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Tudo nele é luz. A pele, a lira, a flecha, o oráculo, a profecia. E é exatamente por isso que ninguém chega perto. A luz não convida. A luz cega.
I
O Mito
Apolo é filho de Zeus com Leto, irmão gêmeo de Ártemis, nascido em Delos depois de uma fuga interminável da mãe perseguida por Hera. Hesíodo (Teogonia, vv. 918-920) registra a dupla. Mas é em Homero, no Hino Homérico a Apolo, que o deus aparece em sua plenitude: arqueiro de longo alcance, médico, profeta, músico, condutor das Musas.
A primeira ação adulta de Apolo é matar a serpente Píton em Delfos. O monstro guardava o oráculo da Terra, Gaia. Apolo derrota Píton e toma posse do santuário. A partir daí, Delfos é dele. A pitonisa, sacerdotisa que profetiza em transe, leva o nome da serpente vencida. Apolo não destrói o feminino antigo. Constrói a luz dele em cima do que era.
Apolodoro (Biblioteca, I.4.1) conta a história de Marsias, o sátiro que ousou desafiar Apolo numa competição musical. Marsias tocava aulos (espécie de flauta dupla). Apolo tocava lira. As Musas julgaram. Apolo venceu. O castigo, narrado também por Ovídio (Metamorfoses, VI.382-400), foi esfolar Marsias vivo, pendurado num pinheiro. A pele do sátiro, dizem, ainda chora quando se ouve aulos. Apolo não tolera concorrência no próprio domínio.
A relação de Apolo com mulheres é uma série de fracassos. Dafne, a primeira ninfa que ele ama, prefere virar loureiro a ser tocada por ele (Ovídio, Metamorfoses, I.452-567). Cassandra, a princesa troiana, recebe dele o dom da profecia em troca de favores que depois nega; Apolo não pode revogar o dom, então adiciona uma maldição: ela profetiza, mas ninguém acredita. Coronis, mãe de Asclépio, é morta por Apolo após ele descobrir uma traição que talvez nem tivesse acontecido. Sibila de Cumas pediu vida longa, esqueceu de pedir juventude, e envelheceu encolhendo até virar uma voz dentro de uma jarra.
O padrão é nítido. Apolo ilumina, mas não toca. Profetiza, mas não escuta. Quando se aproxima do feminino, o feminino foge, vira árvore, vira maldição, vira ruína. A luz dele é tão intensa que queima o que tenta tocar.
Sófocles, em Édipo Rei, faz de Apolo o deus que pronuncia a sentença irrevogável: o oráculo de Delfos diz que Édipo matará o pai e desposará a mãe. Tudo acontece. O destino apolíneo é claro, é prévio, é irretrucável. Não há misericórdia. Há apenas a verdade exata, dita à distância, que se cumpre sozinha.
Calímaco e Píndaro, mais tardios, suavizam a figura. Apolo vira deus da harmonia, da medicina via Asclépio, da ordem cívica. Mas mesmo ali, a frieza permanece. O templo de Delfos tinha duas inscrições: gnôthi seautón (conhece-te a ti mesmo) e mêdén ágan (nada em excesso). A sabedoria apolínea é luz seca, sem calor. Diagnóstico, não abraço.
II
O Diagnóstico
Friedrich Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, opõe Apolo a Dionísio. Apolíneo é forma, contorno, indivíduo, sonho, luz. Dionisíaco é dissolução, embriaguez, coletivo, êxtase. A cultura grega, segundo Nietzsche, tinha gênio porque equilibrava os dois. A cultura moderna ocidental, ele argumenta, supervalorizou o apolíneo. Vive em forma sem êxtase. Em luz sem sombra. Em diagnóstico sem cura.
James Hillman, em vários ensaios, descreve o complexo de Apolo: a obsessão com clareza, com forma perfeita, com performance impecável. O homem-Apolo é admirado, premiado, citado. Mas raramente tocado. Brilha, mas não aquece. Profetiza, mas não está presente. Ele se aproxima do mundo pelo pronunciamento, não pela escuta.
Ginette Paris, em Pagan Meditations, observa que Apolo é o deus dos vencedores em ambientes públicos: o palestrante elogiado, o médico admirado, o intelectual citado. Mas Paris adverte que esse arquétipo cobra um preço silencioso: a incapacidade de habitar a vida emocional. O homem-Apolo aparece nas sessões de terapia descrevendo a própria vida em terceira pessoa. Como se contasse a vida de outra pessoa. A clareza com que ele se descreve é a mesma clareza com que evita estar dentro do que descreve.
Marie-Louise von Franz, junguiana, fala do puer aeternus apolíneo: o homem que permanece eternamente jovem, brilhante, promissor, mas que nunca aterrissa. Promete tudo, entrega muito, e desaparece quando a relação exigiria peso. Apolo nunca casa. Nunca tem filhos legítimos. Nunca permanece.
O diagnóstico contemporâneo é direto. A cultura premia Apolo. O LinkedIn é apolíneo. O palco é apolíneo. A entrevista é apolínea. A performance pública é apolínea. Mas a vida íntima exige Dionísio. E o homem-Apolo, treinado a vida inteira em forma e clareza, chega aos quarenta sem saber dançar, sem saber chorar de alegria, sem saber estar bêbado de presença em uma noite qualquer.
A flecha de Apolo é precisa. Mas precisão não é vínculo. Cassandra profetiza com perfeição, e ninguém acredita, porque a perfeição da fala não compensa a ausência de afeto. Você pode ser exato e ser ignorado. Pode ser brilhante e ser evitado. Pode ter razão em tudo e estar sozinho em cima da razão.
A pergunta apolínea é esta: quantas vezes você teve razão e perdeu o vínculo? Quantas vezes você diagnosticou alguém com tal clareza que a pessoa precisou se afastar para sobreviver à acuidade? Quantas vezes você foi a luz que iluminou tão fortemente que ninguém conseguiu permanecer no campo?
A cura de Apolo não é apagar a luz. É deixar a luz oscilar. Aceitar a sombra de Dionísio dentro de si. Beber, dançar, errar, gaguejar, amar mal, ser ridículo. A perfeição apolínea isolada é monumento. E ninguém abraça monumentos.
Píton, a serpente que Apolo matou em Delfos, era a Terra. Era o feminino antigo, o úmido, o subterrâneo. Apolo construiu o oráculo dele em cima dela. Mas o oráculo só funciona porque a pitonisa, em transe, ainda é Píton. A luz de Apolo profetiza, mas a profecia sobe das entranhas da serpente derrotada. Sem ela, o deus não fala.
Quem você matou para construir o seu Delfos? E quanto da sua luz depende, em segredo, da sombra que você fingiu não precisar?
Até o próximo diagnóstico.
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