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Frigg foi a cada coisa no mundo e pediu juramento. Fogo, água, ferro, pedra, veneno, serpente, besta, árvore, doença, cada uma prometeu não machucar o filho. E ela obteve a promessa de todas. Todas, exceto uma. O visco era tão jovem, tão pequeno, tão sem força aparente que parecia desnecessário pedir-lhe algo. E foi o único que matou.
I
O Mito
Baldr (Balðr em nórdico antigo) é filho de Odin e Frigg, o mais amado de todos os Æsir. A Edda Prosaica de Snorri Sturluson (Gylfaginning, capítulos 49 e 50) e a Völuspá (Edda Poética, estrofes 31-34) são as fontes primárias.
Snorri descreve Baldr em superlativo absoluto: "O melhor, e todos o louvam. É tão belo e tão brilhante que a luz emana dele; há uma flor tão branca que é comparada à sua sobrancelha.
É o mais sábio dos Æsir, o mais eloquente e o mais gracioso, mas uma de suas características é que nenhuma de suas sentenças pode ser realizada."
Baldr começa a ter sonhos de mau presságio, sonhos que profetizam sua morte. Frigg, em resposta, percorre o mundo inteiro e obtém o juramento de toda coisa criada: todos os metais, todas as pedras, toda árvore, todo veneno, toda besta, toda doença, fogo, água, terra. Nada pode machucar Baldr.
Os deuses fazem disso um jogo: ficam jogando paus, pedras, flechas em Baldr durante as assembleias, e tudo quica inofensivo. Baldr ri. Os deuses riem. Ninguém se machuca.
Mas Frigg havia deixado de pedir um juramento. O visco (mistilteinn, muérdago) crescia a oeste de Valhölla, era jovem, era pequeno, parecia fraco demais para representar ameaça. Ela não pediu o juramento a ele.
Loki descobriu isso. Disfarçado de velha, foi até Frigg e obteve a informação da única exceção. Então foi até o cego Höðr, irmão de Baldr, que não participava do jogo por não enxergar, e ofereceu-se para guiá-lo. Colocou uma haste de visco em sua mão. Orientou a pontaria. Höðr lançou. O visco atravessou Baldr. Ele caiu morto.
A narrativa não termina na morte. Segue em duas direções paralelas. Primeiro: Hermóðr monta Sleipnir (o cavalo de oito pernas de Odin) e galopa durante nove noites até Hel para pedir o retorno de Baldr.
A senhora dos mortos concorda, com uma condição: cada ser do mundo, vivo ou morto, deve chorar por Baldr. Todos choram. Cada ser, cada planta, cada pedra. Todos, exceto uma: Þökk, uma gigantessa que se recusa, dizendo que Baldr não lhe prestou nenhum serviço.
A suspeita geral é que Þökk é Loki disfarçado. O choro universal não se completa. Baldr permanece nos reinos da morte até depois de Ragnarök, quando ele retornará.
Segundo: a punição de Loki. Os Æsir capturam Loki, acorrentam-no nas entranhas da terra com as entranhas de seu próprio filho Narfi, com uma serpente gotejando veneno sobre seu rosto.
A esposa de Loki, Sigyn, segura uma tigela para aparar o veneno, mas quando vai esvaziar a tigela, algumas gotas caem no rosto de Loki, que se contorce em agonia. Os nórdicos explicavam os terremotos assim.
Há uma versão mais antiga, preservada nos fragmentos da Gesta Danorum de Saxo Grammaticus (circa 1200 d.C.), que torna Baldr menos perfeitamente luminoso: nela, Baldr é um guerreiro que compete com Höðr pelo amor de Nanna. A versão mais mítica da Edda é a que prevaleceu no imaginário coletivo.
II
O Diagnóstico
A morte de Baldr é o mito nórdico do ponto cego, não como falha moral, mas como estrutura de toda proteção que se presume completa. Frigg não foi preguiçosa. Não foi negligente por descaso. Foi por lógica razoável: o visco era jovem demais, fraco demais, inofensivo demais para ser ameaça.
A mesma lógica que, em gestão de risco, chamamos de "ameaça não-mapeada não por impossibilidade, mas por irrelevância aparente". E é exatamente dessa categoria de risco que os sistemas complexos quebram.
Jung, em Aion, analisa o paradoxo da "perfeição que contém seu próprio colapso": sistemas que alcançam um grau de integração tão alto que o único vetor de ataque restante é o que estava além do raio da atenção. Baldr não morreu apesar da proteção de Frigg.
Morreu através de uma exceção que a proteção criou, ao tornar tudo inofensivo, tornou o único inofensivo-real invisível como ameaça.
O papel de Loki aqui é diferente de Fenrir. Loki não age por malícia pura, age como trickster, o arquétipo da perturbação necessária que Hermione Granger chamaria de "aquilo que as regras não preveem".
Joseph Campbell, em O Poder do Mito, analisa o trickster como função essencial: ele revela o ponto onde o sistema tem excesso de confiança. Loki não criou a vulnerabilidade de Baldr. Encontrou-a. A vulnerabilidade já existia, em cada decisão que Frigg tomou de não pedir o juramento ao visco.
Höðr, o cego, é o veículo mais agudo do mito. Ele não vê o que está fazendo. Não tem intenção de matar o irmão. É arma sem vontade própria, guiado por quem sabia o que ele não via.
O diagnóstico aqui é sobre os processos inconscientes que executamos sem visão, hábitos, padrões relacionais, respostas automáticas que são "orientados" por forças que não examinamos, e que atingem exatamente o que era mais precioso.
A condição de Hel, o choro de tudo, é a contraface do mito. Para que Baldr retorne, a totalidade do mundo deve demonstrar luto. E falha por uma exceção: Þökk/Loki recusa.
O retorno não pode ser garantido quando há uma única parte do sistema que não participa do processo de cura. Isso tem leitura psicológica precisa: a integração de uma perda exige que todas as partes da psique participem do luto.
Se uma parte, por orgulho, por rigidez, por recusa de sentir, fica de fora, a reintegração não ocorre.
Marion Woodman, em Dançando no Chão do Fogo, descreve o que acontece quando um sistema psíquico alcança o que parece ser completude e então experimenta colapso pelo detalhe não-mapeado: a sensação não é apenas de perda, mas de traição pelo próprio sistema de proteção. Frigg fez tudo certo.
E mesmo assim. Essa estrutura, ter feito tudo certo e mesmo assim, é uma das mais difíceis de integrar sem colapso da confiança na própria capacidade de proteger o que ama.
O retorno de Baldr depois de Ragnarök é a promessa do mito: o que foi perdido pela negligência com o pequeno não é perdido para sempre. Mas o retorno só ocorre depois do fim, depois da destruição completa e da reconstrução. Antes disso, Baldr permanece onde caiu. A perda por descuido com o detalhe tem seu próprio tempo de maturação.
A pergunta para hoje: o que você considerou pequeno demais para pedir juramento? Que risco você descartou por "insignificante demais para ser real ameaça"? E onde, no seu sistema mais protegido, cresce um visco jovem que ninguém pediu para jurar?
A inscrição: Frigg pediu juramento a cada coisa do mundo. Cada uma prometeu não machucar Baldr. Cada uma, exceto o visco. Era pequeno demais para ser ameaça. E foi exatamente esse que matou. O detalhe que derruba não é o que parecia perigoso e ignoramos. É o que pareceu inofensivo demais para merecer atenção.
Até o próximo diagnóstico.
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