Mitologia do Dia #027 · As Moiras (Parcas)
Mitologia do Dia

EDIÇÃO Nº 027

O MITO DE HOJE

As Moiras (Parcas)

Grécia arcaica. Cloto, Láquesis, Átropos. As que fiam o destino.

O que não está sob seu controle

Leia ouvindo

Mitologia do Dia

Spotify
As três Moiras com fuso, régua e tesouras cortando o fio

A INSCRIÇÃO

Elas fiam, medem e cortam. Nessa ordem. Sem exceção. Sem apelação.

Acima de Zeus. Acima dos titãs. Acima de qualquer deus, herói ou mortal. Três figuras sentadas com um fio nas mãos. Uma fia. Uma mede. Uma corta. E ninguém, em três mil anos de mitologia grega, conseguiu mudar a decisão delas.

I

O Mito

As Moiras (Cloto, Láquesis e Átropos) são as três deusas do destino. Hesíodo, na Teogonia, dá-lhes duas genealogias. Na primeira, são filhas de Nix (a Noite), nascidas sem pai, da escuridão primordial. Na segunda, são filhas de Zeus e Têmis (a Justiça). A dupla origem sugere que o destino é tanto anterior aos deuses quanto sancionado por eles.

Cloto (a fiandeira) segura o fuso e fia o fio da vida. Ela inicia. Láquesis (a distribuidora de quinhões) mede o comprimento do fio. Ela define a extensão. Átropos (a inflexível) corta o fio com suas tesouras. Ela termina. O nome Átropos significa literalmente "aquela que não se pode desviar". Sem apelação.

Platão, na República (Livro X, Mito de Er), descreve as Moiras como filhas de Ananke (a Necessidade), sentadas num trono cósmico, cantando em harmonia com as Sereias que giram as esferas celestes. Cloto canta o presente, Láquesis o passado, Átropos o futuro.

O detalhe mais importante: nem Zeus as controla. Homero e os trágicos gregos são consistentes nisso. Zeus é o mais poderoso dos deuses. Mas o fio das Moiras é anterior à sua vontade. Quando Sarpédon, filho de Zeus, estava prestes a morrer na Ilíada (canto XVI), Zeus quis salvá-lo. Hera o advertiu: interferir no destino traria o caos ao cosmos. Zeus cedeu. Sarpédon morreu.

O fio é democrático. Deuses, heróis e mortais recebem o mesmo tratamento. A diferença é o comprimento, não o material.

Platão, no Mito de Er (República, Livro X), acrescenta uma dimensão perturbadora: antes de nascer, cada alma escolhe seu quinhão. Láquesis oferece os lotes de vida, e as almas escolhem. O mensageiro anuncia: 'A responsabilidade é de quem escolhe. O deus não é responsável.' A combinação de escolha e determinação é o paradoxo central das Moiras: o fio é dado, mas a vida dentro do fio é sua.

"Nem Zeus controla o fio das Moiras." (Homero, Ilíada XVI)

II

O Diagnóstico

O que os gregos estavam registrando é o reconhecimento de que existe uma dimensão da vida que não responde à vontade, à virtude, ao esforço ou à oração. As Moiras são a representação do que simplesmente é.

Jung chamaria as Moiras de manifestação do Self, a totalidade que inclui o consciente e o inconsciente, o escolhido e o dado. O Self não é o ego. O ego escolhe. O Self inclui o que não foi escolhido. As Moiras representam a parte da vida que o ego não controla, não importa quanto controle exerça sobre todo o resto.

Hillman, em "O Código da Alma", propõe o conceito de daimon: uma espécie de semente que cada pessoa traz ao nascer, uma vocação ou destino que não é escolhido mas que insiste em se manifestar. As Moiras são a estrutura que contém o daimon. O fio já está fiado. A pessoa pode fazer o que quiser com o tecido, mas o comprimento e o material foram dados.

Os estoicos gregos (Epiteto, Marco Aurélio) construíram uma filosofia inteira sobre essa distinção: o que está sob nosso controle (as nossas respostas) e o que não está (tudo o mais). As Moiras são a personificação do "tudo o mais".

Freud reconheceria nas Moiras a representação do princípio de realidade. O princípio do prazer quer tudo, agora, sem limite. O princípio de realidade impõe as condições: tempo finito, corpo mortal, consequências irreversíveis. As tesouras de Átropos são o princípio de realidade em forma mitológica.

O padrão é cotidiano e inescapável. A ilusão de que com esforço suficiente tudo é possível. A crença de que se planejar direito nada dá errado. A expectativa de que o universo vai cooperar se a intenção for pura. As Moiras não avaliam intenção. Elas fiam, medem e cortam.

O diagnóstico é este: a parte mais difícil da maturidade não é conquistar o que se quer. É aceitar o que não se pode mudar. Sem resignação. Sem amargura. Com clareza.

O filósofo Albert Camus, em 'O Mito de Sísifo', propôs que a questão fundamental da filosofia é decidir se a vida vale ser vivida apesar da ausência de controle total. As Moiras são a personificação dessa ausência. E a resposta de Camus (o absurdo não é motivo para desistir, mas para continuar com lucidez) é a resposta adulta ao fio que as Moiras fiam.

Viktor Frankl, em 'Em Busca de Sentido', sobreviveu a Auschwitz e concluiu que a última liberdade humana é a liberdade de escolher a atitude diante do que não se pode mudar. As Moiras determinam o comprimento do fio. Frankl descobriu que a largura (a qualidade, o significado) ainda é nossa. A sabedoria não é controlar o fio. É tecer com o que foi dado.

O conceito budista de impermanência (anicca) e o conceito grego de Moira convergem num ponto: resistir ao que é custa mais do que aceitá-lo. A resistência ao fio não alonga o fio. Apenas tensiona quem puxa. A sabedoria prática é: use o comprimento que tem. Não o que gostaria de ter.

III

O Espelho

O que na sua vida está fora do seu controle e você ainda está tentando controlar?

Não o que você escolhe todos os dias. O que foi dado. O comprimento do fio, a genética, a época em que nasceu, as perdas que vieram sem aviso, o que aconteceu quando você era pequeno demais para decidir.

As Moiras não negociam. Não são cruéis. São precisas.

A pergunta é: você já fez paz com as tesouras?

O exercício das Moiras é este: liste três coisas na sua vida que não dependem de você. Não que você prefere não controlar. Que você não controla. Que nenhum esforço muda. Agora observe a energia que você gasta tentando mudar essas coisas. Essa energia tem nome: luta contra Átropos. E Átropos, como o nome diz, não se desvia.

Até o próximo diagnóstico.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: Zeus tem poder para mudar a decisão das Moiras?

VVerdadeiro FFalso

Clique para descobrir se acertou.

Continue lendo