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Pior do que não saber é saber e não ser ouvido. Pior do que estar errado é estar certo e assistir a consequência acontecer exatamente como previu, enquanto as pessoas ao redor explicam, depois, que ninguém podia ter antecipado aquilo.
I
O Mito
Cassandra era filha de Príamo e Hécuba, reis de Troia. Apolodoro (Biblioteca, III.12) conta que Apolo se apaixonou por ela e, como cortejo, ofereceu-lhe o dom da profecia. Cassandra aceitou o dom. Depois, recusou Apolo.
Um deus rejeitado não retira o presente. Retira a utilidade. Apolo não tirou a profecia. Tirou a credibilidade. Cassandra continuaria vendo o futuro com perfeição absoluta. Ninguém nunca acreditaria nela.
Ésquilo, no Agamenon (a primeira peça da Oresteia), retrata Cassandra em seu momento mais devastador. Ela está em Argos, prisioneira de Agamenon após a queda de Troia. Diante do palácio, ela vê tudo: vê o sangue que será derramado, vê Clitemnestra preparando a armadilha, vê a morte de Agamenon e a sua própria. Grita. Descreve. Detalha. O coro (representando o povo) não entende. Acha que ela é louca. Ela entra no palácio sabendo que vai morrer.
Antes de Troia cair, Cassandra havia avisado. Disse que o cavalo era armadilha. Ninguém ouviu. Disse que Páris traria a destruição. Ninguém ouviu. Disse que os muros cairiam. Ninguém ouviu. Em cada momento crítico, a verdade foi dita. Em cada momento crítico, a verdade foi ignorada.
A maldição de Cassandra não é a visão. É a solidão da visão. Ver sem ser crida. Saber sem poder mudar.
Licofron, em Alexandra (poema do século III a.C.), apresenta Cassandra como narradora de todo o poema, profetizando em linguagem tão cifrada que os leitores, assim como os troianos, mal entendem. A forma do poema replica a maldição: a verdade está ali, acessível, e ninguém a decodifica. A literatura imita a tragédia.
Virgílio (Eneida, Livro II) descreve Cassandra sendo arrastada do templo de Atena por Ájax, o Menor, durante a queda de Troia. Ela se agarrava à estátua da deusa. Foi arrancada. Violada. Escravizada. A mulher que via tudo não conseguiu se proteger de nada. A visão sem poder de ação é o refinamento mais cruel do castigo de Apolo.
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"Ela gritou a verdade. O coro não entendeu." (Ésquilo, Agamenon)
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II
O Diagnóstico
O que os gregos estavam registrando é o padrão da pessoa cuja percepção é precisa e cuja comunicação é sistematicamente desacreditada. Não por falta de evidência. Por algo mais profundo: a recusa coletiva de ouvir o que não se quer saber.
Jung reconheceria em Cassandra a manifestação da função intuitiva num ambiente que privilegia a sensação e o pensamento concreto. A intuição vê padrões antes que eles se manifestem materialmente. Mas como não pode apontar para dados tangíveis no momento em que fala, é descartada. "Pressentimento não é argumento." "Não baseie decisões em intuição." O ambiente racional trata a percepção intuitiva como ruído.
Freud identificaria aqui a negação coletiva (Verleugnung). Não é que as pessoas não entendam Cassandra. É que entender implicaria agir, e agir implicaria enfrentar algo que o grupo prefere não enfrentar. A função de não acreditar em Cassandra não é proteger contra informação falsa. É proteger contra informação verdadeira que exigiria mudança.
Hillman chamaria isso de assassinato da mensageira. Em sistemas hierárquicos, a pessoa que traz o alerta é frequentemente punida, não por estar errada, mas por incomodar. O alerta gera desconforto. O desconforto gera rejeição do alerta. A rejeição do alerta gera rejeição de quem alertou.
O padrão é epidêmico. A analista que vê o risco no projeto e é rotulada como "negativa". O filho que percebe a disfunção familiar e é tratado como o problemático. O funcionário que aponta a falha no processo e é o primeiro a ser demitido na reestruturação.
O diagnóstico é duplo. Para quem é Cassandra: a dor não é estar errada. É estar certa e ser tratada como louca. Para quem ignora Cassandra: o problema não é falta de aviso. É escolha de não ouvir.
O sociólogo Everett Hughes cunhou o termo dirty work para descrever tarefas que alguém precisa fazer mas que o grupo prefere não reconhecer. Cassandra faz o dirty work epistêmico: ela traz a informação que ninguém quer processar. E como ninguém quer processá-la, o mensageiro é descartado junto com a mensagem.
Na psicologia organizacional, existe o conceito de groupthink (pensamento de grupo), descrito por Irving Janis. O grupo que precisa manter consenso para funcionar desenvolve mecanismos para silenciar vozes dissonantes. Cassandra é a voz dissonante por excelência. Não porque discorda por discordar. Porque vê o que o grupo se recusa a ver. E o grupo, para manter a coesão, precisa que ela esteja errada. Mesmo quando não está.
Em ambientes corporativos, existe o fenômeno chamado 'shoot the messenger' (mate o mensageiro). Pesquisas de Leslie John (Harvard Business School) mostram que portadores de más notícias são sistematicamente avaliados como menos competentes e menos confiáveis. O problema não é a notícia. É a associação: quem traz o desconforto se torna a fonte do desconforto. Cassandra não é desacreditada por falar mal. É desacreditada por falar o que ninguém quer ouvir.
III
O Espelho
Existe algo que você vem dizendo há tempo e que ninguém ao seu redor leva a sério?
Não uma opinião controversa. Uma percepção que se repete, que se confirma, que se materializa exatamente como você previu, e que mesmo assim não muda o comportamento de quem precisava ouvir.
Ou, no outro lado: existe alguém ao seu redor que você vem descartando como alarmista, como negativa, como dramática, e cujos alertas continuam se confirmando?
Cassandra morreu sabendo tudo. Morreu sem que ninguém soubesse que ela sabia.
A pergunta é: quem ao seu redor está falando a verdade que você está escolhendo não ouvir?
Existe um indicador simples do padrão Cassandra. Conte quantas vezes nos últimos dois anos você disse algo que foi ignorado e depois se comprovou correto. Se o número for alto, a próxima pergunta é mais difícil: você ainda está falando? Ou já aprendeu a ficar quieto porque falar a verdade é mais caro do que engoli-la?
Até o próximo diagnóstico.
Até o próximo diagnóstico.
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