Mitologia do Dia #036 · Ares
Mitologia do Dia

EDIÇÃO Nº 036

O MITO DE HOJE

Ares

A fúria sem filtro

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Mitologia do Dia

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Ares — ilustração mitológica

A INSCRIÇÃO

Ares não é coragem. É a raiva que ainda não aprendeu a se chamar de outra coisa.

Ele entra primeiro. Sem plano. Sem estratégia. Só lança e grito. Os outros deuses o evitam. Não porque tenham medo. Porque ele é constrangedor. Mas é também necessário. Ninguém vence guerra alguma sem o pedaço dele.

I

O Mito

Ares é filho de Zeus e Hera. Hesíodo (Teogonia, v. 922) menciona o nascimento sem cerimônia. Homero, na Ilíada, é quem dá a Ares sua fisionomia completa: o deus da guerra que os próprios deuses desprezam.

Em Ilíada V.890-893, Zeus dirige-se ao filho com uma frase que é praticamente um diagnóstico clínico: "para mim, és o mais odioso de todos os deuses que habitam o Olimpo, pois sempre amas as querelas, as guerras e os combates". Zeus, o pai, confessa que detesta o próprio filho. A guerra é necessária. Mas o deus da guerra é odiado.

Ares é diferente de Atena. Atena é estrategista, racional, fria. Sua guerra é tática. A guerra de Ares é visceral, caótica, sangrenta. Quando os dois se enfrentam na Ilíada (V.835-863), Atena vence facilmente. A inteligência militar derrota a fúria pura. Mas Ares não desaparece. Volta. Ele é o impulso que precede o cálculo.

Os filhos de Ares são significativos. Com Afrodite, gera Eros (numa das versões), Anteros, Deimos (medo) e Fobos (terror). Os dois últimos o acompanham na batalha. Onde Ares chega, chegam medo e pânico. Não a coragem. O pânico. Ares não inspira heroísmo. Inspira contágio emocional negativo.

Apolodoro (Biblioteca, III.4.1) conta que Ares matou Halirrótio, filho de Posêidon, por ter tentado violar Alcipe, filha do próprio Ares. Posêidon levou Ares a julgamento. Foi o primeiro processo da mitologia, realizado em uma colina de Atenas que passou a se chamar Areópago, "colina de Ares". Ares foi absolvido. A defesa do território paterno é legítima até para o deus mais condenado.

Heródoto (História, V.7) registra que os trácios, povo do norte da Grécia, adoravam apenas três deuses: Ares, Dionísio e Ártemis. Os trácios eram considerados pelos gregos como bárbaros, violentos, selvagens. Para eles, Ares era deus principal. Para os atenienses, era o deus que se evitava. A diferença geográfica é cultural. Os trácios não sublimavam a fúria. Os atenienses tentavam.

Homero, na Ilíada (XXI.391-414), narra Ares ferido por Atena com uma pedra. Ares grita "como nove ou dez mil homens em batalha" e foge ao Olimpo, choramingando. O deus da guerra chora. O paradoxo é deliberado. Quem só sabe atacar não sabe perder. Ares é destemido na ofensiva e infantil na derrota. A fúria sem filtro produz uma personalidade que não tem amortecedor para a frustração.

Eurípides, em A Loucura de Héracles, mostra Ares como o pai da luta cega. Héracles, em surto induzido por Hera (e dentro do território afetivo de Ares), mata os próprios filhos pensando que são inimigos. Quando volta a si, percebe a tragédia. A fúria não distingue. É o ponto. Ares não vê. Ataca.

II

O Diagnóstico

Robert Bly, em Iron John, escreve sobre o "guerreiro interior" que o homem moderno foi ensinado a reprimir. Bly distingue dois tipos de agressividade: a do guerreiro (defesa de fronteiras, proteção de causas, capacidade de dizer não) e a do bárbaro (raiva sem causa, violência indiscriminada, destruição). A cultura ocidental contemporânea, segundo Bly, falhou em educar a primeira e acabou produzindo, por contraste, a segunda. Quem não desenvolve guerreiro vira bárbaro quando explode.

James Hillman, em A Terrível Paixão pela Guerra, propõe uma leitura mais radical. A guerra não é exceção da humanidade. É constante. Toda cultura tem Ares. Negar Ares é fingir que ele não existe; o efeito é que ele governa por debaixo. O homem que reprime sistematicamente a própria raiva produz, a longo prazo, uma raiva mais perigosa: a que escapa em momentos errados, em alvos errados, com força desproporcional. Ares não some por ser ignorado. Migra para o subterrâneo e volta como sintoma.

Carl Jung, em Aion, fala da Sombra como tudo que o ego rejeitou. Ares é a Sombra do homem civilizado. O profissional educado, articulado, gentil, contido, frequentemente abriga um Ares trancafiado. E quando o Ares trancado finalmente aparece (na briga de trânsito, na discussão com a esposa, no e-mail enviado às três da manhã), aparece com força bruta, sem mediação. A psique pagou juros pela repressão.

Mas há outro lado. Existe gente que vive em Ares permanente. A pessoa que está sempre furiosa. Que reage de forma desproporcional a tudo. Que confunde estar vivo com estar irritado. Esse perfil também é Ares, mas em outra dosagem. É o Ares contínuo, sem reservatório, sempre vazando. Para essa pessoa, o problema não é negar a raiva. É distingui-la de outras emoções.

Jean Shinoda Bolen, em Os Deuses em Cada Homem, descreve o homem-Ares como aquele que reage com o corpo antes de processar com a mente. Pode ser excelente bombeiro, atleta, soldado, primeiro-socorrista. Mas tende a desastres em escritórios, casamentos longos, e qualquer ambiente que exija paciência política. A força do arquétipo é a mesma que produz suas falências.

O diagnóstico contemporâneo é este. A raiva é uma emoção como qualquer outra. Tem função: sinaliza violação de fronteira, ameaça à integridade, injustiça. Quem não sente raiva diante de injustiça tem um problema diagnóstico. Mas a raiva precisa de circuito. Precisa ser nomeada, examinada, e dirigida. Quando é dirigida sem nome, é Ares cego. Quando é nomeada e dirigida, é guerreiro.

Marshall Rosenberg, em Comunicação Não-Violenta, oferece uma fórmula prática que essencialmente educa Ares. A raiva, ele diz, é sempre um sinal de que uma necessidade humana profunda não foi atendida. A pergunta certa diante da raiva não é "como me vingar?" mas "qual necessidade minha foi violada aqui, e o que eu posso pedir agora?". A pergunta transforma fúria em comunicação. Não suprime. Educa.

A cultura moderna tem uma tendência específica de patologizar todo Ares. "Você está com raiva" virou diagnóstico. "Calma" virou imperativo. Mas a calma artificial é apenas Ares reprimido. A pessoa pacífica de fora pode estar fervendo por dentro. O dia em que a panela explode, todo mundo se pergunta como aquela pessoa "tão tranquila" pôde fazer aquilo. A resposta é simples. Não era tranquila. Era Ares trancado.

A pergunta para hoje. Onde está sua raiva, e o que ela está te dizendo? Há uma raiva legítima que você está engolindo porque não é "elegante" senti-la? Há um limite que foi pisado e você fingiu que não foi? Há algo que pede defesa e você está chamando de paciência?

Por outro lado: há uma raiva que você está descarregando em alvos errados? O motorista da frente que te irritou de manhã não tinha culpa do que aconteceu na sua vida na semana passada. Ares mira no que aparece. Mas a raiva real frequentemente é endereçada a outra pessoa, a outra situação, a outro tempo.

Ares vive nos dois extremos. No homem que nunca se irrita até explodir, e no homem que está sempre irritado e nunca produz nada. O caminho é o meio. Sentir, nomear, dirigir. A raiva como informação, não como identidade.

A inscrição final: Ares não é coragem. É a raiva que ainda não aprendeu a se chamar de outra coisa. Ensinar a raiva a se chamar pelo nome certo é o trabalho de uma vida. E o homem que nunca faz esse trabalho passa a vida em guerra, sem nunca chegar a entender contra quem.

Até o próximo diagnóstico.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: Quando Ares enfrenta Atena na Ilíada, Ares vence pela força bruta?

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