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Ela nasceu da espuma. Mas a espuma vinha do sêmen de um deus castrado por seu próprio filho. O começo dela já é violência. Por isso o que ela traz nunca é só ternura. É fome. E fome é o que move tudo, inclusive o que destrói.
I
O Mito
Afrodite tem duas genealogias. Em Hesíodo (Teogonia, vv. 188-200), nasce da espuma do mar, gerada quando Cronos castrou o pai Urano e atirou os genitais ao oceano. A versão é radical. A deusa do amor surge de uma mutilação. Em Homero (Ilíada, V.370), ela é apresentada de forma mais polida: filha de Zeus com Dione. Mas a tradição mais antiga é a de Hesíodo. Afrodite vem de violência cósmica, não de família organizada.
Casada com Hefesto, deus aleijado e ferreiro, Afrodite tem amantes notórios. Ares é o principal. A Odisseia (canto VIII, vv. 266-366) narra o episódio em que Hefesto descobre a traição, fabrica uma rede invisível, prende os dois amantes nus na cama, e chama todos os deuses para rir. Os deuses riem. Mas alguns, segundo Homero, dizem em voz baixa que trocariam de lugar com Ares. Afrodite humilhada continua sendo Afrodite. O ridículo não a diminui.
Pausânias (Descrição da Grécia, I.14) registra que em Atenas havia dois cultos distintos: Afrodite Pandêmia (vulgar, popular, da sexualidade comum) e Afrodite Urânia (celeste, do amor elevado). Platão, no Banquete (180d-181c), articula a dupla. Mas a divisão é cultural, não real. Para os gregos arcaicos, Afrodite é uma só. O desejo é um só. Ele se manifesta no encontro fortuito e no casamento contemplativo, e em ambos é a mesma força.
Apolodoro (Biblioteca, III.14.4) conta a história de Adonis. O jovem mortal pelo qual Afrodite e Perséfone disputam. Zeus decide: Adonis passará um terço do ano com Afrodite, um terço com Perséfone, e um terço onde escolher. Adonis escolhe Afrodite. Mas é morto por um javali (provavelmente enviado por Ares ciumento). Afrodite chora. Do sangue de Adonis brotam anêmonas. O ciclo de Adonis vira culto agrário no Mediterrâneo: a morte do jovem amado e seu retorno cíclico marca o fim do verão e o renascimento da primavera. A deusa do desejo está ligada à fertilidade da terra. Sexo e agricultura são o mesmo movimento.
Eurípides, em Hipólito, mostra outra face. Hipólito, jovem caçador, despreza Afrodite e venera só Ártemis. Afrodite faz com que Fedra, madrasta de Hipólito, se apaixone perdidamente por ele. Fedra resiste, sofre, e termina suicidando-se depois de acusar falsamente Hipólito de tentativa de estupro. O pai, Teseu, amaldiçoa o filho. Hipólito morre. Afrodite não negocia. Quem a despreza paga.
Homero, na Ilíada, atribui a Afrodite a causa da Guerra de Troia. Páris, príncipe troiano, julga uma disputa entre Hera, Atena e Afrodite sobre quem é a mais bela. Hera oferece poder. Atena oferece sabedoria. Afrodite oferece a mulher mais bela do mundo, Helena. Páris escolhe Afrodite. Ele leva Helena. A guerra começa. Dez anos depois, Troia é uma cidade em ruínas. Toda guerra começa pequena. Esta começou num juízo de beleza.
II
O Diagnóstico
Eros, o deus criança alado que vira Cupido na tradição romana, é frequentemente colocado como filho de Afrodite. Mas Hesíodo (Teogonia, vv. 116-122) faz de Eros uma das forças primordiais do cosmos, anterior aos deuses olímpicos. A intuição arcaica é precisa. O desejo não é filho do amor. É anterior ao amor. Afrodite é a forma sob a qual o desejo se manifesta no humano. Mas o desejo é cósmico. Move planetas. Move células. Move guerras. Move escrita.
Sigmund Freud chamou isso de libido. Energia sexual entendida em sentido amplo: força de vida, Lebenstrieb, o que empurra o organismo na direção de outro organismo. Freud insistia que reprimir essa força não a apaga; redireciona. Sublimação é Afrodite virando arte, ciência, profissão, religião. Mas é sempre Afrodite. Sempre o mesmo combustível.
James Hillman, em Re-Imaginando a Psicologia, descreve a anima mundi como o desejo do mundo por si mesmo. Não há mundo sem Afrodite. A flor não floresce sem ela. O pássaro não canta sem ela. O humano não escreve, não pinta, não constrói sem ela. A frigidez total é morte. Quem não deseja nada está morrendo, mesmo que ainda respire.
Mas o ponto é o que Eurípides escreveu há 2400 anos. Quem despreza Afrodite paga. E quem se entrega cegamente a ela também. A deusa não é cura. É força. Funciona como vento ou rio. Você pode usar para gerar energia ou pode ser arrastado e morrer afogado.
Jean Shinoda Bolen, em As Deusas e a Mulher, distingue a mulher-Afrodite das outras: ela vive intensamente o desejo, transforma cada relacionamento em criação, mas tem dificuldade com fidelidade Hera e com autonomia Ártemis. A força criadora é a mesma que destrói o casamento. Adonis morre porque Afrodite o ama. Hipólito morre porque despreza Afrodite. As duas mortes são da mesma deusa.
A cultura contemporânea oscila entre dois extremos. O moralismo religioso que demoniza Afrodite (sexo é pecado, desejo é fraqueza, prazer é desvio). E o consumismo hedonista que banaliza Afrodite (sexo é entretenimento, desejo é commodity, prazer é dever). Ambos erram pelo mesmo motivo: tratam a deusa como objeto. Ela não é objeto. É força. E forças não obedecem moral.
O diagnóstico para hoje. Quem você está desejando neste momento, e o que esse desejo está te dizendo sobre o que falta na sua vida? Porque Afrodite raramente desejá apenas o objeto que aparece. Geralmente o objeto é um símbolo de algo maior. A pessoa que te tira o sono é, frequentemente, uma carta endereçada a uma parte sua que está em silêncio há anos. Você lê a carta como se fosse a pessoa. Mas a pessoa é só o envelope.
Por outro lado: o que você está reprimindo? Que vontade legítima foi engavetada por culpa, por vergonha, por medo de parecer? Afrodite reprimida não desaparece. Vira sintoma. Vira raiva difusa. Vira melancolia sem causa. Vira insônia. O corpo guarda o que a mente recusou. E em algum momento o corpo cobra.
Adonis morreu jovem. Afrodite chorou. Mas Adonis volta. A natureza do desejo é cíclica. Quem morre na primavera renasce no outono seguinte. Você não vai resolver Afrodite. Vai aprender a conviver com ela. Vai aprender a distinguir entre o desejo que cria e o desejo que destrói. Geralmente é o mesmo desejo. A diferença está no que você faz com ele. Sem ela: deserto. Com ela cega: incêndio. Com ela vista: fogueira que aquece sem queimar a casa.
Quem você está perseguindo, e por quê? Quem está te perseguindo, e o que você está fazendo com isso? A deusa não pergunta se a fome é certa ou errada. Pergunta se você está prestando atenção a ela. Quem ignora Afrodite vira Hipólito. Quem se entrega cegamente vira Páris. Existe um terceiro caminho. Reconhecer a fome, nomear a fome, e decidir, com lucidez, o que vai fazer com ela.
Até o próximo diagnóstico.
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