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Ele subiu mais do que qualquer outro herói. Domou Pégaso. Matou a Quimera. Foi ovacionado em todas as cortes. E aí, num dia muito comum, decidiu que ia até o Olimpo. Os deuses não responderam. Apenas deixaram o cavalo continuar. Belerofonte caiu sozinho. Pégaso voltou sem ele.
I
O Mito
Belerofonte é filho de Glauco (ou de Posêidon, em outra versão), príncipe de Corinto. Homero (Ilíada, VI.155-205) narra a versão mais conhecida da história. O nome original do herói é Hipônoo, "aquele que pensa em cavalos". Vira Belerofonte ("matador de Belero") depois de matar acidentalmente um homem chamado Belero. Vai a Tirinto purificar-se, hospedado pelo rei Proeto.
A esposa de Proeto, Esténia, apaixona-se por Belerofonte. Ele a rejeita. Ela acusa-o falsamente de tentativa de violação. Proeto não quer matar diretamente o hóspede (violaria as leis de hospitalidade), então o envia ao rei Iobates, da Lícia, com uma carta selada que pedia a morte do mensageiro. Belerofonte leva a própria sentença sem saber. Iobates lê a carta. Também não quer matar diretamente. Em vez disso, dá ao herói uma série de tarefas impossíveis.
A primeira tarefa é matar a Quimera, monstro com cabeça de leão, corpo de cabra e cauda de serpente, que cuspia fogo e devastava a região. Para essa missão, Atena auxilia Belerofonte com um freio de ouro com o qual ele consegue domar Pégaso, o cavalo alado nascido do sangue de Medusa quando Perseu a decapitou. Píndaro (Olímpicas, XIII.60-92) detalha o sonho de Belerofonte em que Atena aparece e lhe entrega o freio. Belerofonte, montado em Pégaso, voa sobre a Quimera, espeta uma lança com chumbo na boca da besta, o chumbo derrete pelo fogo da própria Quimera, sufoca o monstro. Vitória.
Iobates dá outras tarefas: derrotar os Sólimos, vencer as Amazonas, eliminar uma armadilha que envolveu nobres lícios. Belerofonte vence todas. Iobates entende que é claramente filho dos deuses, dá a filha em casamento e divide o reino. Belerofonte chega ao topo. Tem fama, esposa, reino, e o cavalo alado.
E aqui o mito vira. Homero diz, em um verso esparso da Ilíada: "tornou-se odioso a todos os deuses". Píndaro, mais explícito (Ístmicas, VII.44-47), conta que Belerofonte tentou voar até o Olimpo montado em Pégaso. Zeus envia um moscardo (gádfly) que pica Pégaso. O cavalo se assusta, dá um coice, e Belerofonte despenca dos céus. Cai numa planície da Cilícia, espinheiral. Sobrevive. Mas fica aleijado, cego, errante. Vagueia pelos campos da Aleia, evitando os homens, comendo a própria alma, segundo Homero. Morre solitário.
Pégaso continua sozinho, voa até os estábulos de Zeus, e passa a carregar os raios do deus supremo. O cavalo cumpre a tarefa divina. O cavaleiro foi descartado.
Diferentes fontes oferecem diferentes interpretações para a queda. Para uns, é hubris pura: o mortal que desafia os deuses ao querer entrar no Olimpo. Para outros, mais sutilmente, é a tragédia do herói que não soube parar. Belerofonte cumpre todas as tarefas. Mas tarefa cumprida não vira sabedoria automática. Ele continua se comportando como herói em campo de batalha quando a fase exigia outra coisa: vida adulta, governo, casamento, sucessão.
II
O Diagnóstico
Joseph Campbell, em O Herói de Mil Faces, descreve o ciclo padrão da jornada do herói: chamado, travessia, provas, vitória, retorno. A última etapa, o retorno, é frequentemente a mais difícil. Vencer monstros é, paradoxalmente, mais fácil do que voltar à vida cotidiana e integrar a vitória. Belerofonte é o caso clássico do herói que falha na fase do retorno. Vence a Quimera, derrota os Sólimos, casa-se com a princesa, ganha metade do reino. E não consegue parar de ser herói. Quando a vida pede outra coisa que não combate, ele tenta inventar nova batalha. A próxima batalha é o Olimpo. Cai.
James Hillman, em O Código do Ser, alerta para o que ele chama de "fantasia de subida". O mito americano contemporâneo, ele diz, vendeu a ideia de que sucesso é subir e sucesso ainda maior é subir mais. Mas a alma humana, como toda forma orgânica, tem ciclos. Sobe, mas precisa também atravessar, descer, repousar, criar raízes. Quem só sabe subir não atravessa. Quem nunca desce não cria. Belerofonte é o homem que confundiu vida com escalada vertical contínua.
Robert Bly, em Iron John, observa que o herói que não tem mentor para a fase pós-vitória vira Belerofonte. Existe iniciação para juventude (matar dragões), existem ritos para a maturidade (responsabilidade, governo, paternidade), e existem ritos para a velhice (sabedoria, transmissão). A cultura ocidental moderna eliminou os dois últimos. O resultado é uma população de homens que venceram suas Quimeras (carreira, dinheiro, reconhecimento) e não sabem o que fazer depois. Continuam tentando subir. Algumas vezes, voam até o Olimpo. Geralmente, caem.
A psicologia da meia-idade, descrita por Jung em Os Estágios da Vida, identifica o ponto exato. Por volta dos 35-45 anos, o adulto que viveu inteiro a primeira metade da vida em modo conquista (carreira, status, ascensão) sente, frequentemente sem entender, uma vontade difusa de outra coisa. Jung chama isso de chamado para a individuação: descer, integrar, encontrar sentido em vez de êxito. Quem ignora esse chamado e tenta apenas redobrar a aposta da primeira metade (mais carreira, mais status, mais ascensão) entra em território Belerofonte. O voo até o Olimpo é a empresa que se quer fazer aos 50 com a mesma energia que se fez aos 25, sem reconhecer que a energia, o corpo e a vida pediam outra forma.
Outro diagnóstico crítico: Belerofonte cai sozinho. Ninguém vai com ele ao Olimpo. Pégaso continua. A esposa fica em casa. Os filhos seguem suas vidas. Os antigos aliados estão ocupados. A queda é solitária. A tragédia do herói da segunda metade é que a primeira metade convenceu todo mundo (inclusive ele) de que ele era invencível. Ninguém oferece ajuda. Ninguém adverte. Ninguém intervém. Quando ele cai, ninguém estava pronto para amparar.
Há um aspecto disso que merece atenção especial. Belerofonte foi falsamente acusado por Esténia. Isso é trauma não-resolvido. A injustiça da acusação, mesmo depois de ele ter ido para a Lícia e vencido tudo, talvez nunca tenha sido nomeada por ele. Quem é traumatizado e nunca processa o trauma frequentemente compensa com hiper-realização. Continua provando que merece. Continua fazendo. Subir até o Olimpo pode ser, em leitura psicológica, a tentativa final de provar a inocência que nunca foi reconhecida lá no início. Um curador de pessoas chamaria isso de hipervigilância existencial. Belerofonte chamou de heroísmo.
A cultura contemporânea está cheia de Belerofontes. O empresário que vendeu a empresa por 50 milhões e em vez de descansar montou outra. O autor que vendeu um milhão de livros e está angustiado se o próximo vai vender mais. O atleta que não consegue se aposentar. O médico de 70 anos que se sente perdido fora do hospital. Não há mal em continuar. Mas há diferença entre continuar por amor à coisa e continuar porque parar é encarar o vazio que a hiper-realização cobria.
A pergunta para hoje. O que você venceu, e ainda não soube celebrar e parar? Quais são as suas Quimeras já mortas, mas que você ainda continua atacando como se estivessem vivas? Quantas vezes você se ofereceu para tarefas impossíveis nos últimos doze meses não porque o mundo precisava, mas porque parar te assustaria mais que cair?
E a pergunta complementar. Quem está com você? Porque o herói da segunda metade da vida não é o que mata mais monstros. É o que aprende a estar acompanhado. Belerofonte caiu sozinho porque havia construído uma identidade em que a solidão era prova de força. Pégaso continuou. O cavaleiro morreu errante.
Há um custo em parar de subir. O custo é admitir que a primeira metade da vida acabou. Que a próxima fase exige coisas diferentes: descida, vínculo, transmissão, presença. Quem não admite, paga em queda. Quem admite, talvez não voe mais até o Olimpo, mas chega à velhice com vida ainda, gente em volta, e algo a ensinar.
Até o próximo diagnóstico.
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