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O poder que se sustenta pela eliminação do que vem depois não é poder. É pânico institucionalizado. Os gregos sabiam que toda geração teme a seguinte, e registraram esse medo num titã que devorava os próprios filhos para não perder o trono.
I
O Mito
Cronos era o mais novo dos titãs, filho de Urano (o Céu) e Gaia (a Terra). Hesíodo, na Teogonia, conta que Urano odiava os filhos e os mantinha presos no interior de Gaia. A terra sofria com o peso. Gaia forjou uma foice de adamantino e pediu aos filhos que enfrentassem o pai. Só Cronos aceitou.
Ele emboscou Urano. Castrou-o com a foice. Do sangue que caiu na terra nasceram as Erínias (as Fúrias), os Gigantes e as ninfas Melíades. Da espuma que caiu no mar nasceu Afrodite. Cronos tomou o trono do pai.
Mas Urano, antes de cair, profetizou: Cronos seria destronado por um dos próprios filhos.
Cronos se casou com Reia. Tiveram seis filhos: Héstia, Deméter, Hera, Hades, Poseidon e Zeus. Cronos engoliu cada um ao nascer. Não matou. Engoliu. Vivos, inteiros, presos dentro do pai.
Reia, grávida de Zeus, fugiu para Creta. Pariu em segredo numa caverna do monte Ida. Entregou a Cronos uma pedra enrolada em panos. Ele a engoliu, convicto de que era o sexto filho.
Zeus cresceu escondido. Adulto, voltou. Com ajuda de Métis, deu a Cronos uma poção que o obrigou a regurgitar os filhos, em ordem reversa: primeiro a pedra, depois Poseidon, Hades, Hera, Deméter, Héstia. Todos vivos. Todos crescidos.
A guerra durou dez anos: os deuses olímpicos contra os titãs. Os olímpicos venceram. Cronos foi preso no Tártaro. A profecia se cumpriu exatamente como havia sido dita.
A tradição órfica acrescenta que Cronos, depois de engolir os filhos, dormiu. O sono de Cronos é o sono da autoridade que acredita ter resolvido o problema. O líder que elimina a ameaça e relaxa. Mas dentro dele, a ameaça crescia. Zeus se formou dentro do próprio Cronos. A ameaça não foi eliminada. Foi incubada.
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"Cronos engolia cada filho ao nascer." (Hesíodo, Teogonia)
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II
O Diagnóstico
O que os gregos estavam registrando é o padrão da autoridade que, em vez de se renovar, devora o que vem para substituí-la. Não por maldade. Por medo estrutural de obsolescência.
Freud identificou nesse mito o terreno fértil do que chamou de conflito geracional. O pai que vê no filho uma ameaça não está projetando o futuro. Está projetando o próprio passado: ele sabe o que fez ao pai dele. E teme que o ciclo se repita. A violência que gerou o poder é a mesma que ameaça desfazê-lo.
Jung descreveria Cronos como o Senex patológico. O arquétipo do Senex é o velho sábio, o guardião da ordem, o que conserva o que funciona. Na versão saudável, o Senex abre espaço para o Puer (a juventude, a renovação). Na versão patológica, o Senex devora o Puer. Não permite que o novo nasça porque o novo é sentido como sentença de morte do velho.
Hillman aprofundaria dizendo que Cronos não engole por crueldade. Engole por incorporação. Tenta absorver o que deveria soltar. Manter dentro o que deveria estar fora. É a metáfora exata do líder, do pai, do mentor que, em vez de permitir que o sucessor cresça separado, absorve-o, controla-o, sufoca-o, para que nunca exista como ameaça independente.
O padrão é onipresente. O gestor que contrata pessoas brilhantes e depois impede que tenham autonomia. O pai que diz querer que o filho cresça mas sabota silenciosamente cada tentativa de independência. O fundador que não consegue delegar porque delegar significa admitir que outra pessoa pode fazer.
O diagnóstico é claro: Cronos não foi destronado apesar de ter engolido os filhos. Foi destronado por causa disso. O que é engolido não desaparece. Cresce dentro. E sai com mais raiva.
Erik Erikson, na teoria do desenvolvimento psicossocial, descreve o estágio da generatividade versus estagnação. A generatividade é a capacidade do adulto de criar e sustentar a próxima geração. A estagnação é o oposto: a incapacidade de ceder espaço, de permitir que o novo supere o velho. Cronos é a estagnação em forma mitológica. Ele gera, mas não permite que o gerado cresça fora dele.
O detalhe mais perturbador do mito é que os filhos cresceram dentro dele. Cronos engoliu para impedir o crescimento. O crescimento aconteceu mesmo assim. É exatamente o que a repressão faz: o conteúdo não desaparece. Desenvolve-se no escuro. E quando finalmente sai (quando Zeus força a regurgitação), sai maior, mais forte, e mais furioso do que se tivesse sido deixado crescer à luz.
Na teoria de sistemas familiares de Murray Bowen, o padrão de Cronos aparece como fusão emocional: o pai que não diferencia sua identidade da identidade dos filhos. Os filhos são extensão do pai, não entidades separadas. Engolir é fundir. E a fusão impede a diferenciação que o sistema precisa para sobreviver.
III
O Espelho
Existe algo novo tentando nascer ao seu redor que você está, conscientemente ou não, engolindo?
Uma ideia de alguém da sua equipe que você descartou rápido demais. Um filho que está tentando fazer diferente e você está corrigindo de volta para o seu jeito. Um sucessor que você diz estar preparando mas que nunca está "pronto o suficiente".
Cronos queria controlar o tempo. Mas o tempo, por definição, não pode ser controlado. Ele só pode ser vivido.
A pergunta é: você está abrindo espaço para o que vem depois de você, ou está engolindo?
O teste de Cronos tem uma pergunta simples: quando foi a última vez que alguém que você formou superou você, e a sua primeira reação foi alegria? Se a primeira reação foi desconforto, comparação, ou a necessidade de lembrar que você é o original, a foice de adamantino já está na sua mão. E a profecia, como sempre, se cumpre.
Até o próximo diagnóstico.
Até o próximo diagnóstico.
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