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A Morrígan nunca matou ninguém: ela só anuncia, e é por isso que assusta mais que qualquer deus armado. O aviso que a gente se recusa a ouvir não deixa de valer. Veja o que o corvo está dizendo na sua vida.
Ela pousa no poste de uma carruagem e olha nos seus olhos. Não diz nada. Apenas olha. Você sabe, naquele instante, que vai morrer. Não hoje, talvez não esta semana. Mas ela já viu o fim, e ao vê-la, você também viu.
É assim que A Morrígan age: não com espada, mas com presença. Não matando, mas anunciando. O corvo não é a morte. É a sombra da morte projetada no presente.
I
O Mito
A Morrígan (às vezes grafada Mórrígan, "Rainha dos Fantasmas" ou "Grande Rainha", do irlandês antigo mór + rígan) é uma das divindades mais complexas e temidas do panteão celta irlandês.
Aparece nos textos medievais que preservam a tradição oral mais antiga, especialmente no Ciclo do Ulster, conjunto de sagas em irlandês antigo transmitidas em manuscritos como o Lebor na hUidre (O Livro da Vaca Parda, séc. XI–XII) e o Book of Leinster (séc. XII).
A saga central onde ela atua é o Táin Bó Cúailnge (O Roubo do Gado de Cooley).
A Morrígan é simultaneamente uma e tripla. Ela faz parte de uma tríade de deusas, com Badb (o corvo do pânico) e Macha (deusa da soberania e da terra), que juntas compõem a face feminina da guerra. Em algumas fontes também se associa Nemain (o terror) à tríade.
A Morrígan não é simplesmente uma deusa da guerra no sentido marcial: ela é a soberania mesma, a força que determina quem governa e quem morre. Ela escolhe reis e guerreiros. Mais: ela anuncia o resultado antes de a batalha começar.
A relação com Cú Chulainn, o grande herói do Ulster, é o cerne do mito. Ela se aproxima dele às margens de um vau e se oferece como amante, declarando que ama sua fama e suas conquistas.
Ele a recusa, não a reconhece, trata-a como simples mulher, diz que não tem tempo para mulheres enquanto guerreia. Ela, revelando sua natureza, avisa que vai contra ele em batalha.
E o faz: transforma-se em enguia, enrolando-se nos tornozelos dele enquanto ele luta num vau; em loba, desviando seu rebanho; em vaca vermelha, liderando um gado contra ele. Cú Chulainn a fere nas três formas.
Depois, sem reconhecê-la disfarçada de velha, cura sem querer suas três feridas ao aceitar leite de seus animais, e ao fazê-lo, abençoa-a com as mesmas palavras que valeriam para um inimigo vencido.
O desfecho é inevitável. Quando Cú Chulainn vai à batalha final, a que o matará, a Morrígan aparece novamente. Agora seus apetrechos de guerra quebram sem razão aparente. Seu broquel cai da parede. Ele tenta ignorar.
Então ela se posta perto, lavando sua armadura e seus membros num vau, o que os celtas chamavam de bean nighe, a lavadeira do vau, presença que significa morte iminente. O guerreiro que a vê lavar sua roupa já sabe: não voltará. A Morrígan não mata Cú Chulainn.
Quem o mata são os feitiços de Lugaid e a lança de Medb. Mas ela esteve em cada passo do caminho. No fim, quando ele morre amarrado a uma pedra para morrer de pé, ela pousa em seu ombro, como corvo. A profecia se completa.
A Morrígan também aparece como figura de soberania na saga mitológica do Lebor Gabála Érenn (O Livro das Invasões) e nas batalhas dos Tuatha Dé Danann.
No Cath Maige Tuired (A Segunda Batalha de Mag Tuired), ela negocia com o Dagda (o deus pai) às vésperas da batalha contra os Fomorians, fornecendo estratégia e poder mágico. Aqui ela é aliada.
A Morrígan não tem lado fixo, tem função: garantir que o destino se cumpra, qualquer que seja esse destino.
Sua forma animal mais recorrente é o corvo (badb catha, o corvo da batalha). Na tradição celta, corvos voando sobre um campo de batalha eram presença da Morrígan. Versos do Táin descrevem corvos disputando membros de guerreiros mortos: o banquete da deusa. Não como crueldade, como signo de que a sorte foi lançada, de que o destino daquele dia se completou.
II
O Diagnóstico
A Morrígan é, arquetipicamente, a figura do destino que não se negocia com força, apenas com lucidez.
Carl Jung, em Psicologia e Alquimia, identifica figuras femininas sombrias recorrentes no inconsciente masculino como projeções da Anima em seu aspecto terrificante, não negativas em si, mas portadoras de verdade que o ego resiste. A Morrígan é exatamente isso: ela traz a verdade que o herói recusa.
Cú Chulainn a rejeita como amante porque não consegue parar a guerra por nada, e essa incapacidade de parar, de reconhecer o feminino que o convoca à relação, à vulnerabilidade, é o que sela seu destino.
A recusa de Cú Chulainn é diagnóstica. Ele estava no auge: invencível, temido, famoso. Não havia nada que pudesse derrotá-lo em combate justo. Mas a Morrígan não aparece para testar sua força. Ela aparece para testar se ele consegue parar. Parar de guerrear. Parar de ser herói por um momento.
Reconhecer a mulher diante dele, a força que ela carrega, o que ela está oferecendo. Ele não consegue. A tragédia céltica não é de fraqueza, é de força demais, de herói que não pode se render ao que é maior do que ele.
James Hillman, em O Código do Ser, fala do daimon, a força interna que carrega o destino singular de cada pessoa. A Morrígan é, em muitos sentidos, o daimon externalizado: a parte do destino que precede as escolhas, que insiste em se cumprir.
Não por maldade, mas porque certas forças são maiores que o ego individual. O herói celta é esmagado não pela deusa, mas pela própria recusa em dialogar com ela.
A pergunta contemporânea que o mito levanta é difícil: quantas vezes você recusou a voz que anunciava o que estava por vir, simplesmente porque aceitar seria parar de ser quem você é? O sinal claro de que uma relação estava acabando, mas você continuou como se não fosse.
O aviso interno de que aquele projeto estava nos trilhos errados, mas você continuou porque parar seria fraqueza. O corpo exausto pedindo repouso, mas você continuou porque o herói não descansa. A Morrígan aparece nesses momentos. E quando a ignoramos, ela não desaparece. Ela espera no vau, lavando.
Há algo ainda mais preciso no mito: a Morrígan fere Cú Chulainn nas três formas em que se opõe a ele, e ele a cura sem saber. Isso é psicologicamente exato.
Quando resistimos à verdade que nos é anunciada, ferimos o anunciador, e frequentemente agimos, em seguida, de maneiras que curariam a situação se fossemos conscientes. Tomamos a decisão certa sem saber que estávamos respondendo ao aviso que recusamos. A tragédia é que a cura inconsciente não suspende o destino.
O que ficou sem reconhecimento ainda precisa ser reconhecido.
Marion Woodman, em Leaving My Father's House, descreve a figura da deusa sombria como convocação ao feminino profundo, não ao gentil, mas ao que carrega verdade, transformação e morte simbólica.
Resistir a essa convocação é o que ela chama de "armadura psíquica": a rigidez de quem não consegue parar de funcionar como máquina de performance. Cú Chulainn é arquétipo desse padrão, perfeito, invencível, incapaz de ser humano por um momento.
A dimensão de profecia merece atenção própria. A Morrígan não apenas prevê, ela também participa da realização. Isso não é determinismo cego.
É o que a psicologia analítica chama de acting out: quando não integramos um padrão interno, ele se manifesta externamente de maneiras que parecem "destino" mas são, em parte, criadas pela nossa recusa de lidar com ele internamente.
O guerreiro que não ouve o aviso não é destruído pelo destino, é destruído pela lógica interna de sua própria recusa.
Há também uma leitura sobre os anúncios que fazemos a nós mesmos e ignoramos. A tradição celta, ao contrário da grega, não tem oráculo distante num templo: a deusa aparece no cotidiano, à beira do caminho, disfarçada de vaca, de loba, de velha. O sinal está na paisagem comum.
A Morrígan não chega com trovão e cetro. Chega com corvos nos postes. Chega no pequeno colapso do broquel. Chega na figura de quem lava.
Os sinais do que vem raramente chegam como visões épicas, chegam como perturbações pequenas na rotina, como o óbvio que o ego ocupado não para para enxergar.
A pergunta para hoje: que anúncio você tem recebido, repetidamente, em formas diferentes, e que você continua recusando porque aceitar implicaria parar, mudar, reconhecer o que você prefere não ver? E mais difícil: o que seria diferente se você parasse, como Cú Chulainn deveria ter parado, e olhasse de frente para o que a deusa está mostrando?
A inscrição: A Morrígan não mata. Ela anuncia. E o que o corvo revela já pertence ao destino, o que muda é o que você faz com isso. Recusar o aviso não suspende o que vem.
Apenas garante que você chegue ao fim sem ter tido a chance de se preparar, de dialogar, de integrar. O corvo pousa. A questão é se você vai olhar de volta.
Até o próximo diagnóstico.
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