morrer de pé, ainda afastava inimigos com o último olhar.
II
O Diagnóstico
O ríastrad é o arquétipo mais preciso que a mitologia oferece para o estado que a psicologia contemporânea chama de reatividade de alta intensidade, a ativação do sistema nervoso simpático além do nível consciente de controle, onde o comportamento é gerido por mecanismos de sobrevivência pré-conscientes que não distinguem ameaça real de ameaça percebida, aliado de inimigo, batalha necessária de batalha destrutiva.
Jung, em Instinto e Inconsciente (em A Estrutura e a Dinâmica da Psique, CW vol. 8), descreve a irrupção de conteúdo inconsciente autônomo como possessão arquetípica: o ego perde o controle e o complexo governa. Cú Chulainn não escolhe o ríastrad, o ríastrad acontece.
E enquanto está em curso, não há distinção moral operante. O Táin registra que após as grandes batalhas, Cú Chulainn precisava ser imerso em barris de água para esfriar, o primeiro barril explodia em vapor, o segundo esquentava, o terceiro ficava morno.
O processo de retorno à temperatura humana era literal e gradual.
A questão diagnóstica não é a existência da fúria. É a relação com ela. O ríastrad de Cú Chulainn é, dentro do universo narrativo do Táin, necessário: sem ele, o Ulster seria derrotado pelo exército da rainha Medb de Connacht. A fúria tem função real.
O problema é que a fúria não distingue o momento em que a função encerrou. Ela continua depois que o inimigo foi derrotado; ela escala mais do que o necessário; ela deixa destruição colateral que o herói consciente não teria aprovado.
Num plano contemporâneo: a pessoa com alta capacidade de mobilização emocional intensa (raiva, paixão, determinação extrema) frequentemente deve a essa capacidade suas maiores vitórias. E frequentemente deve a ela, também, suas maiores perdas relacionais, profissionais ou pessoais.
A questão não é erradicar a intensidade, é desenvolver o que os psicólogos do trauma Daniel Siegel (Mindsight, 2010) e Peter Levine (Waking the Tiger, 1997) chamam de janela de tolerância: a capacidade de conter a intensidade sem ser consumido por ela.
Os geasa de Cú Chulainn são tecnologia mitológica para um problema real: o herói de grandeza excepcional acumula obrigações, reputações e vinculos que se tornam, progressivamente, uma rede de vulnerabilidades que inimigos sofisticados podem explorar.
Cada comprometimento que o herói fez em momento de força (nomeou-se Cão de Culann, comprometeu-se com cada obrigação ritual) cria um nó na rede. Ao fim, a morte não vem do campo de batalha, vem da impossibilidade de navegar os próprios vinculos sem contradição.
A fúria que faz o herói invencível em combate não equipa o herói para a teia de dilemas morais que sua própria grandeza cria.
Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces, observa que o herói trágico distingue-se do herói completo por parar no caminho da jornada: completa a ida (o combate, a vitória) sem a volta (a integração do que aprendeu, o retorno transformado à comunidade).
Cú Chulainn é o herói perfeito da ida, o maior guerreiro de toda a Irlanda mítica, e o herói incompleto da volta. Ele nunca se torna sábio sobre si mesmo. Nunca aprende a relação com A Morrígan (que é, no plano simbólico, sua própria sombra profética).
Nunca resolve a contradição entre a fúria necessária e a fúria destrutiva.
A pergunta para hoje: qual é o seu ríastrad? Qual capacidade sua é, simultaneamente, sua maior força e seu maior risco, não para os inimigos, mas para o que você ama? E quais são seus geasa, os compromissos, os padrões, as auto-definições que, em momento de pressão extrema, podem ser usados contra você por quem conhece suas vulnerabilidades?
A inscrição: O ríastrad não distinguia inimigo de aliado, batalha de massacre. Cú Chulainn vencia com ele. E morria por ele, não na guerra, mas na teia de geasa que sua própria grandeza havia tecido ao redor de si. A fúria mais perigosa não é a que destrói o inimigo. É a que, no fim, não sabe parar.
Até o próximo diagnóstico.
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